Covid-19: Depois de ameaçar não divulgar dados, Governo brasileiro recua mas revela números contraditórios

Ministério Público Federal deu 72 horas ao ministro interino da Saúde para explicar mudança na fórmula de divulgação dos casos de covid-19. Após várias polémicas, conselheiro do Governo demitiu-se antes de assumir o cargo.

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Brasil regista 691.758 infectados e 36.455 mortos devido à covid-19 Reuters/UESLEI MARCELINO

Depois de ter anunciado uma mudança na metodologia de divulgação dos dados sobre a pandemia de covid-19 e de um fim-de-semana atribulado, com avanços e recuos, que levaram a mais uma demissão no Ministério da Saúde, o Governo brasileiro divulgou dois balanços diferentes, com pouco mais de uma hora de intervalo, sobre o número de mortes e novas infecções no domingo.

Segundo os dados enviados aos jornalistas ao início da noite de domingo, o Governo dava conta de mais 1382 mortes no país devido à covid-19. No entanto, uma hora e meia depois, divulgou no seu site um aumento de 525 mortes nas últimas 24 horas – menos 857 do que na lista inicialmente divulgada.

Os números contraditórios verificaram-se também no número de infecções: a primeira nota dava conta de 12.581 novas infecções, a segunda de 18.912.

Segundo a Folha de São Paulo, o Governo não apresentou qualquer justificação para os dados contraditórios, admitindo, apenas, que o novo sistema tem algumas falhas técnicas que serão ultrapassadas em breve.

Esta polémica surge depois um fim-de-semana atribulado, em que o Ministério Público Federal abriu um processo para apurar os motivos que levaram o Ministério da Saúde a mudar o formato de divulgação dos dados do coronavírus no Brasil, deixando de fora o número acumulado de mortos e infectados pela covid-19.

No sábado, depois de no dia anterior o boletim diário do Ministério da Saúde apenas ter indicado o número de doentes recuperados, os novos casos e as mortes das últimas 24 horas, o Presidente Jair Bolsonaro confirmou uma restrição à divulgação dos dados

O Ministério Público Federal deu então 72 horas ao ministro da Saúde Interino, Eduardo Pazuello, para que este forneça informações detalhadas sobre esta mudança de procedimento. No sábado à noite, o Governo repetiu a fórmula do dia anterior.

Após a polémica com a nova metodologia de divulgação dos dados sobre a covid-19, o Governo brasileiro garantiu estar a trabalhar numa nova plataforma interactiva. De acordo com a Folha, o Executivo demonstrou intenção de criar um portal onde os casos acumulados possam ser consultados, garantindo que os registos oficiais não vão desaparecer. Contudo, o Governo de Bolsonaro ainda não adiantou qualquer data para que a nova plataforma interactiva esteja disponível.

Demissão no Ministério da Saúde 

Apesar do recuo do Governo, o polémico fim-de-semana causou mais uma baixa no Ministério da Saúde. O empresário Carlos Wizard Martins, que trabalhava como conselheiro do ministro da Saúde interino, anunciou a sua demissão no domingo. 

“Agradeço ao ministro [interino da Saúde] Eduardo Pazuello pela confiança, porém decidi não aceitar para continuar me dedicando de forma solidária e independente aos trabalhos sociais que iniciei em 2018 em Roraima”, escreveu num comunicado divulgado nas redes sociais.

Carlos Wizard, empresário e missionário mórmon, trabalhava há várias semanas pro bono para o Governo. É amigo próximo de Pazuello,  com quem trabalhou em 2018, em  Roraima, junto à fronteira do Brasil com a Venezuela, numa missão destinada a refugiados venezuelanos que chegavam ao Brasil. Foi apontado para assumir um cargo definitivo no Ministério da Saúde, no entanto, envolveu-se em várias polémicas nos poucos dias que trabalhou com Pazuello.

Em entrevista à Globo, o empresário afirmou que o Governo iria recalcular o número de mortes causadas pela covid-19, insinuando que os dados actuais poderiam estar inflacionados, apesar de não ter apresentado qualquer evidência – pelo contrário, os especialistas alertam que a pouca testagem no país indica que os números reais podem ser muito superiores aos oficiais

Wizard envolveu-se ainda numa polémica sobre a cloroquina, terapêutica defendida por Bolsonaro, apesar de não existir prova científica que comprove o seu benefício. Numa entrevista à Globo, disse que o país ia “apostar 100%, seguir e defender a cloroquina”, anunciando que o Governo já tinha encomendado dez toneladas da matéria-prima para fabricar o fármaco.

Na publicação em que anunciou a sua saída do Ministério da Saúde, Carlos Wizard revelou que foi convidado para assumir a pasta da secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, no entanto, recusou a proposta.