Perguntas e Respostas

O que já sabemos sobre o novo coronavírus?

Uma nova estirpe de um coronavírus está a desassossegar o mundo. Já infectou mais de 90 mil pessoas e causou a morte a mais de três mil.

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SARS-CoV-2, o novo coronavírus Alissa Eckert/Dan Higgins

No final de 2019, um coronavírus conseguiu passar a barreira das espécies, chegou aos humanos e está a assustar o mundo. Como é um novo vírus que infecta os humanos, ainda há muito a saber sobre ele. A comunidade científica e as autoridades de saúde pública têm reunido esforços para o conhecer ao pormenor e o mais depressa possível. O que já sabemos mesmo sobre esta epidemia com epicentro na cidade de Wuhan, no Centro da China?

Já há casos em Portugal de infecção pelo novo coronavírus? 
Sim, foram confirmados os dois primeiros casos de portugueses com Covid-19 esta segunda-feira (2 de Março). O primeiro caso foi um de um médico com 60 anos que esteve de férias no Norte de Itália. Está internado no Hospital de Santo António, no Porto, e sentiu os primeiros sintomas a 29 de Fevereiro. O segundo caso confirmado foi o de um comercial do ramo da construção civil com 33 anos que regressou de Valência, em Espanha. Está internado no Hospital de São João, no Porto, e sentiu os primeiros sintomas a 26 de Fevereiro. Esta terça, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) confirmou mais dois casos: o de um homem com 60 anos, que tem ligação a outro caso já confirmado em Portugal e está no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto; e o de um homem de 37 anos que também tem ligação a outro caso e está no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. 

Qual é o nome do vírus e da doença?
O nome oficial do vírus é coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2), uma vez que tem semelhanças a nível genético com o SARS-CoV em cerca de 80%. Esta designação foi atribuída pelo Comité Internacional de Taxonomia de Vírus e publicada esta semana num artigo no repositório de acesso livre bioRxiv. Até então, foi temporariamente designado “2019-nCoV”.

o nome escolhido para a doença que o vírus provoca foi “Covid-19”, que surgiu do acrónimo em inglês da expressão “doença por coronavírus 2019” (coronavirus disease 2019). A decisão foi tomada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em colaboração com a Organização Mundial de Saúde Animal e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

Tanto o nome do vírus como o da doença foram escolhidos de forma a não existirem referências a localizações geográficas específicas, grupos de pessoas ou animais, para que evitar estigmatizações.

Já se sabe qual a origem do novo coronavírus e como passou para os humanos?
Não, apenas há suspeitas. Num relatório recente, a OMS indicava que há cada vez mais provas que demonstram existir uma ligação entre o SARS-CoV-2 e outros coronavírus encontrados nos morcegos, sobretudo os de subespécies do género Rhinolophus, que são abundantes na Ásia, Médio Oriente, África e na Europa. O circuito de transmissão também é desconhecido e “a hipótese mais provável é que um animal hospedeiro intermediário tenha tido um papel na transmissão”. Na semana passada, uma equipa de cientistas da China concluiu que o pangolim é um potencial hospedeiro intermediário do vírus.

A descoberta da origem do coronavírus poderá ajudar a compreender como é que o início do surto aconteceu na cidade de Wuhan e evitar assim futuros surtos de coronavírus. Há várias equipas – incluindo uma da OMS que está na China – a tentar responder a esta e outras questões.

Quais os sintomas que provoca?
Tosse seca, febre, fadiga e dificuldades respiratórias. A maioria das pessoas tem sintomas semelhantes aos da gripe e uma pequena proporção dos doentes desenvolverá pneumonia. Nos casos mais graves de pneumonia, pode ocorrer falência de órgãos e a Covid-19 torna-se fatal.

Como se transmite?
Através do contacto directo com pessoas infectadas. Isso pode acontecer através de gotículas respiratórias quando uma pessoa infectada tosse ou espirra, de gotículas de saliva ou de secreções do nariz. Por isso, a OMS recomenda que se tenha uma “boa prática de higiene respiratória”, como espirrar para o cotovelo. Também é importante que as pessoas lavem as mãos com regularidade quando estiverem em contacto com pessoas com os sintomas da Covid-19.

Apesar de a origem poder ter sido um animal, não há qualquer prova que indique um animal doméstico possa transmitir este coronavírus. Mesmo assim, a OMS refere que os alimentos devam ser cozinhados com cuidado para evitar contaminação cruzada ou ter atenção ao contacto com animais vivos ou superfícies de mercados de animais vivos.

