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“Recordes históricos”: em 2019 houve mais mulheres protagonistas e autoras em Hollywood

No ano passado, 40% dos filmes mais rentáveis tiveram mulheres como protagonistas e 20% das profissionais de bastidores foram mulheres.

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Angelina Jolie em Maléfica, Daisy Ridley em Star Wars: A Ascensão de Skywalker, Brie Larson em Capitão Marvel e Kaitlyn Dever e Beanie Feldstein em Booksmart DR

Em 2019, as mulheres bateram recordes em Hollywood: não só houve mais blockbusters e filmes muito populares com protagonistas femininas, como também se contabilizaram mais realizadoras, argumentistas, produtoras ou directoras de fotografia e de montagem nos filmes mais rentáveis do mercado norte-americano. São “recordes históricos” registados pelos mais duradouros estudos sobre a representação de género à frente e atrás do ecrã e que se traduzem em números: no ano passado, 40% dos filmes mais rentáveis tiveram mulheres como protagonistas e 20% das profissionais de bastidores foram mulheres.

Os dados constam de dois estudos do Center for the Study of Women in Television and Film (CSWTF): The Celluloid Ceiling: Behind-the-Scenes Employment of Women on the Top 100, 250, and 500 Films of 2019, e It’s a Man’s (Celluloid) World: Portrayals of Female Characters in the Top Grossing Films of 2019. Divulgados por estes dias iniciais de 2020, pintam um retrato bem mais favorável da diversidade de género nos ecrãs e entre quem tem a oportunidade de contar histórias que milhões de pessoas vêem em todo o mundo.

Os números mais sonantes vêm de It’s a Man’s (Celluloid) World, que mostra que “a percentagem de filmes mais rentáveis com mulheres protagonistas subiu de 31% em 2018 para 40% em 2019, atingindo um recorde histórico”. O mesmo estudo dirigido por Martha F. Lauzen e que há mais de duas décadas traduz em números as disparidades de representação em Hollywood indica que também o número de personagens de relevo femininas subiu no ano passado para 37% — o reverso da medalha é que se mantém, ainda que se vá estreitando, a superioridade numérica de personagens masculinas, fixado em 63%. No que diz respeito ao protagonista, o elemento mais bem pago do elenco e normalmente o maior chamariz de público, em 2019 43% dos filmes mais vistos foram protagonizados por homens e 17% por um colectivo ou por uma combinação de protagonista feminino e protagonista masculino.

Os números evidenciam o progresso dos últimos anos que tornou o mercado um pouco mais paritário no tipo de histórias que conta, reflectindo a evolução das mentalidades e um certo activismo – depois de Cate Blanchett ter usado o palco dos Óscares em 2014 para dizer à indústria que os filmes com e sobre mulheres não são um segmento especial, que “os públicos querem vê-los” e “fazem dinheiro”, aconteceu o movimento #MeToo, que ajudou a expor outro tipo de discriminação laboral das mulheres, e começaram a surgir novos projectos há muito engavetados.

Entre os filmes mais populares e rentáveis dos últimos cinco anos estão Capitão Marvel, protagonizado por Brie Larson (o seu nome de super-heroína não se declina no feminino, como “capitã"), Black Panther, com a negritude e importantes personagens femininas no centro da narrativa, e uma trilogia Star Wars que terminou em 2019 e cuja estrela é Rey, interpretada por Daisy Ridley. Angelina Jolie foi Maléfica 2 em 2019, ano em que foi dada luz verde a um filme de Scarlett Johansson sobre a Viúva Negra e em que começou a ser filmada a sequela de Mulher Maravilha, novamente realizada por Patty Jenkins.

Os números de 2019 não são tão brilhantes quando se observam as estatísticas relativas à presença de mulheres com papéis com falas – 34%, menos 1% do que em 2018 e contrastando visivelmente com os 68% de homens que proferem palavras nos filmes mais vistos.

Olhando para a filigrana da estatística, percebe-se também a evolução dos blockbusters rumo às mulheres – segundo o CSWTF, há 45% protagonistas do sexo feminino em filmes das majors e 55% nas produções dos estúdios independentes, uma melhoria significativa em relação a 2018, quando era duas vezes mais provável encontrar uma protagonista num filme indie do que num filme de um grande estúdio. O detalhe também evidencia a reprodução de velhos estereótipos, embora cada vez mais divididos: há mais mulheres como estrela de um filme de terror e mais homens como estrela de um filme de acção.

As personagens de mulheres também tendem a ser mais jovens do que as dos homens. Em termos étnicos, os desequilíbrios mantêm-se: 68% são brancas, 20% negras, 7% asiáticas e 5% latinas; entre os homens, as percentagens são semelhantes. Também se repetem relações de outros anos: se houver por trás do filme uma realizadora ou uma argumentista, há maior probabilidade de haver mulheres protagonistas. O estudo The Celluloid Ceiling reflecte como nos 100 filmes mais rentáveis de 2019 houve 20% de realizadoras, produtoras, guionistas, editoras, produtoras executivas ou directoras de fotografia, mais 4% do que em 2018. Entre o número de realizadoras, a subida foi significativa: em 2018 só 4% dos 100 filmes mais rentáveis foram realizados por uma mulher; no ano passado, essa percentagem subiu para os 12%.

Na Europa, segundo dados apresentados pelo Eurimages em 2015, apenas 17,5% das pessoas que trabalhavam em cinema em 2012 eram do sexo feminino; sobre Portugal, dados compilados pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual sobre longas-metragens de ficção com apoios públicos produzidas entre 2011 e 2013 mostravam que 27,3% delas foram realizadas por mulheres — números praticamente iguais ao de uma década antes. 

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