Le Guess Who: sigamos o som em Utrecht

O Le Guess Who? é um festival holandês cuja oitava edição acolheu nomes como Swans, Einsturzende Neubauten, Dr. John, Savages, a lenda turca Selda ou os portugueses PAUS e Norberto Lobo. É um festival em que a sua cidade, Utrecht, é personagem destacada. É também ponto de encontro de uma comunidade globalizada. A música une-a, qualquer que seja a cidade em que se encontrem.

Fotogaleria
O concerto conjunto das Savages e dos Bo Ningen foi um dos pontos altos do segundo dia de festival Juri Hiensch
Fotogaleria
O festival teve o centro instalado nas várias salas do novo e imenso edifício chamado Tivoli Vredenbrug, inaugurado em Julho Juri Hiensch
Fotogaleria
O veterano Dr. John celebrou em palco os seus 73 anos Juri Hiensch
Fotogaleria
O público durante o 24 Hour Dronefest, uma sequência de 24 horas de concertos de noise Juri Hiensch
Fotogaleria
Einstürzende Neubauten Tim van Veen
Fotogaleria
King Tuff Tom Roelofs
Fotogaleria
Loop Erik Luyten
Fotogaleria
Selda Juri Hiensch
Fotogaleria
Silver Apples Erik Luyten
Fotogaleria
Sleaford Mods Tom Roelofs
Fotogaleria
Swans Erik Luyten
Fotogaleria
Zoro Inca, um dos músicos holandeses participantes no Mini Who, que ocupou vários espaços da Voorstraat Juri Hiensch

No topo daquele edifício camarário desactivado a cidade revela-se até onde a vista alcança. Lá ao longo Amesterdão, visível quando o céu está limpo. Estamos a 15 andares de altura e observamos aquela harmonia urbana sem rigidez no traço que associamos às cidades holandesas. Vemos a imponente torre da catedral, ex-libris da cidade, amputada da sua secção central por um tornado, em 1674.

Observamos as pessoas caminhando pelo emaranhado de pequenas ruas e o movimento constante de bicicletas. Vemos os canais cortando aqui e a ali a paisagem, com os seus passeios ao nível da água que conduzem a armazéns subterrâneos, imprescindíveis à cidade de mercadores de outrora, e que são hoje também cafés, residências, restaurantes.

Estamos em Utrecht, capital holandesa das bicicletas – são aos milhares e, em 2015, não por acaso, será daqui que partirá o pelotão da Volta À França em Bicicleta. Cidade universitária. 75 mil dos seus 330 mil habitantes são estudantes. Dois terços da população têm até 35 anos. Local ideal, portanto, para o que nos levou até ela.

Quando a vemos do alto, na manhã de dia 21 de Novembro, já tínhamos na memória concertos dos Einsturzende Neubauten e dos Silver Apples. Já víramos os Fumaça Preta de Alex Figueira, luso-venezuelano radicado em Amesterdão, os nossos PAUS ou os King Gizzard and The Lizard Wizard, trupe psicadélica australiana que o público do Vodafone Mexefest teve o privilégio de acolher a semana passada. Eram parte do alinhamento do primeiro dia da oitava edição do festival Le Guess Who?

Nos dias seguintes, com centro instalado nas várias salas do novo e imenso edifício chamado Tivoli Vredenbrug, inaugurado em Julho, mas alargando-se a diversos outros palcos de Utrecht, o público veria Dr. John, St. Vincent, Mac DeMarco, Iceage, Autechre, Sharon Van Etten, Vaselines, Sleaford Mods, Amen Dunes, os Tamikrest ou uma lenda da música turca chamada Selda.

No cartaz o emergente, o experimental, históricos da cultura pop e músicas fora do eixo anglo-saxónico. Eles e estrelas pop de um mundo que já não segue em massa estas estrelas – mas delas se fará a história futura. “A nossa ideia é sempre de fazer um equilíbrio entre o passado e o presente, muito de acordo com a forma de agir da geração web”, explica ao Ípsilon Johan Gijsen, um dos directores artísticos do festival. Diz também que, apesar de “desejo último” de que o Le Guess Who? se torne uma referência mundial (é a fasquia a que tem que apontar para melhorar ano a ano), o mais importante é “incluir-se na cidade”. Essa dupla dimensão, esse diálogo entre o local e o global, é aqui exposta exemplarmente. E não é exclusivo do Le Guess Who?, naturalmente.

