Editorial

Mário Centeno contra o resto do Governo

Polícias, médicos, militares, sindicatos, professores e todos os demais interesses corporativos espreitam o evoluir deste conflito para perceber até que ponto a intransigência de Centeno é inamovível e a blindagem do Governo às pressões externas impenetrável.

O poderoso ministro das Finanças, Mário Centeno, não está disposto a dar ao menos poderoso ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, os 80 milhões de euros que este julga serem indispensáveis para acudir às necessidades das forças de segurança. O ministro da Ciência e do Ensino Superior, Manuel Heitor, quer ser mais generoso na concessão de bolsas a estudantes universitários, mas condiciona as suas ambições à disponibilidade de fundos da União Europeia.

As eleições do ano em curso foram pagas por fundos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, porque no orçamento do MAI não havia dinheiro para esse fim. Junte-se a este rol de problemas retratados na edição desta quinta-feira do PÚBLICO os que permanecem há meses em aberto: carências graves nos tribunais, atrasos nos pagamentos na Saúde, falta de consumíveis básicos nas escolas, salários desactualizados na função pública, problemas graves e de infra-estruturas e constatemos a realidade: esta legislatura vai ser difícil e muito provavelmente tumultuosa.

O Presidente da República fez o aviso no exacto dia em que deu posse ao novo Governo de António Costa. “Não terá uma tarefa fácil”, disse Marcelo Rebelo de Sousa. E explicou porquê: porque “não há recursos para tantas e tamanhas expectativas e exigências” dos portugueses. Sem meios capazes de acudir a todas as necessidades, a todos os problemas acumulados ao longo de anos, e, principalmente, às exigências dos cidadãos que todos os dias recebem notícias sobre o suposto bom estado das contas públicas, o Governo, recordava ainda o Presidente, vai ter de encontrar a sua legitimidade “na escolha, na hierarquização, na concentração e na clareza das respostas que entender ser possível dar”. Porque não vai ser possível responder a tudo e a todos.

Governar é fazer escolhas e a chave dos próximos orçamentos vai estar precisamente nas escolhas. Mário Centeno fará o seu dever e tentará a todo o custo manter as contas públicas sãs e a credibilidade externa do país intacta. Mas, já se percebeu, não vai impor as suas regras da forma imperial como o fez até agora. Os outros ministros dificilmente aceitarão ser bombos da festa, para que ele continue a ser o “Ronaldo” das Finanças.

Para manter o Governo coeso, António Costa vai ter de arbitrar muitos mais conflitos e, em última instância, de assumir a palavra final. Polícias, médicos, militares, sindicatos, professores e todos os demais interesses corporativos espreitam o evoluir deste conflito para perceber até que ponto a intransigência de Centeno é inamovível e a blindagem do Governo às pressões externas impenetrável. O que acontecer até à Primavera será crucial para saber o que espera o país no médio prazo.