Por trás de uma Mulher-Maravilha há outra mulher — e muita história

Super-heroína só conseguiu chegar ao cinema já septuagenária. Gal Gadot protagoniza o primeiro filme de super-heróis realizado por uma mulher, Patty Jenkins.

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Gal Gadot é a primeira Mulher Maravilha do cinema Warner
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A realizadora Patty Jenkins MARIO ANZUONI/Reuters
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Jenkins dirige Gadot nas filmagens Warner
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O primeiro filme de Patty Jenkins levou-a aos Óscares. Só 14 anos depois conseguiria fazer outra longa-metragem. Deu o Óscar a Charlize Theron com Monstro em 2003, mas nos anos seguintes só encontrou trabalho na televisão. Regressa pela porta blockbuster, grande mas mal amada entre autores e críticos, fazendo de Mulher-Maravilha o primeiro filme de super-heróis realizado por uma mulher. Gal Gadot protagoniza, muita da crítica elogia, o arquétipo da DC Comics reanalisa-se.

Sem pressão: “um filme que pode determinar o destino das super-heroínas nos próximos anos” (Los Angeles Times); “Patty Jenkins conseguirá tornar o mundo dos super-heróis um lugar seguro para as realizadoras?” — o filme tornou-a “a realizadora mais importante a trabalhar hoje” (Hollywood Reporter); “pode ajudar a fechar o pay gap em Holywood” (Laura Martin, analista de média); “pode mesmo virar a maré” para a DC (Shawn Robbins, analista do BoxOffice.com).

Mulher-Maravilha, que quinta-feira se estreou mundo fora, carrega vários fardos. É um filme de 150 milhões de dólares – Jenkins torna-se na segunda mulher a dirigir um filme com um orçamento superior a 100 milhões de dólares (a primeira foi, claro, Kathryn Bigelow com K-19) — depois de Monstro, que escreveu e realizou por oito milhões de dólares. Não é o primeiro filme de super-heróis (o género alfa na produção nos EUA) com uma protagonista feminina porque houve Supergirl (1984), Catwoman (2004) e Elektra (2005), três desastres que até agora eram citados como impedimento para voltar a “arriscar” em superpersonagens femininas. Mas os elencos alargados de X-Men e Os Vingadores têm mais mulheres, Scarlett Johansson, Angelina Jolie ou Milla Jovovich deram o seu contributo como heroínas de acção e os Jogos da Fome de Jennifer Lawrence provaram que uma fantasia de acção vende no feminino. O Despertar da Força e Rogue One de Star Wars continuaram nessa linha.

Curiosamente, a Mulher-Maravilha estreou-se no cinema aos 75 anos, numa breve e saudada aparição em Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça (2016). No cinema já houve sete Super-Homem (por três actores), nove Batman (seis actores), ambos ícones da DC, e filmes vários com o Homem de Ferro ou Thor. Só em 2019 haverá uma Capitã Marvel (Brie Larson) no cinema e mais uma vez o filme de Jenkins está a ser visto como a prova dos nove do género.

“O escrutínio para representar tudo o que for possível sobre 50% da população pode ser injusto”, diz Jenkins no Los Angeles Times.

Anualmente, as estatísticas e os seus protagonistas têm denunciado os desequilíbrio de género, etnia e orientação sexual na indústria cinematográfica. Nos EUA em 2016 só 7% dos 250 filmes mais rentáveis foram realizados por mulheres; na última década e alargando a amostra para mil filmes, a percentagem desce para 4%. Por isso é que o facto de um blockbuster como este ser realizado por uma mulher “é extraordinário” e “um passo na direcção certa” para Stacy L. Smith, investigadora sobre diversidade em Hollywood na Universidade da Califórnia Sul, falando ao Los Angeles Times. No mundo dos comics, em que Diana, a Mulher-Maravilha, nasceu há 76 anos pelas mãos do psicólogo formado em Harvard William Moulton Marston para mostrar “o crescimento do poder das mulheres”, a personagem é também uma minoria. As personagens femininas são apenas cerca de 30% nas duas majors, a DC e a Marvel, indica um estudo do site de dados FiveThirty Eight.

Mas Mulher Maravilha, o filme, não surge só de uma deriva temática pró-diversidade. “Historicamente, o público deste género é masculino — 60 a 40% — mas se se conseguir manter os homens e acrescentar um público feminino significativo, é uma dupla vitória”, admitiu o produtor Charles Roven à Hollywood Reporter. Outra coisa joga a seu favor: os fãs parecem estar calmos e felizes, ao contrário do que aconteceu com alguns indignados com Caça-Fantasmas, versão feminina, em 2016.