A cidade molda aquilo que é peculiar a este festival, mas nele, tal como no Primavera Sound, por exemplo, ou em festivais dedicados à música popular urbana que se espalham pelo espaço urbano (o Mexefest de há uma semana), encontramos uma comunidade transnacional, unida pela net, pelos voos low-cost, pela atenção devotada à música como guia de vida. Não surpreende que, por exemplo, os taxistas que nos guiam não saibam de que festival falamos (há tantos). Um festival como estes é para uma minoria (uma imensa minoria globalizada).

Isto anda tudo ligado

É quinta-feira, dia 20 de Novembro. Corremos pelas ruas de Utrecht, mapa na mão, que ora é analisado para perceber se avançamos na direcção correcta, ora é escarrapachado na cara de locais a quem pedimos direcções. Caminhamos do Tivoli Vredenburg para o De Helling, um clube na zona leste da cidade, junto a uma passagem ferroviária, para ver os Silver Apples. Não vamos sozinhos. Ao longo de quatro dias, os estrangeiros (alemães, americanos, ingleses, espanhóis) irão encontrar-se, mapa na mão, para descobrir os recantos de Utrecht onde decorrem os concertos. Desta vez estamos com Danny, inglês, farmacêutico. Pede-nos que nos diga nomes de salas de concertos em Lisboa. Para que se lembre. Há um par de anos, não era farmacêutico. Andava a conduzir a carrinha de digressão dos Strange Boys. E levou-os até Lisboa, ao Musicbox. Agora está em Utrecht, a ver Simeon, ou seja Simeon Oliver Coxe III, ou seja, os Silver Apples, a comandar a multidão que se reuniu para ouvir aquela música hipnótica, electrónica xamânica sci-fi, precursora de rocks e Djs por vir. Sim, isto anda tudo ligado.

Nessa mesma noite, depois de nova corrida, cruzando a cidade a oeste, para ver os PAUS serem recebidos por um Ekko lotado por muito público conhecedor, a par de um veteranos do prog curiosos com o que a banda de Clarão anda a fazer, ouviremos dois holandeses nos seus 40 anos terminarem o elogio ao concerto com a memória recente de uma visita a Portugal. O porquê da visita? A música, naturalmente. Tinham ido até ao Ribatejo para ver o festival Reverence Valada, festim de rock psicadélico e vários afluentes ou tangentes. Pois, isto anda mesmo tudo ligado.

O Le Guess Who? nasceu como nascem a maior parte das grandes ideias. À mesa de um café. Foi numa que, entre um par de cervejas, Johan Gijsen e Bob Van Heur sonharam fazer um festival. Nasceu em 2007 e o entusiasmo de então com bandas canadianas como os Wolf Parade ou os Arcade Fire ditou o conceito da estreia: o Canadá (todas as bandas programadas eram dele originárias). Ano após ano, o festival foi crescendo e o Canadá, como atesta o cartaz de edição 2014, tornou-se pequeno demais. Crescendo em salas, em número de bandas e de público (este ano terá tido uma média diária de 15 mil espectadores) tornou-se parte integrante da recheada programação cultural da cidade e foi atraindo atenção do exterior (além do Ípsilon, estiveram em Utrecht as inglesas Mojo ou Quietus, jornalistas americanos ou bloggers uruguaios). E a cidade parece, de facto, ideal para ver crescer um festival como este.

“Queremos posicionar Utrecht como a cidade da música”, explica-nos Maarten van Heuven, da Utrecht Muziek, plataforma camarária para a divulgação e dinamização musical da cidade. Fala-nos de festivais de música antiga, de festivais de música de câmara e de música contemporânea. Diz-nos que, nos apoios distribuídos pelo município não existe distinção entre alta cultura e cultura popular. “Interessam-nos apenas ideias válidas e interessantes”. O novo Tivoli Vredenburg, explica, inclui-se nessa lógica.

O anjo e a lenda

Obra de um conjunto de arquitectos liderado pelo veterano Herman Hertzberger, 82 anos, foi inaugurado em Julho e viveu com o Le Guess Who? o seu primeiro grande acontecimento. Ali, cada espaço, que não se divide rigidamente por andares, tem um ambiente diferente, diverso dos demais. “Interessa-nos a possibilidade de ser explorado de forma independente”, explica Maarten van Heuven. “Concertos jazz nas salas mais acima, uma orquestra na principal, rock no topo”. Um caleidoscópio que o Le Guess Who? soube aproveitar. Ali, tudo em conjunto.

