Africanos discriminados na China, muçulmanos na Índia: os novos bodes expiatórios da covid-19

Há africanos obrigados a dormir na rua de Guangzhou. Na Índia, a escritora e activista Arundhati Roy acusa o Governo de Modi de usar a covid-19 como os nazis fizeram com o tifo contra os judeus, para os isolarem em guetos.

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Milhares de africanos têm acorrido a Guangzhou e outros centros de exportação James Pomfret/REUTERS

Começou pelos chineses, que eram vistos como se trouxessem o vírus do seu país – mesmo que não tivessem ido à China há anos. Os estrangeiros têm servido de bodes expiatórios para o novo coronavírus, e estes variam de sítio para sítio: agora, na China, são os africanos que são vítimas de racismo por causa do vírus.

Na cidade de Guangzhou, onde há uma comunidade africana significativa, há relatos de muitos africanos a serem expulsos das casas e recusados em hotéis, sujeitos a testes sem motivo, mantidos em quarentena sem razão para isso.

Um dos motivos é que a China está com medo de casos importados de infecção – mas a informação que não está a passar é que a maioria é de chineses que vieram do estrangeiro. Dos 114 casos importados em Guangzhou, 16 eram de africanos, e o restante de chineses que regressaram de várias partes do mundo.

Um empresário nigeriano contou à CNN que depois de ter ficado em quarentena 14 dias num hotel, não conseguiu encontrar outro alojamento. Tem dormido na rua, junto com 15 outras pessoas na mesma situação, todas africanas que tinham acabado de cumprir a quarentena. Um outro empresário nigeriano disse à BBC que foi retirado do seu apartamento pela polícia: “o meu senhorio nem sequer sabia que eu tinha sido expulso.” Dormiu dias na rua, ele e os seus filhos.

Uma estudante universitária da Serra Leoa em Guangzhou contou à emissora britânica que já foi testada duas vezes. O teste veio, de ambas as vezes, negativo. Mesmo assim, disse à BBC, continua em isolamento. 

As autoridades chinesas insistem que não há qualquer racismo, sublinhando as ligações fortes entre a China e vários países africanos. Mas muitos africanos que falaram tanto com a CNN como com a BBC dizem que estão a ser discriminados: “98% dos africanos estão em quarentena”, estima um líder comunitário que quis manter o anonimato, como todos os que falaram para media internacionais, por temer represálias.

As primeiras vítimas de racismo foram, no entanto, os chineses, ou mesmo asiáticos em geral (no início da pandemia houve, por exemplo, um autocarro com sul-coreanos em turismo em Israel às voltas à procura de um hotel para ficar). 

E pior, houve mesmo casos de violência física, como o de Jonathan Mok, 23 anos, de Singapura, que foi agredido por um grupo de quatro homens em Oxford Street, Londres. “Não queremos o teu coronavírus no nosso país”, disseram-lhe os agressores.

A onda de racismo levou a reacções desde a alta-comissária dos Direitos Humanos, Michelle Bachelet, que pediu acção contra estas atitudes, até à revista Nature, que pediu desculpas por ter associado o vírus ao seu local de origem porque “desde que o surto começou a ser reportado, pessoas de ascendência asiática em todo o mundo têm sido sujeitas a ataques racistas, com custos humanos escondidos - na sua saúde e modo de ganhar a vida”. 

Noutros países, parece haver uma tentativa deliberada de ligar a pandemia a um objectivo de discriminar uma minoria.

"Jihad do corona"

A escritora e activista política Arundhati Roy disse numa entrevista à emissora alemã Deutsche Welle que na Índia o governo nacionalista de Narendra Modi estava a aproveitar o coronavírus para fazer extremar tensão entre a maioria hindu e a minoria muçulmana, afirmando mesmo que “a situação está a aproximar-se do genocídio”.

“Penso que a covid-19 expôs coisas que todos sabíamos”: o país sofre “de uma crise de ódio”, declarou Roy.

Na Al Jazeera, o colunista Apoorvanand, professor de hindi na Universidade de Deli, relata o surgimento nas redes sociais de uma conspiração, “jihad do corona”, com vídeos mostrando muçulmanos a lamber pratos ou a cuspir em vegetais e fruta, que seria um modo de espalhar o vírus.

Apoorvanad (que usa apenas um nome) conta que uma festa religiosa de um grupo de missionários muçulmanos, o Tablighi Jamaat, teve casos positivos. A comunidade foi mais testada, e surgiram mais casos. Mas houve muito mais casos de encontros de grande dimensão com pessoas vindas do estrangeiro a que as autoridades não prestaram atenção.

Os muçulmanos estão numa posição frágil na Índia, e havia protestos há meses contra medidas que os discriminariam ainda mais, como a nova lei da cidadania e o registo obrigatório. O novo coronavírus deixa-os numa situação mais frágil ainda porque quase não estão representados no sector formal da economia - e esta campanha vai-os “afastar de uma série de actividades económicas”, disse Apoorvanad. 

O colunista acrescentou que “a excitação e o entusiasmo com que esta campanha antimuçulmanos tem sido encarada é um fenómeno profundamente preocupante”. Esta é a mais recente de uma série de teorias da conspiração envolvendo muçulmanos, “que esperam, reproduzindo-se a um ritmo frenético para superar os hindus e ‘poluir’ a terra hindu”, relata.

Arundhati Roy compara as tácticas usadas com as que os nazis alemães usaram contra os judeus: “É muito semelhante ao modo como o tifo foi usado contra os judeus para os por em guetos, para os estigmatizar”.

Um porta-voz do BJP (Bharatiya Janata), o partido de Modi, recusou as acusações de Roy dizendo que são “enganadoras, falsas e completamente racistas”.