Como a política da representação é um tema quente em Hollywood, especialmente nos últimos anos, isso tem impacto nas expectativas dos próprios estúdios. A Warner mantém as previsões baixas para o primeiro fim-de-semana da Mulher-Maravilha — entre 58 e 67 milhões de euros de receitas de bilheteira, números que outros analistas já reviram em alta. O mercado internacional pode fazer perto de 155 milhões até domingo, por exemplo. Os números de Esquadrão Suicida e Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça, os dois últimos filmes DC/Warner, eram muito mais optimistas (e cumpriram-se, com receitas conjuntas de 1,4 mil milhões de euros) mas, ao contrário de Mulher-Maravilha, foram um flop crítico.

Entretanto, os media e os fãs maravilham-se com o facto de Mulher-Maravilha ter atingido 94% de aprovação no agregador de críticas profissionais no Rotten Tomatoes e uma nota de 8,5 em 10 nos votos de utilizadores do IMDB. É um momento noticioso em si, e tudo porque recentemente o vitríolo online já asfixiou a narrativa de outros filmes de grande orçamento — como os  ataques racistas e sexistas às protagonistas de Caça-Fantasmas 2016 no Twitter — ou aprofundou a distância entre críticos e espectadores — como exemplifica a petição criada por fãs da DC para fechar o Rotten Tomatoes após a reacção negativa dos críticos a Esquadrão e Batman v Super-Homem.

"Ícone"

A Mulher-Maravilha é uma personagem e um arquétipo altamente escrutinável. Nos comics, combateu nazis, monstros verdes, foi estrela de televisão, uma amiga que ajudou outra com o seu distúrbio alimentar e embaixadora da paz na ONU, com ou sem fato reduzido. A comunidade gay gostava dela, muitas feministas também. Gloria Steinem pô-la na capa da revista Ms. em 1972, porque “simboliza muitos dos valores da cultura das mulheres que as feministas tentam agora introduzir no mainstream”, escreveu a autora na altura, falando em “autoconfiança”, “irmandade” e no minorar do papel da violência como resolução de conflitos. “Ícone”, resume o ilustrador George Pérez no prefácio da antologia Wonder Woman (2010).

Mas a certa altura também foi secretária dos outros heróis da DC, geriu uma boutique, foi relegada para papéis mais convencionais. Quando Gal Gadot foi escolhida para o papel, o seu uniforme revelador e até o facto de ter ou não pelos nas axilas foi escrutinado. Em textos sobre o filme, identifica-se a ausência de colunas — arquitectura fálica — na ilha do Paraíso de onde é oriunda Mulher-Maravilha, fala-se do sáfico, de ginocracia, explica-se porque Gadot ou Robin Wright usam compensados no filme e não calçado prático, elogia-se os sapatos rasos da protagonista na antestreia. No ano passado e na vida bem real, a personagem foi destituída do seu papel de embaixadora honorária da ONU para o empoderamento de raparigas e mulheres. Houve críticas à ONU sobre a falta de sensibilidade cultural da personagem e contra a objectificação feminina que representaria. Gal Gadot explica: “os argumentistas, a Patty e eu percebemos que a melhor forma de mostrar isso é mostrar Diana como não tendo qualquer consciência dos papéis sociais. Ela não tem fronteiras de género. Para ela, toda a gente é igual”. Patty Jenkins quer que a heroína tenha o aspecto da sua “fantasia de infância”, gira e sexy mas também “bondosa”.

Para Jenkins, o escrutínio constante, as exigências do público, a indignação da Internet ou o ultraje das redes sociais não lhe permitem trabalhar. Isola-as. “Não sou só uma cineasta, sou uma mulher cineasta. É uma face de dois gumes, porque por um lado choca-me que isso seja uma raridade e estou super grata por ser a pessoa que tem a oportunidade de o fazer; mas por outro lado só cheguei aqui por não pensar de todo nisso. Cheguei aqui partindo do princípio que podia fazer o que quisesse se estivesse disposta a trabalhar o suficiente”, sublinha no Los Angeles Times. E remata, na Variety: “Uma mulher não tem de realizar um filme de mulheres e um homem não tem de realizar um filme de homens”. O que é “maravilhoso é realizar isto como uma mulher porque para mim [o filme] não é sobre ela ser uma mulher — é sobre um herói”. E a realizadora gosta de um certo tipo de herói.

A sua carreira viu filmes a cair por terra, foi brevemente interrompida pela maternidade, passou muito pela televisão — o piloto da série The Killing, que lhe deu uma nomeação para os Emmy, Arrested Development, Entourage — e esteve na corrida para realizar Thor: O Mundo das Trevas (2013). A Warner começou a trabalhar em Mulher-Maravilha em 2005 e Joss Whedon (Os Vingadores da rival Marvel/Disney) e Michelle McLaren (Breaking Bad) foram considerados. Jenkins, fã da versão que Lynda Carter fora na TV nos anos 1970 e devota de Super-Homem (1978), lá convenceu o estúdio a fazer “uma história de origens muito directa, que fizesse justiça ao espírito positivo da Mulher-Maravilha, uma grande história de amor, um bom sentido de humor”, como resumiu recentemente ao New York Times. Tem uma receita simples. “Ter a quantidade certa de pop e seriedade juntas.”