Do exterior, a dimensão do edifício contrasta com o cenário urbano da cidade. No interior envidraçado, é como se a cidade vivesse nele, literalmente – subindo, subindo, vamos vendo cada vez mais dela.

Ao longo de quatro dias, vimos Blixa Bargeld regressar para o encore dos Einsturzende Neubauten qual anjo esfarrapado, final de um concerto em que a banda surgiu acompanhada por secção de cordas, mas em que a virulência e a tensão daquela música, se mantiveram intactas. Dentro da sala, os Neubauten, força activíssima, ainda actuante. Como, apesar da sua natureza tão diferente, a dos Loop, espectros em contraluz criando uma massa sonora cujas vibrações sentimos nas narinas e na caixa torácica. Rock minimal no fio da navalha – já não temos os Spacemen 3, mas os Loop regressaram.

Um dia depois, naquela mesma sala, a Pandora, tememos assistir à morte de Mac DeMarco, quando o autor de Salad Days é içado pelo público para o balcão e, a três metros de altura, pergunta a quem o observa cá em baixo se estão preparados para o agarrar. Achámos que não estavam e tememos. Mas Mac DeMarco foi mesmo amparado e regressou a palco para entoar o último refrão de Still together.

Em quatro dias, entre as dezenas de bandas propostas, vimos o lendário Dr. John ser surpreendido por uma jovem holandesa em traje típico que lhe ofereceu um bolo pelos seus 73 anos. Fomos atacados (e boa porrada que foi) pelo concerto conjunto das Savages com os japoneses Bo Ningen, apresentando o álbum de colaboração Words to the Blind. O concerto foi um diálogo e um confronto. Aceleração hardcore, ruído em volume altíssimo, descarga noise implacável. Percebe-se porque as escolheu Michael Gira para actuar no âmbito da curadoria proposta pelo Le Guess Who.

Gira que assinou com os Swans um dos concertos mais celebrados do festival. Uma torrente de som que nos ataca os sentidos sem subterfúgios – na fila da frente, os miúdos novos fãs balançam a cabeça ao sabor das vagas eléctricas. A libertação parece nunca chegar, a tensão aumenta até níveis insuportáveis, até que sim, 10, 15 minutos depois, tudo explode por fim. Não estamos em segurança num concerto dos Swans, mas sabemos que estamos a ser bem conduzidos. O caminho é difícil, mas não desejaríamos seguir nenhum outro.

Em quatro dias, repetimos, entrámos no velho Tivoli, palco do primeiro Le Guess Who?, para descobrir a Kytopia, associação de músicos unidos para colaboração livre. Chegaram ali em Julho e adaptaram o espaço cedido pela Câmara, ocupando palcos, camarins, bastidores, armazéns, sótão, bar ou antiga zona de fumadores e transformando-os em 24 estúdios. Colin Benders, trompetista de relevo na cena holandesa, que assina como Kyteman explica: “a maior parte do que é feito aqui acaba por não ver a luz do dia, mas é importante falhar para que nasça depois qualquer coisa válida”. Guia-nos depois até ao sótão onde se esconde um verdadeiro paraíso: um atelier de sintetizadores vintage, reunidos por dois respigadores compulsivos que aproveitam a colecção para a pôr ao serviço da música. Trabalham com “pessoal que tem o software em casa, mas que prefere ‘the real thing’”. Trabalham para muitos países: Holanda, naturalmente, mas também Estados Unidos ou Itália.

Quem é Harry Merry?

