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Entre a arte e o activismo, o Queer Fest quer celebrar “podermos estar novamente juntos”

Quer ser “um festival de intervenção” que espelhe a realidade portuguesa de hoje — e uma casa para todas as pessoas queer. O festival de música (e não só) está planeado para decorrer em Setembro em Lisboa e Cascais, mas resta saber se a pandemia de covid-19 o permite.

A primeira edição do Queer Fest está prevista para Setembro, em Lisboa e Cascais. O festival, com Rui Eduardo Paes e Maria do Mar na direcção artística, é uma co-produção entre a Sociedade Musical União Paredense (SMUP), a Associação Cultura no Muro (sediada na SMUP) e a Cooperativa Penhasco. O programa inclui um dia de actividades no Penhasco (8 de Setembro) e dois na SMUP (11 e 12), mas, em tempos de pandemia, em que tudo “muda de um dia para o outro”, já “não é possível ter certezas de nada” — logo, há que esperar para ver.

“O propósito é que o festival seja simultaneamente uma realização artística e de intervenção”, explica ao P3 o programador Rui Eduardo Paes. Para isso, estão planeados concertos e performances, mas também debates. “Era necessário haver um espaço onde se pudessem partilhar ideias, debater e reflectir sobre as questões queer”, realça. Estas questões podem ser, “a um nível geral, sobre o pensamento queer, a comunidade queer e a acção queer” ou sobre “as relações que existem entre a queerness e as artes”. Sobre o derrubar das fronteiras de género e a liberdade de se ser como se é. E, para além da defesa e promoção dos direitos LGBTQI+, o festival também não vai descurar a interseccionalidade com outras “lutas”, como ambiente, a habitação, os trabalhadores ou os direitos das mulheres”. Todas as frentes de luta que existem nos nossos dias e que, na opinião do curador, “estão necessariamente inter-relacionadas — e é assim que deve ser”.

A ideia para o Queer Fest não é recente. Há já alguns anos que o jornalista e editor do portal Jazz.pt a alimentava, mas vinha a adiá-la por achar que ainda não tinha “as condições para avançar com o projecto”. Até que, no fim do ano passado, várias circunstâncias favoráveis se juntaram. Depois de dois anos encarregue do Fem Fest enquanto programador da SMUP, viu o festival suspenso. Depois, percebeu que a violinista Maria do Mar também estava interessada em fazer algo do género. Por último, e talvez o mais importante: “dada a qualidade e a variedade” dos vários projectos queer portugueses, percebeu que tinha chegado a altura de “fazer um festival que continuasse ao longo dos anos”.

O escritor e crítico de música relembra o seu livro Anarco-Queer? Queercore!, publicado há quatro anos , “sobre o fenómeno do queercore e das músicas que nasceram dessa movimentação dos anos 80 e 90”. “Na altura em que o livro foi escrito, havia dois ou três grupos em Portugal que tinham carácter queer Vaiapraia e as Rainhas do Baile, por exemplo. Desde então, começou a aparecer uma grande profusão de projectos nas áreas da música e da performance que ou têm temática queer, ou são criados por pessoas queer, ou têm as duas características.” Em Dezembro, quando começaram a organizar o evento, ficaram “surpreendidos e fascinados com a quantidade de projectos que existem”, bem como “pela qualidade da maior parte deles”. “Nem tínhamos consciência de que existiam muitos deles vivem completamente no underground.”

Que artistas são estes? Há projectos “mais conhecidos, que ganharam fama pelo seu valor intrínseco”, como Fado Bicha, Venga Venga, Clementine e Judas (que entrou recentemente no Festival da Canção), e “alguns que ainda não são muito conhecidos e que também têm muito valor”, como Baby Sura, Herlander e Matriarca Paralítica. “Nesta primeira edição, vamos ter música que fomos descobrindo e música que já se foi impondo. A primeira lista que fizemos pouco mudou até hoje. E continuamos a descobrir coisas novas, já temos uma série de nomes para 2021.” Constam no programa, ainda, concertos de Cometa Olímpico, Pássaro Macaco, bbb hairdryer, Luís da Riviera e Maria Bruxxxa, performances de Telma João Santos, Tiago Bôto & Wagner Borges, Sónia Baptista e Aurora Pinho e debates orientados por de André E. Teodósio, Raquel Freire, Raquel Lima e Salomé Lourenço.

Os efeitos da pandemia

Há a possibilidade de outros nomes se juntarem a este cartaz, não por a direcção planear surpresas de última hora, mas para integrar alguns dos nomes que não chegaram a actuar no Benefits Queer Fest, que teria decorrido em Março, não fosse a pandemia de covid-19. Estavam planeadas mais noites como aquela para Maio e Junho, não só para “promover o nome do festival e começar já a criar uma dinâmica, mas também para recolher fundos que reforçassem a logística porque o projecto é completamente autogerido, não há entidades financiadoras por trás”.

