A barriga também “diz” ao cérebro quais os alimentos que prefere

Investigadores do Centro Champalimaud mostraram que a escolha de alimentos não é influenciada apenas pelo sabor que têm e que também há uma “conversa” entre o sistema digestivo e o cérebro. O trabalho pode ser importante para saber mais sobre os distúrbios que levam à obesidade.

Pensar com a barriga: identificado um novo eixo digestivo-cerebral
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Pensar com a barriga: identificado um novo eixo digestivo-cerebral Gil Costa
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Pensar com a barriga: identificado um novo eixo digestivo-cerebral Gil Costa

Um estudo publicado esta segunda-feira na revista Neuron revela que a procura de certos alimentos também é influenciada por uma “conversa” que acontece entre o sistema digestivo e o cérebro e que é independente do paladar. O trabalho, desenvolvido por uma equipa de investigadores do Centro Champalimaud, em Lisboa, mostra que, depois de ingerirmos os alimentos, o sistema digestivo envia uma mensagem aos neurónios da dopamina no cérebro sobre o teor calórico do que acabámos de comer. A partir daí, aprendemos e fazemos escolhas. O processo pode ajudar a esclarecer alguns distúrbios alimentares associados, por exemplo, à obesidade.

Há muito tempo que o psiquiatra e investigador Albino Oliveira Maia, director da Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Champalimaud explora os vários caminhos que podem levar à obesidade e tenta desmascarar as múltiplas vias que determinam e influenciam os comportamentos alimentares. Já nos disse, por exemplo, que ser um “bom garfo” (ou seja, comer pelo prazer de comer) não faz com que uma pessoa se torne obesa, ainda que possa ser uma boa ajuda. Agora, foi ouvir alguns detalhes da doce “conversa” que se estabelece entre o sistema digestivo e o cérebro depois de ingerirmos um alimento calórico, mais especificamente sacarose (açúcar).

Através de experiências em ratinhos, os investigadores confirmaram que as escolhas alimentares são orientadas por outros factores menos explícitos que o paladar. “A boca é o primeiro local de controlo – onde é feita a decisão sobre se a comida deve, ou não, ser ingerida”, confirma Albino Oliveira Maia. Mas há outras partes do organismo que também parecem ser capazes de “provar” o que ingerimos e comunicar uma preferência ao cérebro, antecipa o investigador.

Assim, para comprovar esta opção menos evidente, os cientistas focaram-se apenas na fase pós-ingestão. “Numa das experiências disponibilizámos a ratinhos duas alavancas: uma que levou à injecção, no estômago, de alimentos com alto teor calórico e outra que levou à injecção de alimentos com poucas calorias. Em seguida, disponibilizámos as duas alavancas e observámos a sua resposta”, explica Ana Fernandes, a primeira autora do artigo, citada num comunicado do Centro Champalimaud sobre o estudo. Sem provar a comida, os ratinhos optaram pela alavanca ligada aos alimentos de alto teor calórico. A alavanca doce, da sacarose.

“Compreendemos agora que a disponibilidade de calorias no sistema digestivo tem um impacto não apenas no desenvolvimento de preferências – ou seja, optarmos por alimentos mais calóricos –, mas também demonstrámos que as calorias por si só são suficientes para induzir comportamentos, acções”, resume Albino Oliveira Maia, que orientou esta investigação, ao PÚBLICO.

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O ramo do fígado

A conversa em ligação directa, sem passar pelo paladar, entre o sistema digestivo e o cérebro estava comprovada, mas faltava saber mais. Os investigadores queriam perceber como as informações sobre o valor nutricional dos alimentos chegam ao cérebro. “Para responder a essa pergunta, focámo-nos no nervo vago que estabelece ligações entre o cérebro e vários órgãos”, diz Albino Oliveira Maia. Este é um longo nervo, mas já existia uma pista deixada por estudos anteriores e, por isso, a equipa decidiu analisar o papel de um ramo específico deste nervo, o que transmite as informações que vêm do fígado. “O fígado recebe grande parte dos nutrientes e toxinas provenientes do intestino. Isso significa que reúne as condições óptimas para funcionar como um sensor metabólico”, justifica Ana Fernandes no comunicado.

Para ver a importância que uma coisa pode ter, às vezes basta ver o que acontece quando essa coisa não está lá. Foi isso que fizeram: provocando uma lesão no ramo hepático do nervo vago. E foi assim que viram que os ratinhos se mostraram “incapazes de adquirir este novo tipo de aprendizagem”.

Albino Oliveira Maia reconhece que esta pode não ser a única via usada para a conversa. Apenas será o principal meio de comunicação, pois com o corte deste ramo do nervo vago a actividade destes neurónios foi substancialmente reduzida, mas não totalmente eliminada. Mais: se esta é “a estrada” mais usada para os açúcares, há estudos que parecem indicar que outro tipo de informações sobre as gorduras, por exemplo, usa outras vias para comunicar com o cérebro. “Há outros trabalhos que sugerem que possam existir fenómenos equivalentes a este com a gordura. Estudos feitos com a administração de gordura no intestino demonstraram que essa administração está associada à libertação de dopamina”, diz o investigador.

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A dopamina e a obesidade

Mas regressemos ao lado doce desta conversa entre sistema digestivo e cérebro. Então, a conversa seguia pelo ramo hepático do nervo vago, mas onde, no cérebro, ia parar? Estudos anteriores já tinham apontado para uma ligação entre a alimentação e os neurónios da dopamina no cérebro quando, por exemplo, sentimos algo doce na boca, por isso os cientistas já sabiam onde procurar a acção. “Uma componente importante deste estudo foi a descoberta de que os neurónios da dopamina estavam envolvidos nesse novo processo de aprendizagem”, diz o neurocientista Rui Costa, outro dos autores do artigo, no comunicado.

“Verificámos que não só a actividade dos neurónios dopaminérgicos aumenta quando injectamos sacarose no estômago, mas também que quando manipulamos a capacidade de os neurónios responderem – quando os adormecemos – o animal deixa de ter os mesmos comportamentos em resposta à sacarose no estômago”, adianta ainda Albino Oliveira Maia. O psiquiatra acredita que existe uma conversa que vai além da dopamina. “Seguramente que a dopamina não explica tudo isto. É uma assinatura de uma componente importante da resposta, a que diz respeito à acção, ao movimento. Mas seguramente que há outros neurotransmissores, outras áreas do cérebro que estão envolvidas.” O investigador acrescenta também que no que diz respeito às gorduras, por exemplo, há já alguma investigação que sugere que possam ser áreas diferentes do sistema dopaminérgico a responder”.

Resumindo, a conversa sobre alimentos entre o sistema digestivo e o cérebro pode usar diferentes vias de comunicação e ter diferentes interlocutores.

Albino Oliveira Maia conclui que este estudo mostra uma parte menos explícita das nossas escolhas alimentares e que isso pode ajudar a saber mais sobre alguns distúrbios relacionados com a alimentação, como a obesidade. “Ainda é muito cedo para saber onde este estudo nos levará. Contudo, foi a relação entre alterações de receptores da dopamina e obesidade que inspiraram o desenvolvimento deste trabalho”, diz o investigador. Um dos próximos passos, diz, será tentar perceber se (e como) estes mecanismos de escolha pós-ingestão se alteram quando estamos perante animais com obesidade. Por fim, avança ainda que os investigadores estão também a usar outro tipo de instrumentos e experiências para analisar este processo nas pessoas e confirmar se está modificado em pessoas obesas. Mas as escutas possíveis dessa conversa nos humanos ainda são secretas e, para já, não podem ser reveladas.

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