Um livro zangado com a América dá a Ta-Nehisi Coates o National Book Award

É um documento de denúncia escrito em forma de uma carta ao seu filho adolescente. Fala da experiência de ser negro na América e fez do seu autor um nome obrigatório em pleno debate sobre questões raciais. Chama-se Between the World And Me.

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Uma semana antes de acontecer, a conversa com Ta-Nehisi Coates numa livraria de Brooklyn tinha os lugares esgotados. Os funcionários pediam desculpa. Nada a fazer. No Verão, em Julho, o colaborador da Atlantic, onde escreve sobre cultura, política e sociedade, publicara Between the World And Me, um testemunho pessoal, escrito como uma carta ao seu filho adolescente, Samori, sobre a experiência de crescer e ser negro na América.

A sua escrita visceral e clara valeu-lhe comparações com James Baldwin, um autor envolvido na luta pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos na década de 60, e que foi talvez o primeiro escritor negro a conseguir fazer chegar aos brancos americanos toda a emoção de existir na diferença. Toni Morrison, Nobel da Literatura em 1993, afirmou que Coates veio preencher o vazio intelectual deixado após a morte de Baldwin, e Alberto Manguel, numa entrevista dada ao PÚBLICO em Outubro,  considerou-o uma das suas descobertas recentes mais estimulantes. O livro de Ta-Nehisi Coates venceu na quarta-feira à noite o National Book Award para não-ficção, um dos mais prestigiantes prémios literários na América.

Numa conversa com o escritor na revista New Yorker, o jornalista e escritor David Remnick referiu-se ao livro como sendo uma polémica com memória incluída, e Ta-Nehisi concordou. Falamos de um documento que chegou em pleno debate sobre as questões raciais nos Estados Unidos, meses depois de algumas das acções mais mediáticas do movimento I Can’t Breath, o grito que se ouviu nas ruas das principais cidades americanas após a morte de Eric Garner em Staten Island, em Julho de 2014, asfixiado por um polícia. Era mais uma morte a juntar a outras onde as vítimas eram negros e havia um sentimento de impunidade face a quem matava. Como a morte de Prince Jones, assassinado em 2000 por um polícia no norte da Virgínia. Jones era amigo de Ta-Nehisi Coates e Between the World And Me nasceu do sentimento de impotência e da raiva face a essa morte e foi alimentado pelas que se seguiram.

“Sempre que ligamos a televisão, vemos algum tipo de violência dirigida a negros. Uma e outra vez. E continua a acontecer”, disse na noite de quarta-feira, no discurso de entrega do prémio, depois de ter sido protagonista de muitas conversas, palestras, debates ao longo dos últimos meses. O nome de Ta-Nehisi Coates passou a ser obrigatório sempre que se fala de tensões raciais ou de direitos de negros ou de exclusão na América.

A atenção sobre ele levou, por exemplo, a que o vencedor do National Book Award para Ficção, quase sempre o protagonista deste prémio, ficasse em segundo plano na hora de se conhecer os vencedores. Na sua edição de quinta-feira, o New York Times escolhia uma foto de Ta-Nehisi Coates para ilustrar o artigo sobre o prémio, que titulava simplesmente “Ta-Nehisi Coates vence o National Book Award”. Só no terceiro parágrafo referia que Adam Johnson vencera em ficção com o volume de contos Fortune Smiles (Doubleday), e muito mais à frente acrescentava que Don DeLillo recebera a medalha de carreira.

Between The World And Me (Penguin) não é o primeiro livro de Ta-Nehisi Coates, que já explorara o mesmo tema em The Beautiful Struggle (2009), um volume de memórias que parte da relação com o seu pai, William Paul Coates, um editor de títulos ligados à comunidade negra, casado quatro vezes e pai de sete filhos, que viviam com as suas mães e só esporadicamente encontravam o pai. Ta-Nehisi é filho do segundo casamento. Nasceu em 1975 em Baltimore, cresceu politicamente influenciado por Malcom X e é um admirador confesso de James Baldwin.

Neste livro zangado com uma América que não acolhe todos da mesma forma, confessa de forma muito íntima o medo de um pai em relação ao futuro do seu filho. “Escrevo-te no teu 15º aniversário”, começa por explicar, “escrevo-te porque este foi o ano em que viste Eric Garner ser sufocado até à morte por vender cigarros na rua…”