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Jovens LGBT+ e a pandemia de covid-19: quando a casa não é um porto de abrigo

Espera-se que os efeitos do isolamento social, bem como os da crise que se avizinha, sejam mais pronunciados em populações que estão, à partida, em situação de desvantagem social, tais como as pessoas com menos recursos económicos, as mulheres ou as pessoas LGBT+.

A pandemia de covid-19 levou a que muitos países tenham decretado as necessárias medidas de isolamento social, cujo efeito no bem-estar psicológico necessita de ser averiguado a curto, médio e longo prazo. Nesta medida, uma revisão da literatura científica publicada na prestigiada revista The Lancet revelou que as situações de quarentena têm, efectivamente, um impacto na saúde mental (por exemplo, sintomas associados ao stress pós-traumático como a depressão e a raiva).

Espera-se que estes efeitos, bem como os da crise que se avizinha, sejam mais pronunciados em populações que estão, à partida, em situação de desvantagem social, tais como as pessoas com menos recursos económicos, as mulheres ou as pessoas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero ou outras identidades sexuais e de género não normativas). No caso das pessoas LGBT+, sabe-se que o estigma a que estão sujeitas pode acarretar riscos para a sua saúde mental e, em casos extremos, colocar em risco a sua vida.

Nesta altura, torna-se imprescindível ressalvar dois aspectos: em primeiro lugar, o problema reside no estigma social, não nas identidades LGBT+ em si; em segundo lugar, o cruzamento, numa mesma pessoa de múltiplas discriminações pode agravar os riscos. Por exemplo, uma jovem trans em situação de sem-abrigo encontra-se numa situação de maior vulnerabilidade, comparativamente com um homem gay de classe média.

É geralmente na adolescência e início da idade adulta que as pessoas LGBT+ revelam aos outros a sua orientação sexual ou identidade de género. Durante esta altura, amigos/as e família podem funcionar como fontes de apoio ou, pelo contrário, reproduzir o preconceito social ainda existente. Um estudo recente realizado em Portugal, junto de cerca de 700 jovens LGBT+, revelou que estes/as identificam como principais fontes de apoio, os/as amigos/as. Quanto à família, se em alguns casos foi vista como protectora, noutros foi identificada como uma fonte adicional de discriminação, potenciando situações de mal-estar. Dadas as circunstâncias actuais, alguns e algumas jovens LGBT+ poderão assim encontrar-se numa situação de particular vulnerabilidade no que diz respeito à saúde mental e bem-estar psicológico. Para melhor compreender a situação e desenhar intervenções mais adaptadas à realidade desta população, estamos a levar a cabo uma investigação que pretende ouvir as experiências dos/as jovens LGBT+ que vivem em casa dos pais – ou configuração familiar equivalente – ou que a ela tenham regressado recentemente (para participar, basta clicar aqui).

Um verdadeiro combate aos efeitos da pandemia de covid-19 na saúde mental só será verdadeiramente eficaz se tiver em consideração as necessidades de todas as pessoas, incluindo os/as jovens LGBT+.

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