Sábado à tarde, o laboratório musical que é o Kytopia e, por arrasto, Utrecht, espalhou-se por uma das ruas da cidade. Concretizando a ideia de abrir o Le Guess Who a todos, organizaram-se concertos gratuitos de bandas underground, maioritariamente holandesas, na Voorstraat e ruas adjacentes. Descobre-se, por exemplo, uma preciosidade chamada Harry Merry, apresentando como lenda de Roterdão. No fundo do bar De Bastaard, sobe a palco com fato de marinheiro, sintetizador e ritmos pré-gravados e deixa em delírio divertido os holandeses que bem o conhecem e de boca aberta de espanto, primeiro, de sorriso sincero depois, os estrangeiros curiosos. Música de uns Sparks portáteis, bizarra cantada em inglês que muitos confundirão com holandês – “é assim que falam os holandeses da idade dele”, explica alguém ao nosso lado” -, caretas de palhaço da pop e sons de Eurovisão em vertigem psicadélica. Quando termina, mão sabemos se Harry Merry é um génio, um louco ou os dois, mas é impossível não gostar dele. Estávamos no final da tarde de sábado. Espalhado pela cidade, o festival estava a um dia do seu final.


Sendo certo que o Le Guess Who? é festival global pelas bandas apresentadas e pelo público que atrai, não é menos que o distingue as particularidades da cidade que o acolhe. Falemos, portanto e novamente, de bicicletas. Toda a gente pedala. E quem não tem bicicleta aluga. Ou apanha boleia. Eis-nos então, tarde de domingo, a tentar chegar à Galeria Jaap Sleper, ao lado da Igreja de Santa Catarina, encavalitados numa bicicleta enquanto Margaret, tradutora e revisora de Amesterdão, antiga estudante em Utrecht, pedala para chegar a Norberto Lobo. Era essa a troca: ele oferecia-nos boleia, nós oferecíamos-lhe música que nunca ouvira (e que devia ouvir).

Na pequena galeria, perante cerca de duas dezenas de pessoas, o Norberto que acabou de editar o a espaços tumultuoso Fornalha foi outro: tudo harmonia, delicadeza nos arpejos e melodias extraídas das cordas. Embalo que os presentes seguiram com agrado e atenção. Impressive”, dirá Margaret quase no final, antes de seguir viagem até à Igreja de Vredenburg Leeuwenbergh para seguir o seu roteiro pessoal. O nosso leva-nos de novo ao De Helling para ver a Americana irresistível de Steve Gunn. Leva-nos depois até ao Ekko para não perder os Sleaford Mods, duo inglês que são os The Streets a quem a crise financeira caiu em cima da cabeça e, portanto, estão muito irritados, lixados da vida, irados e sem pachorra para subtilezas.

O Ekko está cheio, os perdigotos do vocalista que não canta e não rapa (“shouted word”, é o que têm chamado ao que faz) brilham à luz dos holofotes e estamos todos juntos naquilo que Jason Williamson diz: as desigualdades insuportáveis a que chegámos enquanto sociedade, a iniquidade do 1 por cento, o humor cáustico disparado contra as estrelas de rock do passado que já não representam nada. Um final perfeito para o Le Guess Who.

Depois dos Sleaford Mods, de regresso ao Tivoli, deparamo-nos com a maravilhosa Selda, ícone da música turca, cantora pela liberdade. Surge acompanhada por uma banda israelita e o que ouvimos é uma mistura de rock psicadélico com música tradicional turca. Isso e aquela mulher de voz imponente que canta frases e palavras que não percebemos mas que só podem ser as mais correctas. Todos acabam a cantar com ela. Todos.

Johan Gijsen, findo o concerto, dirá apenas. “Isto é tremendamente emotivo para mim. Ainda estou com pele de galinha”. Tudo correu como desejava. A música de Selda, em que apostara como cabeça-de-cartaz, selou com chave de ouro o festival. Todos unidos numa pequena cidade holandesa.

Andares acima, na sala Pandora, um vulto move-se na escuridão do palco e dá o último acorde na guitarra. O som ensurdecedor, que fizera estremecer todas células do corpo, durante a hora anterior, desaparece. A escuridão mantém-se. Com Stephen O’Malley chegava ao fim a maratona do 24 Hour Dronefest organizada propositadamente para o festival.

Naquela sala lá no alto, sobrevinha então o silêncio. Lá em baixo, na sala Ronda, DJ Fitz passava pérolas escondidas da música turca e outras preciosidades. Tudo dançava a despedida do festival. Daqui a um ano, muitos destes todos estarão aqui novamente. E é provável que perseguindo a música, também descubram outras cidades. Julgamos que não será difícil reencontrar o motorista de bandas tornado farmacêutico Danny. Bastará seguir o som. 

O Ípsilon viajou a convite da organização do Le Guess Who?