Entrevista

Bel Olid trata o sexo por tu: “Defendo a possibilidade de amar com desejo e foder com carinho”

Escritora, activista, feminista, professora de Tradução em Barcelona, Bel Olid lança em Portugal Foder? – Do que (não) falamos quando falamos de sexualidades. Um título para nos chocar ou para nos seduzir?

sexo,amor,entrevista,educacao,livros,cidadania,
Foto
"A verdadeira libertação sexual é respeitar o outro e respeitar-se a si mesmo"" Cristina Candel

O título não foi escolhido para escandalizar, mas, não há dúvida, que é calão e é sinónimo de “ter relações sexuais”. É “informal”, reconhece Bel Olid, a autora de Foder? – Do que (não) falamos quando falamos de sexualidades, editado pela Pergaminho. “É um título informal, porque o livro quer evitar ser uma cátedra sobre o assunto, antes pretende abrir caminhos e interrogações”, diz ao PÚBLICO numa entrevista feita por escrito, em castelhano.

Escritora, são muitos os títulos infantis já publicados, professora de Tradução na Universidade Autónoma de Barcelona, Bel Olid é também activista e reflecte sobre questões de género e identidade. Neste livro procura desmistificar algumas ideias feitas sobre o sexo, por exemplo, que as mulheres obtêm prazer apenas através da penetração, quando há toda uma imensidão de pontos erógenos que a maioria desconhece e não explora.

Apesar de ter ouvido muitos testemunhos e reflectido sobre o tema, ao longo de mais de 160 páginas, a autora não se coíbe de partilhar as suas próprias experiências num texto que foi, inicialmente, pensado para responder às perguntas dos seus filhos adolescentes. Quando começou a escrever, Bel Olid admite que pensou que o seu público seriam os jovens — o leitor é sempre tratado por “tu” —, mas depois percebeu que as suas palavras podem servir a todos. Trata-se de uma “reflexão para qualquer pessoa que queira desfrutar e entender melhor a sua sexualidade”, declara. 

O que faz uma professora de Tradução escrever sobre sexualidade?
Depois da experiência de escrever Feminismo de bolso, kit de sobrevivência [não está traduzido para português], pareceu-me que o controlo dos corpos e das sexualidades são das formas de opressão sexista mais presentes na vida de todos. Quando os meus filhos chegaram à adolescência, fiquei interessada em como tinha evoluído a educação formal sobre a sexualidade e, para minha surpresa, vi que não houve grandes mudanças desde a minha adolescência. Por isso, comecei a escrever pensando sobre qual seria a informação que queria que eles tivessem, a que perguntas poderia responder. E, à medida que fazia pesquisa para escrever este livro e que ia conversando com muitas pessoas sobre sexualidades, fui percebendo que todos precisamos repensar e pôr em causa algumas ideias [feitas].

Este título é para chocar, para chamar a atenção?
Para mim, o mais importante no título é a pergunta — “Foder?”. O livro questiona o que pensamos que sabemos sobre sexualidades. O objectivo é repensar sobre aquilo de que realmente gostamos, o que sentimos, o que nos dá (ou não) prazer. É um título informal, porque o livro quer evitar ser uma cátedra sobre o assunto, antes pretende abrir caminhos e interrogações.

Porquê tratar o leitor por “tu”? É um livro feminista pensado para jovens mulheres? 
É um livro para todas as pessoas e quer ser próximo, daí o “tu”. Um dos desafios que me propus foi escrevê-lo sem usar o masculino, isso foi mantido, com grande esforço, pela tradutora Joana Neves. A linguagem utilizada quer reflectir o conteúdo: gostaria que fosse um lugar onde todos se sintam bem-vindos. Todos os meus livros são feministas, porque sou feminista, é a minha forma de ver o mundo e não posso (nem quero) escondê-lo. Inicialmente destinado aos jovens, o livro evoluiu e acabou por ser um convite à reflexão para quem queira desfrutar ou compreender melhor a sua sexualidade.

Tem a expectativa de ter leitores homens ou estes estão convencidos que já sabem tudo?
Em catalão e em castelhano tive todo o tipo de leitores, de todos os géneros e de todas as idades. Espero que o mesmo aconteça em português. É muito bom receber mensagens de pessoas que leram o livro e me dizem que as ajudou ou que ficaram emocionadas por se reconhecerem.

No livro percebemos que “foder” e “fazer amor” não são a mesma coisa. A relação sexual é mais do que a penetração, pode ser um sorriso ou um toque na mão, isso significa que tudo pode ser sexo?
Para mim, uma relação sexual deve partir do desejo partilhado e do desejo de partilhar a busca pelo prazer. [Podemos descobrir] muitas coisas que desconhecíamos e que nos podem dar prazer, o que me parece maravilhoso. Tenho relações sexuais há muitos anos e continuo maravilhada com o meu corpo. Por isso, sim, qualquer contacto pode ser sexual.
Por um lado, há uma história de amor “verdadeiro”, em que o sexo é apenas excitante e agradável no início, o que nos leva à monogamia serial [quando uma pessoa tem um parceiro sexual e romântico de cada vez, mas vários parceiros ao longo da vida]. Ao mesmo tempo, por outro lado, presume-se que o sexo esporádico deve ser desprovido de afecto e até, às vezes, de respeito. Ora, eu defendo a possibilidade de amar com desejo e foder com carinho.

