Valeu a pena esperar por Capitão Marvel e por uma mulher como estrela de um filme de super-heróis?

Dois anos depois de Mulher-Maravilha, uma mulher senta-se pela primeira vez na cadeira de realizador de um filme Marvel e o império dos filmes dos comics dá novamente — depois do flop Elektra — o protagonismo a uma super-heroína. Vem a tempo?

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Brie Larson como Capitão Marvel Marvel Studios
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Chuck Zlotnick, Film Frame/Marvel Studios/Walt Disney Studios Motion Pictures

Há 14 anos que uma super-heroína da Marvel não era protagonista de um filme em nome próprio. Esse filme era Elektra e tinha Jennifer Garner como a sua estrela. A estreia foi um flop tão grande que parece ter assustado um responsável da Marvel ao ponto de não voltar a ter uma mulher com super-poderes no papel principal. Até agora.

Esta semana, estreou-se Capitão Marvel, dos estúdios Disney e da Marvel Studios, protagonizado por Brie Larson, vencedora de um Óscar. As previsões dos especialistas dizem que o filme deve ter uma estreia de 100 milhões de dólares nos EUA (cerca de 88 milhões de euros), mas que até pode ultrapassar os 103 milhões do êxito que foi Mulher-Maravilha, da concorrente DC, há dois anos.

Se Capitão Marvel for um sucesso comercial, independentemente de ser um sucesso junto da crítica, ouviremos de novo a velha pergunta de muitos fãs e peritos da indústria: porque é que a Marvel demorou tanto tempo a deixar de só confiar na testosterona para protagonistas dos seus filmes?

Muitos observadores não culpam Kevin Feige, presidente da Marvel Studios e que no passado produziu os franchises X-Men, nos estúdios Fox, ou Homem-Aranha, na Sony. Ele ajudou a fazer várias dezenas de filmes de super-heróis, sendo que Elektra foi o único com uma só super-protagonista feminina. Desde que lançou o Universo Cinemático da Marvel em 2008 com Homem de Ferro, o presidente da Marvel Studios liderou os seus filmes de super-heróis rumo a lucros de 17,5 mil milhões de dólares em receitas – e nenhum desses filmes foi um flop.

Agora, Feige aposta que Capitão Marvel, o primeiro dos 21 filmes desse universo a ter uma mulher como protagonista a solo, vai ser um sucesso histórico para o estúdio.

Uma vaga de super-heróis

Há duas décadas que Hollywood tenta vender ao público filmes baseados em BD com protagonistas femininas — isto depois de X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002) terem lançado a actual vaga de cinema de super-heróis. Mas a indústria rapidamente ficou renitente quanto a esses filmes com mulheres — Elektra fez menos de 57 milhões de dólares em receitas brutas de bilheteira em todo o mundo depois de ter custado 43 milhões de dólares a produzir.

“Quando Elektra falhou, [o raciocínio] foi: ‘Bom, claramente as mulheres não podem ser protagonistas de um filme de super-heróis’”, diz Kelly Sue DeConnick, autora de livros de BD e consultora no filme Capitão América, e que em 2012 lançou a série de livros dedicada à personagem da Capitão Marvel que dá à piloto Carol Danvers o seu papel como a super-heroína que agora vemos no filme.

Quase uma década mais tarde, Elektra voltou a ser citada num agora infame e-mail que a pirataria tornou público e onde o responsável pela Marvel Entertainment, Isaac Perlmutter, parecia questionar quão lucrativo pode ser um filme de super-heróis liderado por uma mulher. O e-mail incluía links para os resultados de bilheteira de Elektra e de Catwoman, protagonizado por Halle Berry e que em 2004 fez 82 milhões de dólares em todo o mundo contra um orçamento de produção de 100 milhões. Chamou a Catwoman, bem como a Supergirl (1984) um “desastre”.

Um ano depois do envio desse e-mail, os Marvel Studios sofreram uma reorganização interna e Feige ficou com margem para dar luz verde a títulos mais diversificados em género e raça do universo cinemático da Marvel – sem ter de passar por Isaac Perlmutter (a Disney não respondeu ao pedido para comentar esta questão).

Desde então, Feige ajudou a moldar um mundo em que há a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e a Scarlet Witch (Elizabeth Olsen) e deu autorização para que Capitão Marvel levantasse voo. Nos últimos anos, Feige contratou realizadores como Taika Waititi (Thor: Ragnarok) e Ryan Coogler (Black Panther) que já mostraram ter um dom para contar histórias de forma original em filmes de menor orçamento. A Marvel atingiu a excelência nos efeitos visuais épicos e mostrou que a mais-valia dos realizadores é a capacidade de fazer com que os espectadores se relacionem mais com as suas personagens.

