Mapeados circuitos cerebrais ligados à mania

Novo trabalho de cientistas do Centro Champalimaud, em Lisboa, pode contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para a perturbação bipolar.

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A mania também pode resultar de lesões cerebrais causadas por um traumatismo craniano ou um AVC Miguel Manso

Como se pode encontrar a mania no cérebro? Com um mapa dos circuitos cerebrais que lhe estão associados. Foi isso que uma equipa com cientistas de instituições de Portugal, dos Estados Unidos e de França fez. Ao usarem um novo método de neuroimagem, os cientistas conseguiram delinear um mapa de conectividade das lesões cerebrais associadas à mania. Além de permitir compreender melhor certos mecanismos, o trabalho publicado esta segunda-feira na revista Journal of Clinical Investigation poderá ajudar a desenvolver tratamentos mais eficazes para a perturbação bipolar – afinal, os episódios maníacos são, na maioria das pessoas, uma manifestação dessa perturbação. 

Na perturbação bipolar, as pessoas têm períodos de depressão alternados com episódios maníacos. Aqui, podem tornar-se eufóricas, irritáveis, falar de forma acelerada ou até dormir menos. Contudo, a mania também pode resultar de lesões cerebrais causadas por um traumatismo craniano, um AVC, entre outros.

Albino Oliveira-Maia, director da Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Champalimaud (em Lisboa) e um dos autores do trabalho, refere que esta “mania secundária” (por contraste à primária na perturbação bipolar) é “uma entidade rara” e que não há estudos epidemiológicos que reportem a sua prevalência de forma exacta. “Em Portugal, a situação não é diferente”, nota, referindo que tem conhecimento de dois estudos prospectivos em doentes com AVC agudos e hemorragias subarcnóideias agudas. Esses trabalhos reportaram uma prevalência de cerca de 1,6% e 1,9% entre esses doentes.

Num comunicado sobre o trabalho, também se realça que a raiz biológica do surgimento desta mania após uma lesão no cérebro tem sido difícil de detectar. Mesmo assim, sabia-se que as lesões que levam à mania, normalmente, parecem estar situadas no hemisfério direito do cérebro. No início do ano, cientistas do Centro Champalimaud tinham publicado, precisamente, um estudo em que confirmaram o predomínio dessas lesões que levavam a episódios maníacos no lado direito do cérebro. Também se verificou que essas lesões atingem uma grande diversidade de áreas no hemisfério direito. Dessa forma, colocou-se a hipótese de que as lesões estariam envolvidas em circuitos cerebrais concretos.

Agora, através de um método de neuroimagem chamado “análise de redes lesionais”, a equipa mapeou a conectividade das lesões cerebrais ligadas à mania. Para este estudo, foram usados dois tipos de amostras com mais de 600 doentes. Uma delas foi obtida através da revisão de casos clínicos de outros autores de todo o mundo e incluiu doentes com lesões cerebrais de dois grupos: 41 doentes em que as lesões se associaram à mania; e 79 doentes em que as lesões no cérebro não estavam ligadas à mania. A outra amostra foi conseguida através da revisão de processos clínicos de dois hospitais: 15 doentes do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental em que as lesões cerebrais se associam à mania; e 490 indivíduos do Hospital Geral do Massachusetts (em Boston, nos EUA) em que as lesões não estão ligadas a nenhuma síndrome neuropsiquiátrica em particular.

Verificou-se que a maioria das lesões acontece em locais do cérebro com ligações a um grupo específico de regiões do córtex cerebral relacionadas com a regulação do humor e das emoções. “Descobrimos que as localizações das lesões associadas à ocorrência de episódios de mania se caracterizam por uma forte conectividade com três áreas do córtex cerebral do lado direito: o córtex orbitofrontal, o córtex temporal inferior e o pólo frontal [que têm sido descritas como integrantes do circuito límbico, que é uma rede neuronal que tem sido associada à regulação do humor e ao processamento das emoções]”, refere no comunicado o investigador Gonçalo Cotovio, primeiro autor do estudo e interno de psiquiatria que está a fazer o doutoramento com a supervisão de Albino Oliveira-Maia. O investigador realça que este padrão era semelhante em grupos distintos de doentes com mania secundária e diferente dos padrões vistos noutras síndromes neuropsiquiátricas também causadas por lesões.

Potenciais alvos terapêuticos

Quanto aos contributos deste trabalho, a equipa refere que a investigação da mania secundária poderá ser útil para esclarecer a neuroanatomia da mania primária – mesmo que ainda não se saiba se as mesmas redes cerebrais estão disfuncionais na mania ligada à perturbação bipolar. “Apesar de algumas das regiões que foram identificadas por nós já tenham sido previamente reportadas na literatura como áreas disfuncionais na mania primária, outras, pelo contrário, não foram sistematicamente associadas à neurobiologia desta síndrome neuropsiquiátrica”, destaca Albino Oliveira-Maia. “Mais importante ainda, pela primeira vez, mostramos a existência de um circuito neuronal lateralizado à direita associado à mania secundária, e cuja relevância poderá ser agora estudada de forma mais dirigida na mania primária.”

Por um lado, este trabalho poderá contribuir para a identificação de potenciais alvos terapêuticos no córtex cerebral que permitam recorrer a técnicas de estimulação cerebral, como a estimulação magnética transcraniana repetitiva, para o tratamento da mania. “Uma das intenções será colaborar com grupos de investigação que se interessem por esta área à semelhança da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud e validar prospectivamente estes alvos terapêuticos”, informa Albino Oliveira-Maia.

Por outro lado, a equipa gostaria de validar resultados sobre a associação entre a mania e a estimulação cerebral profunda (tratamento neurocirúrgico para transtornos neurológicos). Mesmo sendo algo raro, sabe-se que a mania pode surgir como uma complicação dessa estimulação. Os resultados preliminares da equipa sugerem que os mesmos circuitos do cérebro que são perturbados pelas lesões cerebrais também o são por esta estimulação. No futuro, quer então confirmar-se estas informações para melhorar o planeamento deste tratamento e para que se evitem efeitos secundários. No fundo, pretende fazer-se um mapa bem pormenorizado de tudo o que acontece nesse tratamento.

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