Opinião

Geopolítica do gás – tensão no Mediterrâneo Oriental

São vários os interesses geopolíticos que se cruzam no Mediterrâneo Oriental – a descoberta de reservas de gás natural adicionou mais uma camada de complexidade a esta competição.

Há uma tensão regional que tendemos em não considerar muito. E a médio/longo prazo pode afectar-nos. É o Mediterrâneo Oriental, uma zona crítica para o comércio e transporte mundial. Para além da óbvia instabilidade político-militar e dos fluxos migratórios, devemos olhar, sobretudo, para a segurança energética. Há uma forte possibilidade de surgirem conflitos pelo controlo do gás natural nesta região. E aqui a Turquia e o Chipre voltam a ocupar o palco no debate geopolítico. Mas, antes de explicar o porquê, convido o leitor a ter em conta quatro questões.

A primeira: o Chipre descobriu reservas de gás natural, em 2011 e 2018. A segunda: ao mesmo tempo, as negociações de paz cipriotas, lideradas pela ONU, entraram em colapso, pondo em causa a possível reunificação da ilha. A terceira: as duas primeiras questões deverão ser enquadradas pela evolução política da Turquia, que tem desencadeado um papel cada vez mais assertivo de controlo regional. A quarta: a perspectiva de grandes descobertas de hidrocarbonetos também atraiu o interesse dos EUA, cujas relações com a Turquia (um país NATO) se encontram deterioradas, pela compra de armamento russo e pela ofensiva militar turca contra os curdos.

Contexto

a) As reservas de gás no Mediterrâneo Oriental foram descobertas muito recentemente. Estão pouco exploradas e a sua real dimensão ainda está por avaliar: seja nos campos Tamar e Leviatã, descobertos em 2009 e 2010, na costa de Israel (com capacidade entre os 282 e 621 mil milhões de metros cúbicos de gás natural, respectivamente); no campo Afrodite, descoberto em 2011, na costa de Chipre (com capacidade para 128 mil milhões de metros cúbicos de gás natural); ou no campo de Zohr, descoberto 2015 no Egipto (o maior da região, com capacidade para 845 mil milhões de metros cúbicos de gás natural).

Estas descobertas despertaram o interesse de países europeus e dos EUA – procuram alternativas de fornecimento de gás natural fora da Rússia. Como tal, deram início a negociações (predominantemente bilaterais) entre os vários países da região. Por exemplo, o acordo de 12 mil milhões de euros para o Egipto poder comprar gás dos campos de Israel de Tamar e Leviatã; ou o memorando de entendimento entre o Chipre, a Grécia e Israel para construir um gasoduto para a Europa.

b) Mas a questão complicou-se no ano passado. A italiana ENI e a francesa Total anunciaram uma descoberta de gás no Bloco Calypso, na costa cipriota. Em termos de dimensão, esta jazida parece ser comparável ao campo de Zohr. Poucos dias depois, um navio de perfuração italiano foi bloqueado por navios da marinha de guerra turca quando ia para a área de perfuração no Bloco 3 da Zona Económica Exclusiva de Chipre. Este incidente deu origem a uma troca de acusações mútuas, fazendo ressurgir tensões.

Para cúmulo, em Maio, a Turquia afirmou que os seus navios continuariam a explorar petróleo e gás onde Chipre tem parte da Zona Económica Exclusiva. Tudo isto depois de os EUA e da UE terem criticado Ancara por enviar um navio de perfuração para uma zona que o Chipre e o Chipre do Norte disputam. Lembro que desde meados da década de 1970 a ilha está dividida entre Chipre (de língua grega, no Sul, que é membro da UE) e Chipre do Norte (de língua turca, que é reconhecido apenas pela Turquia). Este episódio levou a que Nicósia emitisse mandados de captura internacionais para a tripulação do navio turco. E, no início de Outubro, por alturas da ofensiva turca no Nordeste da Síria, Ancara iniciou novas actividades de perfuração de gás natural em águas cipriotas, levando a que a UE estabelecesse sanções.

Análise

a) A curto/médio prazo. A intervenção militar da Turquia em águas cipriotas trouxe receio de tensões. Erdogan, o Presidente turco, já alertou a Grécia, o Chipre e as empresas estrangeiras que, se continuarem a perfuração de gás na costa de Chipre, estariam a violar a soberania da Turquia. E anunciou que as forças armadas turcas acompanham de perto os desenvolvimentos na região com a autoridade para fazer qualquer tipo de intervenção, caso seja necessário.

Mas o que suscita as preocupações dos vizinhos é a conexão entre a posição oficial da Turquia contra a perfuração offshore de Chipre (apoiada por presença militar) e a retórica agressiva de Erdogan, que ainda parece assumir este país como um território turco.

Devemos também ter em atenção que Washington apoia os planos de Chipre em unir forças com Israel e Egipto para explorar gás natural na região e desenvolver infra-estruturas para o fornecer à Europa. Os EUA têm óbvios interesses económicos e geopolíticos na região: algumas das suas empresas, como a ExxonMobil, estão a explorar a costa cipriota; e pretendem que a Europa reduza a sua dependência do gás natural russo. De sublinhar ainda que estas divergências coincidem com o agravamento das relações entre Washington e Ancara – uma situação da qual Nicósia e Atenas pretendem tirar benefícios, tanto financeiros como militares.

b) A longo prazo. Para Chipre, estes eventos sugerem que as negociações de reunificação – que têm sido intermitentes – dificilmente progredirão. Logo, os esforços de Chipre para explorar energia nas águas disputadas continuarão a enfrentar perturbações da Turquia, como foi o caso do navio da ENI. Para a UE, este impasse acrescenta mais um ponto à já deteriorada relação com a Turquia.

Estas tensões vêm densificar disputas territoriais já existentes entre os países da bacia do Levante – para além da guerra na Síria; do conflito latente entre o Líbano e Israel, que também disputam ZEE; da tensão entre Israel e Turquia, que disputam influência em Gaza; e do Egipto, Chipre, Grécia e Israel, que forjaram uma espécie de bloco contra a Turquia. Agora, cada Estado do litoral pode usar o seu potencial acesso a gás natural como uma ferramenta de alavancagem política contra os seus vizinhos. E são vários os interesses geopolíticos que se cruzam no Mediterrâneo Oriental – a descoberta de reservas de gás natural adicionou mais uma camada de complexidade a esta competição.

Se puxarmos o Egipto para o jogo, tudo se pode dividir em dois blocos. O Cairo vê os bloqueios, as acções hegemónicas e o apoio a movimentos islamistas por parte de Ancara como uma ameaça às suas ambições regionais. E isto significa que o grande jogo pelo gás no Mediterrâneo Oriental será travado entre uma improvável aliança entre cipriotas, egípcios, gregos e israelitas (com o beneplácito dos EUA e da UE) contra a Turquia e aliados (talvez com o beneplácito russo, que perde com outro gasoduto europeu não controlado pela Gazprom).