Bruxelas investiga fusão Fiat-PSA por causa do negócio das carrinhas

Comissão lança investigação aprofundada. Quota no segmento dos comerciais pode reduzir a concorrência, diz Margrethe Vestager. Mangualde é uma das fábricas que produzem estas viaturas.

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Reuters/Stephane Mahe

A Comissão Europeia anunciou nesta quarta-feira uma investigação aprofundada à fusão entre a Fiat Chrysler (FCA) e o grupo PSA (Peugeot-Citroën). Os dois construtores confirmaram o interesse mútuo em Outubro de 2019 e têm estado a trabalhar num casamento que daria origem ao quarto maior fabricante mundial, mas Bruxelas teme que o negócio crie problemas de concorrência em 14 países da União Europeia, incluindo Portugal, e também no Reino Unido.

Segundo o comunicado divulgado esta quarta-feira, a dúvida reside no impacto de uma fusão avaliada em 50 mil milhões de dólares (diz o Financial Times, 44,5 mil milhões de euros ao câmbio actual), sobretudo no mercado dos veículos comerciais. O grupo FCA-PSA passaria a deter mais de 30% de quota na Europa. Isso é mais do dobro do que está nas mãos dos concorrentes directos (Renault e Ford), segundo o mesmo jornal. O que poderá reduzir a concorrência naqueles mercados.

Margrethe Vestager, vice-presidente da comissão e responsável da pasta da concorrência económica, frisa que a preocupação de Bruxelas é “assegurar a manutenção de um quadro concorrencial saudável” para todos os consumidores e empresas cujas vidas e negócios dependem dos veículos comerciais que, no caso do grupo PSA, são também feitos na fábrica deste grupo em Mangualde, onde tem 1000 trabalhadores.

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“As viaturas comerciais [até 3,5 toneladas de peso] são importantes para pessoas, pequenas e médias empresas e grandes empresas quando estão ao serviço do transporte e entrega de bens e serviços a clientes. Constituem um mercado em crescimento, cada vez mais relevante numa economia digital em que os consumidores privados dependem mais do que nunca desse tipo de serviços de entrega. A Fiat Chrysler e a PSA, com o seu enorme portefólio de marcas e modelos, têm uma posição forte nos veículos comerciais em muitos países europeus. Por isso, vamos avaliar com cuidado se a fusão que é proposta pode afectar negativamente a concorrência nesses mercados”, afirma Vestager, no referido comunicado.

O objectivo dos dois “nubentes” era fechar a fusão até ao final do primeiro trimestre de 2021. O negócio já tinha obtido luz verde nos EUA, na China, no Japão e na Rússia. Mas ainda faltava a bênção europeia. 

A comissão nota que a Fiat ou a PSA são líderes “em muitos daqueles mercados”. Por isso, a fusão “eliminaria um dos principais concorrentes”. Bruxelas vê isso como um risco de distorção de mercado nos seguintes países: Bélgica, Croácia, República Checa, França, Grécia, Hungria, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Polónia, Portugal, Eslováquia, Eslovénia, Espanha e Reino Unido.

O problema, segundo a comissão, é que o desaparecimento de um deles pode criar distorções inexistentes no actual cenário. No futuro, seriam um só grupo, com um vasto número de modelos, em todas as classes. Fiat e PSA têm actualmente preços bastante alinhados, reconhece Bruxelas, mas que em teoria asseguravam, apesar de tudo, alguma escolha ao consumidor.

A FCA e PSA reagiram num comunicado conjunto citado pela Reuters: “À medida que fizermos progressos com as nossas equipas de projecto cruzadas, iremos detalhando à Comissão Europeia e a outros reguladores quais são os benefícios substanciais da nossa fusão para os nossos clientes, para a indústria europeia e para cada uma das empresas envolvidas.”

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Carlos Tavares preside à PSA e irá liderar a empresa que resultar da fusão com a Fiat Chrysler

Portanto, a fusão faria desaparecer um concorrente importante. Além disso, há significativas barreiras à entrada para outras marcas, nomeadamente no segmento dos comerciais ligeiros, que exige “uma rede de serviços bastante larga, que não se monta com facilidade nem com rapidez”. Há menos concorrentes neste segmento do que no dos ligeiros de passageiros, nota Bruxelas e, portanto, a fusão FCA-PSA faria nascer um grupo particularmente forte nos veículos comerciais (e dentro deste universo sobretudo os comerciais ligeiros) que seria significativamente maior do que qualquer outro fabricante.

Por isso, “a entrada de novos concorrentes parece improvável, numa escala relevante”, conclui a comissão, que agora tem 90 dias para desenvolver a sua análise mais aprofundada ao tema. O prazo para Bruxelas se pronunciar termina, assim, a 22 de Outubro.

Como já aconteceu noutros casos de concentração empresarial, PSA e FCA poderiam ser obrigadas a alienar, por exemplo, parte ou todo o negócio dos comerciais ligeiros. Isso significaria que o futuro da fábrica de Mangualde faz parte do pano de fundo desta investigação aberta pela comissão.

Os dois construtores, que escolheram o português Carlos Tavares para conduzir o grupo que resultasse da fusão, notificaram Bruxelas a 8 de Maio, dando a conhecer a intenção desta aliança. Bruxelas teve então 25 dias úteis para uma avaliação preliminar e sumária dos impactos desta fusão. Apresentou aquelas preocupações à FCA e à PSA. Porém, nenhum dos envolvidos decidiu responder com “remédios” ou argumentos, pelo que a comissão decidiu entrar na fase dois de avaliação da fusão, que é a investigação aprofundada.

Na bolsa de Paris, as acções da PSA tinham escorregado na semana passada, quando fontes anónimas adiantaram à imprensa internacional que Bruxelas questionava a fusão. Mas o grupo francês foi recuperando nos dias seguintes e esta quarta-feira fechou em quebra ligeira perdendo 0,51%, para 13,65 euros.

Na bolsa de Milão, a FCA perdia 0,38%, para 8,40 euros por acção, após corrigir nos últimos dias a desvalorização que também sofreu no dia 11, quando os rumores começaram a circular.