As Tarefas de Boris

As tarefas do primeiro-ministro são muitas e são complexas. Não devemos, no entanto, subestimá-lo. Se alguma coisa podemos dizer sobre Boris, é que ele é eficaz.

Mais de três anos depois do referendo, três idas às urnas dos eleitores e sob a liderança do terceiro primeiro-ministro, o Reino Unido deixou a União Europeia ontem às 23h00 de Londres e Lisboa e 00h00 de Bruxelas, Paris e Berlim, terminando a primeira parte de uma longa saga que teve início formal às 4h30 da manhã de 24 de junho de 2016, quando a contagem dos votos da consulta popular tornou inevitável o “Brexit”.

Os anos que se passaram foram tão cheios de peripécias e surpresas, drama e comédia, traições e paixões que possivelmente o próprio William Shakespeare - a quem não faltava imaginação - acharia que esta saga exigiria credulidade a mais por parte dos seus admiradores. E, no entanto, as tarefas que ainda aguardam o Reino Unido têm o potencial de fazer o passado recente parecer aprazível e até aborrecido. Consideremos apenas duas.

Internamente o primeiro-ministro tem que reconstruir a unidade nacional de um país profundamente dividido entre os que defendem o “Brexit” e os que se lhe opõem. E corre o risco de assistir à desagregação do próprio Reino Unido.

De facto, o “Brexit" colocou sobre a mesa as profundas divisões que atravessam a sociedade Britânica, que se materializam no perfil socio-económico dos apoiantes e dos opositores da saída do Reino Unido da União Europeia. Segundo a London School of Economics, o eleitorado que votou a favor do "Brexit" tem mais de 55 anos, uma baixa formação académica, um emprego pouco qualificado, não viaja e vive na Inglaterra rural ou em pequenas cidades industrializadas. Já os apoiantes da continuação do Reino Unido na União Europeia são o seu oposto: menos de 44 anos e com formação superior, têm empregos tecnicamente exigentes e bem pagos, são cosmopolitas e abertos ao Mundo e vivem predominantemente nos grandes centros urbanos. Passados mais de três anos sobre o referendo, as divisões e recriminações na sociedade britânica continuam vivas.

As divisões internas provocadas pelo referendo de 2016 não se limitam a colocar em lados opostos do argumento avós e netos, a cidade e o campo ou os que têm passaporte e aqueles que não viajam. O "Brexitalimenta igualmente os sentimentos nacionalistas das nações que compõem o Reino Unido, nomeadamente na Escócia e na Irlanda do Norte mas também, em muito menos escala, o País de Gales.

Se olharmos com mais atenção para os resultados do referendo de 2016 e das eleições gerais de 2019 - que foi, para todos os efeitos, a confirmação da vontade que a maioria dos Britânicos quer “get 'Brexitdone”, como proclamava o primeiro-ministro -, encontramos uma realidade muito mais complexa. Com efeito, quem desejou sair da União Europeia em 2016 foi a Inglaterra e o País de Gales, enquanto que a Escócia e a Irlanda do Norte votaram maioritariamente contra o "Brexit". E, sem surpresas considerando o perfil sociológico dos eleitores, a União Europeia recebeu a maioria dos votos nas grandes cidades e cidades universitárias inglesas e galesas.

As recentes eleições de 2019 reforçaram as divisões entre as nações do Reino Unido, já que o primeiro-ministro Johnson ganhou apenas na Inglaterra, tendo o Partido Nacionalista Escocês ganho na Escócia, a maioria dos deputados eleitos na Irlanda do Norte defenderem a unificação das duas partes da Ilha da Irlanda e o Partido Trabalhista venceu no País de Gales.

E os sinais de tempestade já se anunciam: o Governo escocês já aprovou a realização de um novo referendo sobre a independência e o Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia coloca a economia da Irlanda do Norte alinhada com Bruxelas e não com Londres, reforçando os argumentos dos que desejam activar uma cláusula obscura dos “Acordos de Belfast” - que garantem a paz na Irlanda - que prevê a possibilidade de um referendo sobre a unificação entre as duas partes da Ilha da Irlanda.

Se internamente as tarefas do primeiro-ministro são difíceis, externamente também não são fáceis, uma vez que Londres tem agora cerca de 9 meses para negociar um acordo económico e comercial com Bruxelas, o que é um prazo apertado se considerarmos que o acordo entre a União Europeia e o Canadá demorou 7 anos.

No entanto, e uma vez mais, no "Brexit" nada é o que aparenta ser. Ao contrário dos acordos de comércio que normalmente são negociados, onde se procura aproximar as regras que permitem fazer negócios de forma mais fácil e mais simples, o ponto de partida do futuro acordo entre Londres e Bruxelas é o completo alinhamento de regras e procedimentos. Ou seja, neste momento nada é diferente entre as duas margens do Canal da Mancha e um acordo será mais fácil ou mais difícil, dependendo do grau de divergência com as regras atuais que o Reino Unido pretenda introduzir no futuro.

Ninguém espere, no entanto, que Londres aceite continuar o alinhamento comercial com Bruxelas, já que o grande argumento económico do "Brexit" é a possibilidade do Reino Unido negociar acordos comerciais melhores com o mundo todo. O que o primeiro-ministro chama “the Global Britain”. Ora, chegar a um acordo com outro país que tenha regras diferentes da União Europeia implica que a economia britânica terá que divergir dos padrões da UE.

Naturalmente a “Global Britain” não está livre de dificuldades. O Reino Unido terá que construir as suas relações comerciais e económicas com o mundo todo, que até agora eram responsabilidade da União Europeia. No entanto, no caso dos acordos comerciais, há uma diferença substantiva entre negociar representando um mercado potencial de 500 milhões de consumidores europeus ou um mercado de 60 milhões de consumidores britânicos. De facto, em termos de comércio, o tamanho conta muito. Assim, o Reino Unido terá de encontrar um ponto de equilíbrio entre as expectativas de grandes parceiros com quem tem que estabelecer relações, de forma a um acordo não comprometa o que pretende alcançar com outro. Se, por exemplo, o Reino Unido decidir aceitar os padrões de segurança alimentar americanos terá dificuldades em aceder ao mercado europeu e vice-versa.

As tarefas do primeiro-ministro são muitas e são complexas. Não devemos, no entanto, subestimá-lo. Nos últimos 3 anos e meio Johnson liderou e venceu a campanha do "Brexit", venceu as eleições de 2019 com uma maioria expressiva e conseguiu chegar a um acordo com a União Europeia. Se alguma coisa podemos dizer sobre Boris, é que ele é eficaz.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico