Carlos Ghosn: “Não escapei à justiça, tive de fugir à injustiça!”

Antigo chefe da Renault acusa ex-colegas da Nissan de conspiração com justiça e governo japonês para o afastarem. Fugir “foi a decisão mais difícil” da vida dele.

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Ghosn fez uma longa exposição para tentar explicar a sua versão, reafirmando que é inocente REUTERS/Mohamed Azakir
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Carlos Ghosn, nesta quarta-feira, em Beirute REUTERS/Mohamed Azakir,REUTERS/Mohamed Azakir
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Carlos Ghosn, nesta quarta-feira, em Beirute EPA/NABIL MOUNZER

Um ano depois de ter comparecido pela primeira vez em público após ter sido detido, o antigo homem forte da Renault e da Nissan, Carlos Ghosn, voltou a surgir em público. Mas, desta vez, não estava num tribunal de Tóquio - antes fê-lo no Líbano, em Beirute, para onde fugiu a 29 de Dezembro de 2019.

Ghosn garante que a prisão dele foi “encenada”, envolvida em “acusações falsas” e resulta de uma “conspiração” entre ex-colegas da Nissan, procuradores de Tóquio e de membros do governo japonês.

Acusado por diversos crimes fiscais e desvio de verbas, o gestor que forjou a maior aliança automóvel do mundo, entre Renault e Nissan, e que era conhecido como o cost killer, viajou dois dias antes do fim de 2019 para o Líbano, segundo um plano de fuga que teve diversas ajudas.

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Grande expectativa rodeou esta conferência de Ghosn em Beirute REUTERS/Ali Hashisho

Nesta quarta-feira, depois de se dirigir à sala em inglês, francês e árabe libanês, Carlos Ghosn disse que não estava ali para explicar como fugiu de Tóquio, mas para revelar por que o fez. “Eu não escapei à justiça, eu tive de fugir da injustiça”, clamou o antigo executivo francês, que citou diversos nomes de gestores nipónicos da Nissan como sendo culpados do complô que conduziu à detenção dele, em Novembro de 2018.

Kawaguchi, Imazu, Toyoda, Saikawa foram quatro dos nomes da Nissan citados pelo gestor, que só parou quando chegou a altura de falar do governo. Escusou-se a citar nomes governamentais, com o argumento de que acusar governantes nipónicos a partir do Líbano poderia criar problemas ao executivo do país que o acolheu após a fuga. Ghosn tem nacionalidade brasileira, francesa e libanesa.

Ao longo de mais de uma hora, Ghosn afirmou-se vítima de uma tentativa de “assassinato de carácter”. Acusou o Japão de ter violado os “princípios básicos dos direitos humanos”, ao mantê-lo detido mais de 400 dias, sem direito a acusação, julgamento, sem contacto com a família, afastado do mundo.

Sustentou que há duas razões fundamentais para esta conspiração: os resultados em queda da Nissan, o que começou a acontecer no fim de 2017 e se agravou em 2018; e as suspeitas na Nissan sobre a “irreversibilidade da aliança” com a Renault. Ghosn diz que os japoneses não aceitavam que tivessem capital da Renault mas sem influência nos votos, ao contrário do governo francês, que detêm cerca de 15% do capital e mais influência.

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Foi uma longa apresentação de Ghosn, para se explicar, e depois uma longa sequência de perguntas da imprensa: não havia jornalistas japoneses na sala REUTERS/Mohamed Azakir

A teoria do complô não é nova, já em momentos anteriores foi propalada pela defesa de Ghosn e pela família. E os receios nipónicos sobre uma fusão Renault-Nissan, com perda de influência japonesa, também já tinham sido noticiados como factor de instabilidade entre Renault e Nissan.

“Havia nervosismo. E impaciência. Os resultados estavam em queda. Era preciso fazer mudanças e foi aqui que começaram os problemas”, sustenta Ghosn. O gestor fez questão de salientar que se tinha desligado da Nissan no fim de 2016, quando decidiu ir para a Mitsubishi, que entretanto se juntou à aliança franco-nipónica. Porém, garante Ghosn, “na Nissan entendiam que a única forma de afastar a influência da Renault era afastar-me a mim. E foi isso que fizeram”.

“Disseram-me [após a prisão] que era melhor confessar. Confesse, porque senão vamos atrás de si e da sua família”, diria o antigo líder da Renault, que acabou afastado de todos os cargos executivos que exercia. Antes visto como um elemento de equilíbrio numa aliança com 20 anos, Ghosn tornou-se persona non grata. “Durante 17 anos, fui um modelo no Japão. De um momento para o outro, os procuradores caracterizaram-me como frio, ditador, ganancioso.”

“Estou inocente. Saí do Japão porque quero justiça”, insistiu. O antigo patrão da Renault revelou também que se arrepende de não ter aceitado em 2009 o desafio de liderar a General Motors, para o qual fora convidado. E garantiu que é contra uma fusão entre a Renault e a Nissan. Pelo contrário, continua a defender uma “holding”, nos moldes de uma aliança, que se tornasse mais forte. 

Ghosn abordou a situação do grupo agora. E considerou “inacreditável” que a aliança tenha deixado escapar a proposta de fusão com a Fiat Chrysler. Uma ideia que já estava a ser negociada no tempo dele, mas que acabou por não se concretizar, porque a Renault demorou tempo de mais a dar o sim. E a Fiat Chrysler, que procurava casamento, acabou por se juntar ao concorrente francês PSA (Peugeot-Citroën). “É inacreditável! É inacreditável como se pode perder a oportunidade de ser o maior player de uma indústria”, exclamou Ghosn.