Fechados em casa, mas com todo um mundo de música e imagens para viajar no Le Guess Who On

Cancelado pela crise pandémica, o festival holandês reinventou-se. Pensado como canal televisivo diverso (concertos, entrevistas, cinema, reportagens dos quatro cantos do mundo), estará no ar, com acesso livre, desta sexta-feira até domingo.

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A programação inclui "Reports from Other Continents", série de reportagens sobre arte, música e cultura filmadas em várias partes do globo, como a Venezuela (na foto) DR
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A programação inclui "Reports from Other Continents", série de reportagens sobre arte, música e cultura filmadas em várias partes do globo, como o Congo (na foto) DR
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Serão emitidos concertos de anteriores edições do festival (na foto, Circuit des Yeux)
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Serão emitidos concertos de anteriores edições do festival (na foto, Sons of Kemet)
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Serão emitidos concertos de anteriores edições do festival (na foto, Sun Ra Arkestra)

Este fim-de-semana, a maior parte da população portuguesa estará em casa a partir das 13h, a cumprir o recolher obrigatório. Poderá viajar, ainda assim. Em ano de pandemia, o Le Guess Who, festival de Utrecht, Holanda, que se vem cimentando como pólo criativo importante no panorama europeu de festivais, transferiu-se para o online. Mas a sua atípica edição 2021 não será composta de streaming de concerto após streaming de concerto. Desta sexta-feira e até domingo, monta-se um canal de televisão peculiar, o LGW On: concertos, documentários, filmes (documentários sobre música, mas também Andrei Tarkovksy ou George Romero), entrevistas. Para ver online e com acesso livre.

“Ser uma mistura [de expressões] é-nos muito natural, dado que é assim que também pensamos [habitualmente] o festival. Ver música non-stop pode tornar-se aborrecido, mesmo para o melómano mais empedernido. O nosso objectivo era criar TV entusiasmante, que nós próprios quiséssemos também ver”, diz ao PÚBLICO o director artístico Bob Van Heur.

Baseada num diálogo frutuoso entre riquezas do passado e revelações do presente da música independente, numa visão alargada, inclusiva, do fenómeno musical, abraçando manifestações criativas dos quatro cantos do mundo, e no poder que atribui aos seus protagonistas, os artistas, na definição da programação – há vários anos que músicos convidados assumem a posição de curadores –, o Le Guess Who anunciou em Maio o cancelamento da sua edição 2020.

Em Julho, conta Bob van Heur, “parecia bastante provável” que se conseguisse reunir fundos extra para montar qualquer coisa” – o objectivo era gerar muito necessário trabalho para os trabalhadores independentes, os promotores e as salas de concerto associadas do festival. Quatro meses depois, estamos prestes a ver o resultado desse trabalho. Infelizmente, a outra componente desta edição, que decorreria ao vivo, em Utrecht, exclusivamente com bandas e músicos holandeses, foi cancelada na semana passada, devido a novas restrições impostas para controlar a propagação do vírus. Felizmente, o canal que será um festival, alojado em on.leguesswho.com, estará disponível a todos a partir das 18h holandesas (17h em Portugal continental).

De 13 a 15 de Novembro, o LGW On emitirá concertos de anteriores edições do festival (Sun Ra Arkestra, Sons of Kemet, Circuit des Yeux, Nicolas Jaar e Patrick Higgins), entrevistas via Zoom com músicos (o presente indie-rock com Meg Duffy, dos Hand Habits e também associada a War on Drugs, ou Weyes Blood; a vanguarda kraut-rock com Jean-Hervé Peron, dos Faust), filmes escolhidos pelos curadores musicais (John Dwyer, dos Thee Oh Sees, a oferecer-nos terror clássico com Dawn of the Dead, de George Romero, The Bug a reconduzir-nos ao Solaris de Tarkovski, Lucretia Dalt a revelar-nos um sci-fi punk de culto de 1982, Liquid Sky), documentários, como Representing the Underrepresented, dedicado ao próprio Le Guess Who e criado pelo português Canal 180, e uma série de reportagens intituladas Reports From Other Continents. Criadas por equipas locais comissariadas pelo festival, trazem-nos reportagens sobre arte, música e cultura em vários pontos do globo (Gana, Turquia, Rússia, África do Sul, México, Índia, Indonésia ou Venezuela, entre outros).

Estas reportagens, que nos levam até ao Gana, onde conheceremos um grupo de mulheres, perseguidas na sequência de acusações de prática de bruxaria, que encontram refúgio na música, até ao Cáucaso, para acompanhar um grupo de devotos de black-metal na sua descoberta, qual epifania, da música tradicional, ou ainda ao Iraque, para conhecer a história do alaúde, do século XIV aos nossos dias, são um dos principais focos da programação. Não só por serem extensão do espírito que anima o festival, mas, diz Bob van Heur, por responderem a uma das grandes lições a retirar deste difícil ano de 2020. “Uma das coisas que aprendemos com tudo isto é que é ainda mais importante saber ouvir. Não podemos contar as histórias de outras pessoas por elas. Daí, estes documentos crus e honestos criados por agentes locais”, explica. “Num mundo que avança para uma monocultura mediática, é muito importante lembrar às pessoas tudo o que existe além dela. Especialmente lugares que são habitualmente ignorados ou mesmo completamente esquecidos.”

No fim-de-semana em que a maior parte de nós estará retida em casa, o LGW On será uma viagem possível – com muitas viagens dentro. Num momento estaremos entre o bulício incessante da capital indonésia, cortesia de Vincent Moon, que leva ao LGW On o seu filme Jakarta Jakarta!, no seguinte sorveremos o jazz cósmico da Sun Ra Arkestra, e quando dermos por nós haverá zombies de 1978 à solta no ecrã.

Entretanto, o futuro continua a preparar-se. Esta quinta-feira, foram anunciados os curadores convidados do Le Guess Who 2021 (John Dwyer, Lucretia Dalt, Matana Roberts, Midori Takada e Phil Elvrum) e anunciados os primeiros nomes em cartaz (Black Country, New Road, Bohren & Der Club of Gore, Low, Sessa ou o português DJ Lycox). Por agora, porém, caminhemos televisão fora.