Sobre se é seguro receber uma encomenda da China, uma das perguntas mais frequentes, a OMS responde sem dúvidas: “É seguro. As pessoas não correm risco de contraírem o novo coronavírus se receberem encomendas. Da experiência que temos de outros coronavírus, este tipo de vírus não sobrevive muito tempo nos objectos, como cartas e pacotes.”

Pessoas assintomáticas podem mesmo transmitir este coronavírus?
Sim, pode ser possível que pessoas infectadas com o vírus possam ser infecciosas antes de mostrar sintomas significativos, refere a OMS, que cita relatórios recentes. Mesmo assim, segundo os dados disponíveis, as pessoas que têm sintomas estão a causar a maioria dos casos. É preciso mais informação clínica para se determinar qual é mesmo o período infeccioso.

E qual é o período de incubação?
Por agora, estima-se que pode ir de um a 12,5 dias e que a média seja entre cinco a seis dias. A OMS refere que estas estimativas deverão ainda ser melhoradas, mas, com base na informação de outras doenças de coronavírus, o período de incubação deverá ser de 14 dias.

Em Fevereiro, uma equipa de cientistas da China anunciou que a média do período de incubação seria de apenas três dias e que este período poderia prolongar-se até 24 dias. Estes resultados preliminares foram relatados de forma breve no portal de investigação de ciências de saúde MedRxiv. Numa conferência de imprensa, a directora-geral da Saúde portuguesa, Graça Freitas, não valorizou o estudo, dizendo que é informação “que não está validada”, “um dos muitos estudos que circulam” e que a OMS nem o menciona.

Quão perigoso pode ser este vírus?
Com base nos dados disponíveis, a taxa de mortalidade é cerca de 3%. Contudo, este número pode estar sobrestimado, pois apenas tem em consideração os casos confirmados e pode haver ainda mais pessoas infectadas, segundo informação disponibilizada pela organização britânica Science Media Centre.

Já atingimos o pico da epidemia?
Ainda não sabemos. A 12 de Fevereiro, a OMS anunciava que o número de novos casos de coronavírus tinha estabilizado na semana anterior. Contudo, Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, precavia que era preciso cuidado com as interpretações feitas a partir daí: “Este surto ainda poderá ir em qualquer direcção.” Logo no dia seguinte foram registados mais de 13 mil novos casos num só dia na região de Hubei, onde fica Wuhan. A OMS assinala que tal aconteceu devido a uma mudança na forma como se diagnosticam os casos. “Vimos um pico significativo no número de casos reportados na China, mas não há uma mudança significativa na trajectória do surto de Covid-19”, disse Mike Ryan, director do programa de emergência da OMS, numa conferência de imprensa no final dessa semana. Também realçou que os casos de Covid-19 não estão a aumentar drasticamente fora da China. A excepção foi no navio de cruzeiro Diamond Princess, que confirmou mais 44 casos. Ao todo, esse navio em quarentena no Japão já tinha mais de 200 casos confirmados.

Numa entrevista à agência Reuters, o epidemiologista Zhong Nanshan (investigador da Comissão Nacional de Saúde da China) mostrou-se optimista e afirmou que o pico do surto poderia ser atingindo em meados ou no final deste mês e terminar em Abril. Mas ainda é cedo para prognósticos.

Quem pode ser mais vulnerável ao vírus?
Ainda tem de se perceber melhor como é que este coronavírus afecta as pessoas, mas os idosos e pessoas com doenças pré-existentes aparentam ter um maior risco de desenvolver a Covid-19 com gravidade.

Quantas pessoas infectadas já recuperaram a nível mundial? 
De acordo com os dados do site de estatística em tempo real Worldometer, de 80.026 casos confirmados na China continental, 44.462 (56%) conseguiram recuperar da doença. Segundo a Universidade Johns Hopkins (EUA), a taxa de recuperação na China ultrapasse a barreira dos 50%.

Durante quanto tempo é que o vírus sobrevive nas superfícies?
Também ainda não se sabe bem, mas a OMS refere que informações preliminares sugerem que possa sobreviver “poucas horas ou mais”. Desinfectantes simples podem ser suficientes para que o vírus não dure o tempo suficiente para infectar pessoas.

Já há um tratamento específico?
Não, ainda não há qualquer medicamento ou tratamento específico recomendado para evitar ou tratar a Covid-19. As pessoas infectadas recebem cuidados de saúde para aliviar ou tratar os sintomas. Nos casos mais graves, recebem a terapêutica de suporte de órgãos. Como se trata de um vírus, a OMS alerta que os antibióticos não o matam.