A bússola inspiradora

Para Capitão Marvel, Feige e o seu estúdio escolheram a equipa de realizadores Anna Boden e Ryan Fleck, conhecidos por dramas intimistas como Half Nelson – Encurralados, Sugar ou A Febre do Mississípi. “Na verdade, abordámos [Capitão Marvel] da mesma maneira”, diz Boden sobre os filmes indie que realizaram. “Precisávamos de encontrar uma personagem na história que nos entusiasmasse verdadeiramente e com a qual quiséssemos viver durante dois anos, camada após camada.” E Capitão Marvel “tornou-se decididamente num projecto da nossa paixão”, diz Fleck. “Escavámos cada vez mais, e mais profundamente.” 

Boden diz que a sua bússola inspiradora, nas palavras de DeConnick no comic, foi a de uma rapariga que corre tão depressa que cai, mas “há um instante, uma fracção de segundo antes de o mundo a agarrar outra vez… Um momento em que ela ultrapassou todas as dúvidas que tinha sobre si mesma e em que voou. Nesse momento, todas as meninas voam.”

O filme vai beber à forma como DeConnick reimaginou a personagem. A autora foi consultora do projecto e entrou nele com cepticismo, diz. Conseguiria Hollywood comprometer-se em fazer esta personagem tão rica e empoderada no ecrã como ela se tornou na página, quatro décadas depois de Danvers ter sido apresentada nos comics como um piloto marginalizada e objectificada que se tornaria segurança na NASA?

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“O progresso que as mulheres fizeram não só a trabalhar nos comics mas também enquanto personagens titulares de um livro – não sendo hiper-sexualizadas ou claramente embrulhadas para um público masculino – é muito recente”, diz Kelly Sue DeConnick, filha de um piloto da Força Aérea que vestiu a sua Carol Danvers de fato de macaco de inspiração militar ao invés de uma roupa que lhe mostrasse a barriga. “E se é assim [no sector dos] comics, então quando entramos no [negócio] de literalmente milhares de milhões de dólares [de Hollywood] a triste verdade é que a representação também é desequilibrada, tal como com qualquer comunidade marginalizada”, diz a argumentista.

Mas ao chegar a Hollywood, DeConnick diz que a produtora executiva Victoria Alonso lhe mostrou que este filme era de importância vital para ela. E para os realizadores significava uma personagem cuja força desafia a sua vulnerabilidade – mesmo quando se prepara para ser o herói mais poderoso da Marvel no seu próximo filme Avengers: Endgame, que se estreia em Abril.

“Ela não é um super-herói perfeito”, diz Boden sobre Capitão Marvel, “mas é forte, e é poderosa… Isso não significa que seja sempre confiante e não significa que não caia. Estamos feitos para cair.”

“Não me sinto nada pioneira”

Além da história de Carol Danvers, Boden incluiu outra história de representação: tornou-se a primeira mulher na cadeira do realizador de um filme Marvel. Também é uma das poucas mulheres a terem créditos de argumentista num filme da Marvel. “Emocionalmente, não me sinto nada pioneira”, diz Boden.

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Mas desde que terminou o filme e encontrou fãs, Boden diz que percebeu quão importante é ser um símbolo para jovens raparigas e rapazes. Talvez “não estejamos a ter esta conversa daqui a cinco ou dez anos” sobre a representação e as realizadoras.

Captão Marvel chega quase dois anos depois de a Warner ter captado o zeitgeist cultural com Mulher-Maravilharealizado por Patty Jenkins e protagonizado por Gal Gadot. O sucesso crítico e comercial do filme — foi o primeiro filme realizado por uma mulher a ultrapassar os 100 milhões de dólares de receita de bilheteira na estreia nos EUA – tornou mais evidente a sensação de que a Marvel estava a ser demasiado lenta no lançamento de um filme protagonizado por uma super-heroína.

Hoje, porém, DeConnick diz: “Estou grata a todos os envolvidos em Mulher-Maravilha, porque tudo o que fizeram tornou Capitão Marvel mais fácil”. Então o que é que uma céptica pensa de como os Marvel Studios lidaram com a sua Capitão Marvel? DeConnick já viu o filme três vezes – e em cada uma delas ficou profundamente comovida. “Não tinha noção do efeito que teria em mim.”

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post