A pandemia e as suas consequências tiveram um impacto considerável no panorama cultural, como se sabe. “Está tudo em aberto, vamos ver o que acontece”, confessa Rui Eduardo Paes. “Neste momento estamos a fazer uma campanha com os artistas que participam no Queer Fest a fazerem vídeos de apelo a que as pessoas façam donativos.” Já há indicações de que cinemas, teatros, auditórios e salas de espectáculos poderão recomeçar a partir de 1 de Junho, mas com “políticas restritivas muito duras, como limitações máximas de espaço, distanciamento entre lugares marcados”. Tendo isto em conta, o programador reflecte que vai ser preciso “adaptar aquilo que se estava a pensar inicialmente”: é preciso repensar locais, organização de espaço e lotação. Nunca vai ser “um festival daqueles em que estão milhares de pessoas”; a organização aponta 100 pessoas como uma meta razoável e, desta forma, a segurança de todos pode ser assegurada. A campanha de donativos não é, contudo, condicional: o director acredita que, “mesmo que não se consigam reunir grandes dividendos, o festival é possível na mesma”, embora com “condições menores”.

PÚBLICO -

O festival conta com o apoio da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, do festival de cinema Queer Lisboa, das Panteras Rosa (Frente de Combate à LesBiGayTransfobia) e da Ilga Portugal (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo). “É um trabalho em rede que tem que ser feito, porque isto é mais do que um festival de entertainment: é uma iniciativa de activismo e há que mobilizar as pessoas mais do que nunca”, realça o director artístico. Até porque, diz, os movimentos têm começado a “verificar uma nova vaga de ataques a pessoas queer (tanto verbais como físicos), uma nova vaga de discriminações e um retrocesso do preconceito”. O festival deve ser, assim, uma reacção à vida, activa, não passiva, não de aceitação, nem de conformismo: “É nessa perspectiva que nos colocamos: fazer um festival de intervenção, que seja um espelho da realidade portuguesa de hoje e que procure intervir relativamente a essa realidade.” 

A covid-19 teve, tem e vai continuar a ter repercussões inimagináveis na sociedade. Contudo, destaca Rui Eduardo Paes, conseguiu ter um efeito inesperado: tornar este tipo de eventos ainda mais especiais. O Queer Fest “ganhou algo que parece pouco importante no meio deste cenário, mas que acaba por ser extremamente importante, que é juntar as pessoas queer novamente”. A população está isolada em casa, mas há quem não tenha casa. “Nós sabemos como é a realidade hoje, há imensos jovens queer que são postos fora de casa.” Assim, o festival quer “juntar as pessoas de novo”, restituir “o ambiente de convívio e de cumplicidade” e dar, durante uns dias, uma casa a quem já não sabe o que tal significa. “Vai ser para fazer uma grande festa, festejarmos o facto de podermos estar novamente juntos.”

Projectos queer para todos os gostos

No âmbito do festival, vai ser feito um documentário sobre a arte queer. Rui Eduardo Paes e Maria do Mar convidaram Francisca Marvão para realizar esta longa-metragem porque, para além de quererem que o festival seja anual, também querem deixar “um rasto desta primeira iniciativa”. O plano é que a realizadora “filme partes dos concertos, das performances e dos debates, que esteja com a câmara nos bastidores, nos camarins, nos corredores, entre as pessoas do público, e que recolha depoimentos dos artistas posteriormente ao festival”.

Com esses depoimentos, os dois directores querem fazer um livro de entrevistas, que serão “mais aprofundadas do que as que vão entrar no documentário”. Assim, as conversas iriam na íntegra para um livro, publicado pela Chili com Carne. Também no domínio dos livros, “há a ideia de fazer uma banda desenhada”; Elena Höch (espanhola a residir em Portugal) é a artista convidada para criar a imagem do festival e essa proposta já lhe foi endereçada.

“É possível que haja uma ramificação do Queer Fest no Porto”, avança o curador. “Já começamos a estabelecer contactos nesse sentido. De uma ideia que no início era pequena, isto começou a tornar-se numa bola de neve e a ganhar uma outra dimensão”, sublinha. Apesar da pandemia (ou, precisamente, pela pandemia), “toda a gente está cheia de vontade que o Queer Fest aconteça”. A esse nível, o entusiasmo não diminuiu e a “energia continua a mesma”. Para a organização, promover a música “é batermo-nos pela vida das pessoas” porque, afinal, “a arte não é mais do que o reflexo da vida”.

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