OMS: “Os surtos podem trazer o melhor e o pior das pessoas”

A Organização Mundial da Saúde decidiu que a epidemia de ébola na República Democrática do Congo continua a ser uma emergência global de saúde pública.

A epidemia de Covid-19 já infectou mais de 45 mil pessoas
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A epidemia de Covid-19 já infectou mais de 45 mil pessoas EDGAR SU/Reuters

“Os surtos podem trazer o melhor e o pior das pessoas” – disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), esta quarta-feira numa conferência de imprensa após uma reunião de dois dias em Genebra (Suíça) sobre o novo coronavírus. “É tempo de solidariedade, não de estigma.” O director-geral referiu ainda que o número de novos casos de coronavírus estabilizou na última semana na China, mas deve ter-se cuidado com as interpretações que se fazem a partir daí. O comité de emergência da OMS também decidiu que a actual epidemia de ébola na República Democrática do Congo, em curso desde 2018, continua a ser uma emergência global de saúde pública.

Esta terça e quarta-feira, cerca de 300 cientistas, profissionais de agências de saúde pública, ministros da Saúde e financiadores de investigação estiveram reunidos em Genebra para definir prioridades na investigação e no desenvolvimento de medicamentos, diagnósticos e vacinas para o novo coronavírus. As deliberações que saíram desta reunião, assim como as novas colaborações científicas e financiamentos, formarão a base da investigação que será feita para combater este surto.

“Este surto é um teste de solidariedade – política, financeira e científica”, transmitiu na conferência Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Precisamos de lutar contra um inimigo comum que não respeita fronteiras, necessitamos de assegurar que temos todos os recursos necessários para acabar com este surto, assim como trazer a nossa melhor ciência para a linha da frente para que se encontrem respostas.” O director-geral da OMS felicitou também a resposta da comunidade científica para que se encontrem planos concretos para esta epidemia. 

Tedros Adhanom Ghebreyesus informou ainda que o número de novos confirmados na China estabilizou na última semana, mas que “este surto ainda poderá ir em qualquer direcção”. Já sobre os 48 casos confirmados esta terça-feira fora da China, assinalou que 40 deles surgiram no navio de cruzeiro Diamond Princess, que está em quarentena no Japão. 

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Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS na conferência de imprensa SALVATORE DI NOLFI/Lusa

O director-geral da OMS aproveitou para falar de recusas de entradas de navios em certos portos, como aconteceu com o MS Westerdam que transporta 2275 pessoas. Já cinco países recusaram que este navio atracasse nos seus territórios devido ao receio que os passageiros estivessem infectados com o novo coronavírus. O Camboja acabou por aceitar.

“Os surtos podem trazer o melhor e o pior das pessoas”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, apelando à solidariedade e deixando claro que, até agora, não há casos suspeitos ou confirmados de coronavírus a bordo do MS Westerdam. Para que se evitem situações como estas, juntamente com a Organização Marítima Internacional, a OMS emitirá um comunicado para que todos os países respeitem o princípio de “livre prática” dos navios e o de cuidados adequados para todos os passageiros.

Logo no primeiro dia da reunião, Tedros Adhanom Ghebreyesus tinha anunciado que o nome oficial para a doença do vírus era Covid-19, que surgiu do acrónimo em inglês da expressão “doença por coronavírus” (corona virus disease). Informou ainda que a OMS estima que uma vacina contra o novo coronavírus deva demorar cerca de um ano e meio a ser desenvolvida.

A epidemia de Covid-19 – que é considerada uma emergência global de saúde pública pela OMS – já matou mais de 1100 pessoas, quase todas na China, e infectou mais de 45 mil. Neste momento, uma equipa da OMS está na China para tentar encontrar respostas para algumas questões, como a origem do vírus. 

Num relatório recente, a OMS explicava que cada vez mais provas demonstram que há uma ligação entre o novo coronavírus e outros coronavírus encontrados nos morcegos, sobretudo com os de subespécies do género Rhinolophus. Contudo, nota que o circuito da transmissão ainda é desconhecido e que “a hipótese mais provável é que um animal hospedeiro intermediário tenha tido um papel na transmissão”. Na semana passada, uma equipa de cientistas da China concluiu que o pangolim é um potencial hospedeiro intermediário do vírus.

O ébola no Congo

Ainda na conferência desta quarta-feira, Tedros Adhanom Ghebreyesus frisou que agora um dos maiores medos é o de que a epidemia do novo coronavírus possa afectar um país como a República Democrática do Congo. Aliás, precisamente esta quarta-feira, a OMS decidiu que o ébola continua a ser uma emergência de saúde pública. O director-geral da OMS pediu para que o comité de emergência se reunisse porque (entre outros motivos), na última semana, só houve três casos confirmados de ébola e não foi identificado qualquer caso em 42 dias.

Mesmo assim, o comité decidiu manter o estatuto de emergência global, pois ainda há um elevado risco que o surto se espalhe a nível nacional e regional. “Contudo, os sinais são extremamente positivos no Leste da República Democrática do Congo, e espero que da próxima vez que o comité de emergência se reúna seja para declarar o fim do surto”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, informando que viajará esta quinta-feira para a República Democrática do Congo para se reunir com o Governo do país. 

A OMS declarou a 17 de Julho de 2019 que o surto de ébola na República Democrática do Congo era uma emergência global de saúde pública. Esta declaração foi uma chamada de atenção para o que estava a acontecer nesta parte de África. “É altura de o mundo prestar atenção”, apelou então Tedros Adhanom ​Ghebreyesus.

É a segunda maior epidemia de ébola, sendo só ultrapassada pela que ocorreu entre o final de 2013 e 2016 no Oeste de África, que matou mais de 11 mil pessoas e também foi considerada uma emergência global de saúde pública. Desde que o actual surto foi declarado a 1 de Agosto de 2018 já infectou mais de 3300 pessoas e matou mais de 2200, sobretudo nas províncias Kivu do Norte e de Ituri, no Leste do país. Juntamente com outros parceiros nacionais e internacionais, a OMS tem mais de 800 profissionais de saúde na República Democrática do Congo para ajudar na resposta a esta epidemia.