Com tantas opções (heterossexual, homossexual, bissexual…) vivemos num tempo em que estamos confusos (hoje há mais jovens que se dizem “fluidos”), em que tudo nos é permitido ou continuamos fechados em relação à sexualidade?
A variedade de desejos não é algo novo, sempre existiu, talvez agora falemos [disso] mais abertamente. Existe uma sensação de falsa liberdade, porque há muito conteúdo sexual nos media, mas, se olharmos com atenção, vemos sempre os mesmos corpos a fazer as mesmas coisas. E quanto aos corpos que não vemos representados? Não têm o direito de desejar e ser desejados? Não têm direito ao prazer? Para mim, a verdadeira libertação sexual é respeitar o outro e respeitar-se a si mesmo, de maneira a fazer-se o que realmente se quer e não o que se supõe que se quer.

Escreve sobre relações a dois ou em grupo. As doenças sexualmente transmissíveis não vieram refrear o “tudo é permitido”? 
As infecções sexualmente transmissíveis — não sei dizer em português, mas é importante sublinhar que são “infecções” e não “doenças”, porque uma pessoa pode ficar infectada sem adoecer — têm que ver com o tipo de práticas e os riscos que se assumem, e não com o número de pessoas com quem se faz sexo. Se a pessoa usa protecção ou se abstém de algumas práticas de risco, o sexo é mais seguro.

A monogamia está ultrapassada?
Muitas pessoas acreditam que estão em relacionamentos monogâmicos, mas o seu parceiro tem relacionamentos com outras pessoas. Portanto, mesmo se dormir com apenas uma pessoa, se essa dormir com outras, a primeira corre os mesmos riscos e pode nem sequer saber disso.

Onde fica a função reprodutiva da relação sexual?
Na nossa sociedade, há muito tempo que a reprodução foi separada da sexualidade, pelo menos a nível prático. A reprodução é um possível efeito colateral, mas para a maioria das pessoas é anedótico o número de vezes na vida que têm relações sexuais para fins reprodutivos.

PÚBLICO -
Foto
"Um relacionamento amoroso deve ser um espaço de respeito, crescimento, apoio e carinho. E sim, também pode haver sexo, é claro" Cristina Candel

Como se vive o sexo numa pandemia: com mais protecção ou com o infringir as regras, sem nos preocuparmos com as consequências, como se tivéssemos chegado ao fim dos tempos?
Cada pessoa vive-o à sua maneira. Acho que se trata de encontrar o equilíbrio entre estar confortável em muitos níveis: como posso cuidar de mim mesmo? Como posso cuidar dos outros? Que riscos estou disposto a correr? O sexo à distância também aumentou e isso poderá despertar a imaginação.

Mas tudo é permitido? Por exemplo, os nudes que podem estimular uma relação, mais tarde, podem ser usados para chantagear quem os fez. Até que ponto é sensato fazer tudo?
Qualquer coisa entre adultos que são livres para dizer sim ou não, para parar a qualquer momento, para mudar de repente, caso não sintam mais vontade, deveria ser permitido. Em relação aos nudes, devemos lembrar que se x manda um a z, e depois z o espalha, quem está a fazer alguma coisa errada é z e não x. Em Espanha é crime [e em Portugal também]. Se uma pessoa não confia totalmente na outra e se receia que as imagens se espalhem, pode sempre ter alguns cuidados como nunca incluir o rosto nos nudes que envia, por exemplo.

No livro escreve sobre a importância de conhecermos o nosso corpo, nomeadamente de as mulheres saberem mais sobre masturbação. Até que ponto a mulher continua a ter em mente que a sua função é satisfazer o homem?
Fomos educadas assim: o nosso prazer não importa. De facto, há estudos que mostram que para muitas mulheres a relação sexual é mais satisfatória quando o parceiro está satisfeito, enquanto para os homens é quando a parceira se adapta ao que eles esperam. É fundamental compreender que uma relação sexual saudável deve levar em consideração o desejo e o prazer de todas as pessoas envolvidas. Se eu particularmente não desejo ou não me divirto, para quê foder? Talvez seja melhor ir ao cinema ou passear.

Refere que na educação sexual faz falta falar da riqueza e diversidade sexual. Recentemente, em Portugal, tivemos uma polémica sobre a obrigatoriedade da Educação para a Cidadania por famílias conservadoras. Este tema continua a ser polémico e é por isso que nas escolas se fala sobretudo da prevenção. Como mudar isso? 
As famílias não podem limitar o direito dos jovens a serem informados. Conhecer o seu corpo, saber cuidar dele, aprender a respeitar os outros e a si mesmo é um direito básico. Ninguém pode negar essa formação aos jovens, nem mesmo os seus próprios pais. É como se estivéssemos a discutir se devem ou não aprender a ler. A sociedade precisa que todos tenham essa formação e deve dá-la nas escolas.

Os pais devem falar deste tema com os filhos a partir de que idade?
A educação sexual em casa é uma constante, desde o primeiro momento em que a pessoa existe. Educação sexual não é uma conversa que se tem um dia com adolescentes envergonhados. Educação sexual é a forma como a sexualidade é tratada na família: quais os comentários que são feitos, as piadas, como as pessoas são tratadas em casa, o que se diz quando aparece uma violação num filme ou num noticiário, se se critica um vizinho por ser “bicha”. A educação sexual é complexa e dura a vida toda. Se em casa houver um espaço de escuta e confiança, os jovens saberão que podem perguntar, duvidar, propor. O mais importante é estar disponível e aberto.

Escreve: “A palavra amor foi tão esvaziada de sentido que é preciso voltar a preenchê-la.” É o sexo que a preenche? O que falta para ser bem preenchida?
Acredito que, como acontece com o sexo, devemos perguntar-nos sobre o que queremos dizer quando falamos sobre amor. O amor serviu de desculpa para exigir e maltratar. Para mim, um relacionamento amoroso deve ser um espaço de respeito, crescimento, apoio e carinho. E, sim, também pode haver sexo, é claro.

Sugerir correcção