Cerca de 300 especialistas reunidos em Genebra (na Suíça) em Fevereiro, numa reunião organizada pela OMS, estabeleceram diferentes prioridades: o tratamento de pessoas que já estão infectadas com Covid-19; encontrar formas fáceis de fazer os testes; e perceber o comportamento do vírus.

Também se adiantaram pormenores sobre os tratamentos para o vírus. Citada pela revista New Scientist, a OMS referiu que os resultados de ensaios clínicos para saber se medicamentos para o VIH (o lopinavir e o ritonavir) são eficazes para tratar os sintomas da Covid-19 “serão conhecidos em poucos dias ou semanas”. Também se espera que os ensaios clínicos para o remdesivir (que foi inicialmente desenvolvimento para o vírus do ébola) estejam prontos em “poucas semanas”. Neste momento, também estão a ser desenvolvidas quatro vacinas contra a Covid-19. A OMS estimava que daí a três ou quatro meses se iniciassem os ensaios em pessoas para uma ou duas dessas vacinas e que uma esteja disponível para uso geral daqui a 18 meses.

Quais as recomendações para que as pessoas se possam proteger? 
São as recomendações básicas usadas para reduzir qualquer risco de infecção respiratória aguda e são sobretudo para os viajantes, como: evitar o contacto próximo com pessoas com essas infecções; lavar frequentemente as mãos, sobretudo depois de se estar em contacto directo com pessoas doentes; evitar o contacto desprotegido com animais selvagens ou para consumo humano; ou adoptar medidas de etiqueta respiratória. 

Se esteve numa área onde existiu ou ainda existe transmissão da Covid-19, deve seguir as recomendações da OMS e das autoridades de saúde nacionais e locais. Se não esteve numa área onde há Covid-19 e nem esteve com pessoas infectadas, o seu risco de infecção é baixo, refere a OMS num relatório recente. “É compreensível que se possa sentir ansioso quanto a esta epidemia. Mas verifique os factos em fontes credíveis para o ajudar a determinar com rigor os riscos e possa adoptar precauções razoáveis”, recomenda ainda a OMS. A Direcção-Geral da Saúde criou um site dedicado ao novo coronavírus.

Se tiver sintomas, o que deve fazer? 
De forma geral, a Direcção-Geral da Saúde recomenda que as pessoas que venham de uma área afectada onde possam ter tido contacto com doentes façam uma vigilância activa e contactem a linha SNS 24 (808 24 24 24) no sentido de terem aconselhamento sobre o que devem fazer. “Será um trabalho caso a caso. E do aconselhamento poderão ser definidas outras medidas”, disse a Graça Freitas, directora-geral da Saúde, em conferência de imprensa.

Que hospitais portugueses podem receber doentes infectados? 
No Norte do país, estão aptos para receber doentes com o novo coronavírus os hospitais de São João e de Santo António, ambos no Porto, assim como o Hospital de Braga, a Unidade Local de Saúde (ULS) de Matosinhos e o Centro Hospitalar Tâmega e Sousa. No Centro, a resposta está reforçada na ULS da Guarda e o Hospital Pediátrico de Coimbra. Na região de Lisboa e Vale do Tejo, estão o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (Hospital de Santa Maria e Hospital Pulido Valente) e do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Ocidental (Hospital de Egas Moniz e Hospital de São Francisco Xavier). No Alentejo, está pronta para internar doentes com o novo coronavírus a ULS Litoral Alentejano. No Algarve, a resposta está assegurada através do Centro Hospitalar Universitário do Algarve.

Já estamos perante uma pandemia?
Não. A OMS considera que o coronavírus ainda não é uma pandemia – termo usado para descrever situações em que uma doença infecciosa ameaça muitas pessoas em simultâneo e em todo o mundo. “Estamos numa fase epidémica com múltiplos surtos”, afirmou Sylvie Briand, directora do departamento de preparação global para os riscos infecciosos da OMS. Neste momento, há mais de 90 mil pessoas infectadas com o SARS-CoV-2 e morreram de mais de três mil pessoas em todo o mundo, segundo os dados da Centro Europeu de Controlo das Doenças (ECDC). Itália é o país da Europa com mais casos registados, ultrapassando já os 1600. Um dos maiores receios da OMS é que a epidemia chegue a países africanos com cuidados de saúde débeis, como a República Democrática do Congo, como tem realçado Tedros Adhanom Ghebreyesus.