Covid-19: China rejeita acusações de racismo contra a comunidade africana

Cantão decretou quarentena para todos os cidadãos africanos e Pequim recebeu denúncias de embaixadores sobre expulsões de hotéis e restaurantes e ameaças de deportação. EUA aconselharam afro-americanos a evitarem a cidade chinesa.

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Estabelecimentos comerciais africanos foram encerrados EPA/ALEX PLAVEVSKI
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Mais conhecida por "Little Africa", a zona com mais restaurantes e lojas africanas de Cantão está deserta EPA/ALEX PLAVEVSKI

“Na China não há discriminação contra irmãos africanos”, garantiu esta segunda-feira Zhao Lijian, porta-voz do Ministérios dos Negócios Estrangeiros chinês, em resposta aos protestos de embaixadores de vários países de África e aos avisos do consulado dos Estados Unidos em Cantão, sobre a decisão da cidade chinesa de impor uma quarentena de 14 dias, obrigatória e imediata, a todos os cidadãos africanos, por causa da covid-19, independentemente “das suas circunstâncias prévias ou do período de tempo em que se encontram em Cantão”.

A nota enviada pelos representantes diplomáticos ao Governo chinês denunciava expulsões de hotéis, apreensões de passaportes e ameaças de detenção, revogação de vistos e deportação dirigidas a africanos, que, segundo as autoridades municipais, contam-se em mais de 4500 dos cerca de 30.700 estrangeiros residentes em Cantão. 

O consulado norte-americano na cidade também denunciou episódios discriminatórios, envolvendo pessoas “que aparentam ter origem africana” e que foram impedidas de entrar em bares ou restaurantes. E recomendou aos afro-americanos que evitem deslocar-se até à “área metropolitana” da cidade.

“O Governo trata todos os estrangeiros na China de forma igual, opõe-se a quaisquer práticas diferenciadas que tenham como alvo grupos específicos de pessoas e tem tolerância zero para palavras e acções discriminatórias”, afiançou, no entanto, Zhao Lijian, citado pela Reuters.

“É irresponsável e imoral que os EUA estejam a semear discórdia. A sua tentativa de abrir um fosso entre a China e África nunca será bem-sucedida”, criticou ainda.

Sem referir a queixa formal apresentada pelos embaixadores africanos, o funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros disse, ainda assim, que estão a ser discutidas “novas medidas” sanitárias em Cantão, com o conhecimento dos representantes dos respectivos países.

Little Africa” debaixo de olho​

Na sequência das indicações do governo central chinês, as autoridades da capital da província de Guangdong, no Sul da China, decretaram novas medidas de contenção da pandemia, numa altura em que o país onde o novo coronavírus surgiu pela primeira vez – tendo feito quase 3400 mortos e infectado mais de 82 mil pessoas – teme que os casos importados possam dar origem a uma segunda vaga de infecções

Mas a identificação de cinco novos casos da doença em cidadãos nigerianos, com ligações ao mesmo restaurante na zona da cidade mais conhecida por “Little Africa”, em Yuexiu, levou a regras mais apertadas, que os responsáveis pelas comunidades imigrantes locais rotulam de racistas.

Citado pelo South China Morning Post, o presidente da câmara de Cantão, Wen Guohui, explica que há cerca de 4600 estrangeiros em “risco elevado de contrair o vírus”, que foram colocados “sob observação”. Mas assegura que as novas medidas abrangem apenas os que viajaram recentemente para a cidade, “incluindo chineses e estrangeiros”.

Ao jornal de Hong Kong, porém, um funcionário do departamento municipal responsável pelo acompanhamento dos processos dos imigrantes, garante que todas pessoas de países africanos têm de ficar 14 dias de quarentena, independentemente “das suas circunstâncias prévias ou do período de tempo em que se encontram em Cantão”.

“Mal abram a porta de casa, seremos alertados”, afirmou o funcionário, revelando ainda que todos os que não tiverem condições de se isolarem durante duas semanas, terão de ir para um hotel e pagar a estadia do seu próprio bolso.

“Todos os meus compatriotas em Cantão e em Foshan foram colocados de quarentena. Alguns são empresários que já estão a fazer a segunda quarentena. Eles, e até os estudantes, têm de pagar todos os custos”, confirmou ao SCMP William Akuma, dirigente da comunidade camaronesa de Cantão.

Felly Mwamba, líder da comunidade congolesa e residente na cidade chinesa desde 2003, acredita que esta situação fará com que muitos empresários, como ele, repensem o seu futuro na região.

“Toda a comunidade africana de Cantão sente-se insegura, zangada e preocupada”, disse ao South China Morning Post. “Há vários anos que tenho negócios em Cantão, mas, pela primeira vez, sinto-me confuso e preciso de pensar melhor sobre se quero continuar a trabalhar e a viver aqui”.

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