Braço-direito de Isabel dos Santos demite-se da liderança do Banco de Fomento Angola

Constituído arguido em Angola, o gestor Mário Leite da Silva renunciou ao cargo no banco controlado pela empresária.

Mário Leite
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Mário Leite Silve é o presidente da Efacec e é administrador não executivo da Nos Fernando Veludo/NFactos

O gestor português Mário Leite da Silva, braço-direito de Isabel dos Santos, demitiu-se do cargo de presidente do conselho de administração do Banco de Fomento Angola (BFA), instituição em que o BPI tem uma posição de 48,1% e que é controlada em 51% do capital pela empresária angolana através da operadora de comunicações Unitel, cuja participação já estava arrestada desde Dezembro.

A decisão de sair do banco, avança a agência Lusa, foi confirmada aos trabalhadores da instituição bancária nesta quinta-feira, um dia depois de o empresário ter sido constituído arguido no inquérito onde a engenheira é visada pelo Ministério Público angolano por má gestão e desvio de fundos durante a presidência da petrolífera Sonangol.

Mário Leite da Silva, também administrador não-executivo da operadora portuguesa Nos e presidente da EFACEC, é um dos portugueses do círculo próximo da filha do ex-Presidente de Angola José Eduardo dos Santos. O seu nome apareceu exposto nos Luanda Leaks como gerente da Matter Business Consulting DMCC, uma empresa sediada no Dubai para a qual a Sonangol fez transferências suspeitas a partir da conta da petrolífera no EuroBic em Lisboa, o banco de que Isabel dos Santos é accionista (42,5%) e do qual está agora de saída.

Ficou a saber-se também nesta quinta-feira que o director do private banking do EuroBic que terá autorizado movimentações suspeitas, Nuno Ribeiro da Cunha, foi encontrado morto quarta-feira à noite no Restelo, em Lisboa.

A sucessão de acontecimentos em catadupa dos últimos dias é sintomática da dimensão das próprias revelações das notícias do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), baseadas numa megafuga de informação de 715 mil ficheiros, ao exporem alegados esquemas financeiros suspeitos que envolvem a construção do império de Isabel dos Santos.

A saída de Mário Leite da Silva do BFA — no qual sucedeu a Fernando Ulrich após o português BPI reduzir a sua participação no banco para 48,1% ao vender 2% à Unitel — tem efeitos ao dia em que foi anunciada a sua constituição como arguido em Angola. Além de presidente, Mário da Silva tinha na sua alçada directa a direcção da auditoria interna

Além do gestor e da própria Isabel dos Santos, também foram ontem constituídos arguidos três portugueses: Sarju Raikundalia (ex-administrador financeiro da Sonangol e um dos nomes que aparecem nas revelações associado às transferências suspeitas), Paula Oliveira (amiga de Isabel dos Santos e administradora não-executiva indicada por Isabel dos Santos para a operadora Nos) e Nuno Ribeiro da Cunha (director do EuroBic, entretanto falecido).

Isabel dos Santos é suspeita da prática de actos de má gestão e desvio de fundos durante a sua liderança da Sonangol, posição para a qual foi nomeada quando o seu pai, José Eduardo dos Santos, era Presidente da República.

Ainda antes das revelações e da sua constituição como arguido, Mário Leite da Silva já fora visado pela justiça angolana ao ver arrestadas as contas bancárias domiciliadas no próprio Banco Fomento de Angola, a que presidia. Uma decisão preventiva tomada em Dezembro pelo Tribunal Provincial de Luanda por causa de o Estado angolano reclamar a empresas do universo de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, o pagamento de mais de 1,1 mil milhões de dólares por prejuízos provocados à Sonangol e à empresa pública de diamantes Sodiam.

É no contexto do envolvimento do casal no negócio dos diamantes que o nome de Mário Leite da Silva surge associado, como director-geral, das empresas Victoria Holding BV, Victoria Limited, Exem Energy BV e da própria joelheira de luxo De Grisogono SA.

No BFA, lembra a agência Lusa, o gestor assumiu o cargo de presidente em Janeiro de 2017, depois da assinatura do acordo de compra do banco pela Unitel. António Domingues, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e ex-gestor do BPI, é vice-presidente do BFA.

O advogado português Jorge Brito Pereira, cuja ligação a Isabel dos Santos também foi exposta nos Luanda Leaks como mandatário, é presidente da mesa da assembleia geral do BFA.

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