Máscaras podem reduzir a propagação de coronavírus, sugere estudo

Estudo mostrou que máscaras cirúrgicas reduzem coronavírus sazonais em gotículas respiratórias, o que significa que também podem ter um contributo no controlo da propagação de covid-19.

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Estudo comparou a quantidade de vírus que doentes exalavam com ou sem uma máscara cirúrgica Thomas Peter/Reuters

Um estudo feito antes da pandemia, mas com resultados divulgados agora na revista científica Nature Medicine, pode dar-nos pistas sobre o uso de máscaras. De acordo com a investigação sobre o efeito das máscaras cirúrgicas na transmissão de outros coronavírus, estas protecções faciais podem ajudar a evitar que pessoas doentes infectem outras. Extrapolando, os cientistas defendem que as máscaras podem assim contribuir a limitar a propagação da pandemia de covid-19.

A ideia não era entender se as máscaras podem proteger todas as pessoas que as usam de virem a ficar infectadas. O objectivo deste estudo era perceber se as máscaras cirúrgicas podem minimizar a propagação de vírus da gripe, rinovírus e coronavírus (ainda não o novo coronavírus SARS-CoV-2) de pessoas já infectadas.

Para isso, antes desta pandemia, uma equipa que tem como principal autora Nancy Leung (da Universidade de Hong Kong) recrutou 246 pessoas com suspeitas de infecções virais respiratórias. Através de uma máquina designada Gesundheit II comparou-se a quantidade de vírus que essas pessoas exalavam com ou sem uma máscara cirúrgica. Essa máquina que captura o oxigénio exalado pelos doentes foi desenvolvida por Donald Milton (da Universidade de Maryland), que em 2013 demonstrou num estudo que as máscaras cirúrgicas podem ajudar a evitar a transmissão da gripe. Mas, nesse trabalho, também alertou que os efeitos podem não ser os mesmos fora do âmbito do estudo.

Quanto ao novo estudo, Nancy Leung refere em comunicado: “Em 111 pessoas infectadas por coronavírus, vírus influenza [da gripe] ou rinovírus, as máscaras reduziram vírus nas gotículas respiratórias e nos aerossóis em coronavírus sazonais, bem como nas gotículas respiratórias nos vírus influenza [libertadas pela respiração e tosse]. Contudo, as máscaras não reduziram a propagação de rinovírus.”

Embora a experiência tenha sido feita antes da pandemia, o SARS-CoV-2 e outros coronavírus sazonais são parecidos e o tamanho das suas partículas pode ser semelhante. Mesmo assim, a equipa diz que é preciso mais investigação para se saber se as máscaras conseguem evitar especificamente a transmissão do SARS-CoV-2.

E os autores acham que as máscaras devem ser usadas por todos nesta altura? “Em tempos normais, diríamos que, se este estudo não tivesse sido estatisticamente significativo ou eficaz em estudos no mundo real, não o recomendaríamos. Contudo, no meio de uma pandemia, estamos desesperados. O nosso pensamento é que, mesmo que só diminua um pouco a transmissão, vale a pensa tentar”, responde Donald Milton. O investigador aponta ainda outras medidas como a melhoraria da ventilação em espaços públicos, nomeadamente em supermercados, também podem ser eficazes.

E máscaras de algodão?

Já Benjamin Cowling, co-director do Centro Colaborativo para Epidemiologia e Controlo de Doenças Infecciosas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e também um dos autores do trabalho, assinala que o facto de estudo mostrar que as máscaras cirúrgicas reduzem coronavírus sazonais em gotículas respiratórias e aerossóis implica que também podem ter um contributo no controlo da propagação de covid-19 pelas pessoas infectadas.

Disse ainda à agência Reuters que os resultados poderão ser extrapolados para as simples máscaras de algodão: “Máscaras de algodão ou de outro tecido poderão ter algum efeito, mas talvez um pouco menos do que as máscaras cirúrgicas devidamente usadas.”

Para Rupert Beale, especialista em infecções biológicas no Instituto Francis Crick (em Londres) e que não fez parte do trabalho, este estudo dá-nos “provas fortes e convincentes” que o uso de máscaras pode reduzir a transmissão de alguns vírus, mas elas “não são balas mágicas”. “O uso de máscaras não evita completamente a transmissão e não pode ser uma medida isolada, mas combinada com outras medidas de distanciamento social poderá ser parte de uma ‘estratégia de saída’ para o confinamento [que vivemos]”, esclareceu à Reuters.

O uso generalizado das máscaras tem sido alvo de muitas discussões. Num documento divulgado esta segunda-feira, a OMS considerou que o uso generalizado das máscaras por pessoas saudáveis em ambientes comunitários não é apoiado por provas científicas e que levanta incertezas e riscos críticos, refere a agência Lusa. Por isso, concluiu que as máscaras continuam a estar recomendadas para certos grupos específicos: doentes infectados com o SARS-CoV-2, pessoas com sintomas, cuidadores ou profissionais de saúde. A OMS notou ainda que “o uso de máscara só por si é insuficiente para garantir um nível adequado de protecção e outras medidas devem ser adoptadas”, como o distanciamento social e a lavagem frequente das mãos.

Como tal, aconselhou os países que decidam generalizar o uso de máscaras a avaliarem certos factores, como a densidade populacional das comunidades e o risco de contágio rápido, nomeadamente de ambientes fechados, bairros degradados e campos de refugiados. Outros dos factores são a disponibilização e o preço das máscaras. A organização refere ainda que, se um país decida seguir o uso generalizado, devem ser dadas instruções sobre como, quando e onde devem ser usadas as máscaras, bem como ser dito que as pessoas devem continuar a seguir as medidas de higiene e distanciamento social.

Em Portugal, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) tem estado alinhada com a OMS e as máscaras são recomendadas para doentes ou profissionais de saúde. Esta semana soube-se que a DGS pediu um parecer sobre o uso generalizado de máscaras para evitar a propagação da covid-19, ao que a directora-geral da Saúde respondeu na conferência de imprensa de segunda-feira: “O que estamos a fazer neste momento é uma análise dos pareceres, da evidência científica. Teremos de aguardar mais uns dias para podermos responder a isso.” A Ordem dos Médicos já pediu para que a DGS revisse com urgência os critérios para uso universal de máscaras. Também o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas defendeu o uso generalizado de máscaras.