“E se o seu filho namorasse uma pessoa do mesmo sexo?” 42% dos portugueses assumem desconforto

Portugueses não se incomodam de trabalhar com membros de minorias ou de grupos discriminados, mas têm menor tolerância face a relações amorosas com familiares seus. Os dados do mais recente Eurobarómetro revelam contudo que as atitudes dos europeus melhoraram desde 2015.

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Reuters/CARLOS JASSO

Como reagiria um português se um dos dos seus filhos namorasse com alguém do mesmo sexo ou com uma pessoa transgénero? Cerca de 42% admitiu sentir-se desconfortável perante essa possibilidade, e quase a mesma percentagem manifestou o mesmo sentimento no caso de uma relação entre um filho seu com uma pessoa intersexo (40%) ou com alguém da etnia cigana (39%). Estes e outros dados foram esta semana divulgados pela Comissão Europeia num Eurobarómetro Especial sobre Discriminação na União Europeia, em que 27 mil inquiridos europeus (mil dos quais portugueses) se depararam com vários cenários como trabalhar com um membro de um grupo minoritário ou historicamente discriminado, ou vê-lo como chefe de Estado do seu país.

No que toca às relações amorosas dos filhos, 34% dos inquiridos portugueses também admite estar “totalmente desconfortável" com a ideia de um filho seu ter uma relação com um muçulmano, enquanto 18% sente o mesmo em relação a budistas e 16% relativamente a asiáticos ou judeus.

Neste estudo de opinião realizado entre 9 e 25 de Maio, 71% dos inquiridos portugueses afirmaram que é comum haver em Portugal pessoas discriminadas por causa da sua orientação sexual, 67% por causa da sua origem étnica, 62% por ser de etnia cigana, 61% devido à cor da pele e 59% por ser transgénero.

Por outro lado, uma maioria dos portugueses inquiridos diz não ser comum alguém ser vítima de discriminação sexista em Portugal (57% é desta opinião, enquanto 37% discorda e diz que é comum), pela sua religião ou crenças (53% diz que é raro, 41% diz que é comum). Mas uma maioria (58%) diz que é comum haver discriminação contra pessoas deficientes em Portugal.

Poderia Portugal ter um Presidente ou um primeiro-ministro de etnia cigana? 29% dos inquiridos admite que se sentiria “desconfortável” perante tal cenário, e 21% responde o mesmo em relação a pessoas intersexo e transgénero. Por outro lado, a maioria dos inquiridos diz-se “confortável” ou “moderadamente confortável” com a possibilidade de ter um líder nacional não heterossexual, uma pessoa com origem étnica ou cor de pele diferente da maioria da população ou por um indivíduo portador de deficiência.

Em ambiente de trabalho, os grupos em relação aos quais os portugueses se dizem mais “desconfortáveis” são pessoas de etnia cigana (17%), pessoas intersexo (15%), muçulmanos (15%), pessoas transgénero (14%), gays, lésbicas e bissexuais (11%).

Ou seja, os dados do Eurobarómetro permitem concluir que se uma larga maioria dos portugueses não descrimina no local de trabalho ou na política, o mesmo não se aplica necessariamente no plano familiar, onde muitos traçam os seus limites.

Preconceitos maiores a Leste, mas em queda em toda a Europa

A nível europeu, mais de metade dos inquiridos afirma que a descriminação contra ciganos (61%), a discriminação com base da origem étnica (59%), na cor da pele (59%) ou na orientação sexual é uma realidade no seu respectivo país. Ainda assim, e face a 2015, estes números estão a cair, em particular na discriminação contra pessoas transgénero (menos 8 pontos percentuais face a esse ano), pessoas com deficiência (menos 6 pp), origem étnica ou orientação sexual (menos 5 pp em ambos os casos).

“Os inquiridos estão a tornar-se mais confortáveis com a ideia de que alguém destes grupos desempenhe um cargo político, com destaque para pessoas com um religião diferente da maioria (69%, um aumento de 13 pp em relação a 2015), indivíduos transgénero (53%, 10 pp a mais), com uma origem étnica diferente da maioria (65%, mais 10 pp) ou um gays, lésbicas ou bissexuais (64%, mais 10 pp)”, refere o relatório deste Eurobarómetro.

Há quatro anos, os inquiridos mostravam-se também menos confortáveis com a ideia de trabalhar com um membro de um grupo minoritário ou historicamente discriminado. E, nesse campo, a evolução mais positiva ocorreu relativamente a pessoas de etnia cigana, gays, lésbicas e bissexuais.

Quanto ao cenário de uma relação amorosa de membros de grupos discriminados ou minoritários com um filho seu, 55% dos inquiridos europeus diz agora estar confortável com a ideia de uma relação com uma pessoa do mesmo sexo (mais 11 pontos percentuais que em relação em 2015), 43% diz o mesmo em relação a um indivíduo transgénero (mais 11 pp), 66% em relação a uma pessoa negra (mais 10 pp) e 53% relativamente a um muçulmano (mais 10 pp).

Mas se este é o panorama geral europeu, o Eurobarómetro assinala oscilações regionais importantes: “Os inquiridos no Reino Unido, Países Baixos, Irlanda, Espanha e Suécia estão consistentemente entre os que se sentem mais confortáveis com alguém destes grupos nos diferentes cenários. Os inquiridos na Bulgária, Hungria, Letónia e Lituânia, por outros lado, são consistentemente entre os que se sentem menos confortáveis em cada caso”, lê-se no capítulo das principais conclusões.

Ainda assim, destacam os autores, na maior parte dos países, as atitudes gerais dos europeus em relação a minorias tornaram-se mais “favoráveis” desde 2015.