A agenda literária (também) foi política

A ressurreição de um autor triplamente minoritário (negro, homossexual e pobre), James Baldwin, foi apenas um sintoma de uma década tomada pela questão da identidade.

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A nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie tornou-se uma porta-estandarte do feminismo RUI GAUDÊNCIO

“Sou negro apenas enquanto vocês pensarem que são brancos.” A frase é do escritor e activista norte-americano James Baldwin. Disse-a há mais de 60 anos e a sua formulação é suficientemente elástica para nela caberem todos os enunciados de identidade que pressuponham qualquer espécie de segregação, ou seja, a imposição de uma identidade hegemónica face a outra, a imposição de uma subalternidade. Por exemplo: sou homossexual enquanto vocês pensarem que são heterossexuais, sou pobre enquanto vocês pensarem que são ricos, sou mulher enquanto vocês pensarem que são homens (e que isso vos confere superioridade).

A frase de Baldwin irrompeu em pleno movimento dos Direitos Civis Americanos, altura em que escreveu boa parte dos seus romances e ensaios centrados na questão da identidade. Negro, homossexual, pobre, ele falava enquanto testemunha; a sua perspectiva era a de quem sofria vários tipos de segregação, enquanto cidadão multiplamente minoritário. Foi em nome das minorias -- de todas as minorias – que construiu a sua obra. 

Em 1987, quando morreu, essa obra estava a cair no esquecimento. Décadas depois, ressurgia, desta vez com aura de literatura profética. Os livros de Baldwin, mais do que falar para o seu tempo, pareciam ajustar-se ao futuro que ele não chegou a viver.

Foi Ta-Nehisi Coates, jornalista da Atlantic, que começou a desenterrá-lo. Tomando James Baldwin como referência, citava-o na epígrafe de um livro que era uma espécie de carta ao seu filho adolescente, e no qual contava como era nascer, crescer e viver com um corpo negro na América. Entre Mim e o Mundo reformulava a frase de Baldwin, indagando “o que é ser negro?, uma pergunta que pressupõe outra, “o que é ser branco?”, e que logo desemboca noutra ainda mais radical: “o que é ser humano?”.

A América de Baldwin era afinal a mesma de Coates. E a mesma que, entre um e outro, Toni Morrison (Nobel da Literatura em 1993) tinha narrado em romances com Beloved: segregacionista. Mas não era só a América. E como tal os ecos desses escritores soaram universais, articulando-se com uma agenda política internacional mais disponíveis para as questões das identidades e das minorias. Migrantes, refugiados, negros, latinos, mulheres, homossexuais tiveram como nunca tinham tido acesso ao poder da escrita para articularem a sua própria experiência, exigindo e lutando pelo direito à sua própria perspectiva da história, pelo direito a ter uma voz para se contarem a si próprios em vez de dependerem da voz do outro, de quem tinha o tal poder da escrita, ou seja, de ser publicado, lido, traduzido.

Há precursores, mas podemos detectar alguns sinais. Em 2017, o dominicano-americano Junot Díaz publicava A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, romance sobre a experiência de viver numa comunidade de imigrantes latinos em Neova Jérsia. Sem o exotismo tradicionalmente associado ao tema, Díaz é o que Baldwin chamaria de testemunha; pertence a uma segunda geração de imigrantes que teve acesso a educação, e que, num mundo em que as fronteiras geográficas se diluíram e em que a Internet impôs uma certa democratização, ganha o poder de, pela primeira vez na História, narrar a sua própria história.

Também nomes como os dos nigerianos Chimamanda Ngozie Adichie ou Teju Cole ganharam uma voz universal. E mais... A mexicana Valeria Luiselli projectou-se com um romance sobre a imigração (Lost Children Archive). Em Portugal, Grada Kilomba narrou a história dos seus antepassados no best-seller mundial Memórias da Plantação; a americana de origem cubana Carmen Maria Machado escreveu um livro cortante sobre o que é ter um corpo de mulherO Corpo Dela e Outras Partes; Geovani Martins, brasileiro de uma favela do Rio de Janeiro, revela o outro lado do medo em O Sol na Cabeça. A americana Louise Erdrich, que em 2012 publicou A Casa Redonda, continua a escrever acerca da sua identidade dupla (é filha de uma índia da tribo Ojibwa, uma das maiores da América do Norte, e de um alemão). São exemplos, com resultados literários distintos, de autores que assumiram a sua própria narrativa. Com eles, as perspectivas sobre o mundo foram infinitamente mais cruzadas, numa década em que a agenda política e a agenda literária coincidiram no tema da identidade.