Europa trabalha para ser menos dependente do gás russo e da Ucrânia

A entrada em funcionamento do gasoduto Norstream, de novos terminais e o acréscimo de compras de gás natural liquefeito que chega por mar atenuaram a dependência da Europa em relação à passagem pela Ucrânia, desde a crise de 2009. Mas não resolveram as incertezas. Para essas, as soluções são de longo prazo.

Foto
No horizonte, a capacidade de a EU reduzir mais a sua dependência em relação à Rússia não é tarefa fácil VIKTOR DRACHEV/AFP

Depois do susto de 2009, a União Europeia tem trabalhado para reduzir a sua vulnerabilidade a uma nova crise do gás russo com a Ucrânia pelo meio. O resultado, segundo os especialistas, começa a ver-se, o Inverno suave ajudou, mas ainda está longe de ter a solução.

A Rússia fornece actualmente um terço do gás natural que a Europa necessita e mais de metade deste é transportado através da Ucrânia. Há cinco anos, quando o abastecimento foi interrompido por duas semanas, passava pela Ucrânia não metade mas 80% do gás russo destinado à UE, lembram investigadores do Instituto para os Estudos de Energia da Universidade de Oxford (OIES).

Hoje, a UE depende menos da Ucrânia e do próprio gás russo. Reduziu a sua dependência em relação ao país de passagem com a conclusão em 2012 do Nord Stream, o grande gasoduto promovido pela Rússia e Alemanha e que ao Norte da Europa, através do mar Báltico, sem passar pela Ucrânia. A Rússia investiu também em novos terminais no mar Báltico e no mar Negro. No último ano, a Alemanha reduziu, por exemplo, para quase metade o gás russo que recebeu via Ucrânia, tendo passado de 21 mil milhões de metros cúbicos para 11,71 mil milhões de metros cúbicos.

A UE diversificou também as suas fontes para responder ao crescimento do consumo. Compra hoje mais gás natural à Noruega e mais gás liquefeito (GNL), que lhe chega por mar, à Nigéria, Qatar e Líbia. Há pouco mais de dez anos, em 2003, a Rússia era a origem de 45,1% das importações de gás da UE contra 31,9% hoje, de acordo com o Eurostat. Mas se em termos percentuais, o peso da Rússia tem baixado, no total de gás comprado a Moscovo, o volume tem-se mantido relativamente estável na última década.

Entre a Rússia e a Europa também há um grande e histórico comércio de petróleo. Os europeus até compram mais petróleo à Rússia do que gás. Em 2013, foi a origem de 36% das importações de crude dos países europeus da OCDE, mas o traçado do seu transporte não depende tanto da Ucrânia e, para além disso, é uma matéria-prima mais fácil de adquirir no mercado global e de transportar. O oleoduto Druzhba, que atravessa a Ucrânia, transportou, em 2013, apenas 8% das exportações de petróleo da Rússia para a Europa. A Internacional de Energia (AIE) não parece alarmada em relação ao petróleo, considerando que “a Rússia e o Ocidente estão estreitamente ligados por uma relação de produtor-consumidor que permanece muito importante para as duas partes”.

Do ponto de vista de Moscovo, a venda de gás e petróleo à Europa garante-lhe mais de metade das receitas do orçamento federal e mais de 70% das suas exportações. E cerca de 40% das receitas do gigante estatal russo Gazprom vêm do gás vendido aos europeus. Quanto a Kiev, depende fortemente do gás russo, comprando-lhe mais de metade do que o país consome.

Neste xadrez de comércio de matérias-primas estratégicas, os cenários “são distintos”, afirma Andreas Goldthau, investigador no Centro Belfer de Ciência e Assuntos Internacionais da Universidade de Harvard e ligado ao Projecto Geopolítica da Energia. “O petróleo é uma matéria-prima (commodity) global. Pode vir de qualquer lugar e por qualquer meio. Até de bicicleta. Já o gás natural precisa de infra-estruturas. Há uns anos houve um corte no oleoduto Yamal. O que aconteceu? Nada. Os países têm sempre alternativas”, sublinha, ao PÚBLICO.

Acredita é que perante uma nova crise do gás russo, e tal como em 2009, os países europeus serão diferentemente afectados. “Países como a Eslováquia e a Bulgária dependem 100% da Rússia. Vão ser muito afectados. Será um problema para alguns, para o resto, será gerível”.

Se o corte de 2009 se repetir, os autores do último estudo do OIES dedicado à crise da Ucrânia e ao impacto no mercado do gás,  Simon Pirani, James Henderson, Anouk Honoré, Howard Rogers e Katja Yafimava, antevêem que os países mais afectados serão a Europa de Leste, em particular a Bulgária, Roménia, os países da antiga Jugoslávia, Hungria, Eslováquia e República Checa. Mas de todos os países, o mais afectado seria a Ucrânia no caso de uma suspensão. “A procura de fontes alternativas não resolve os problemas financeiros da [companhia ucraniana de gás] Naftogaz e de capacidade de pagamento”, dizem.

E acontecer uma nova interrupção, isso será também um “dano de reputação” para a Gazprom, essencialmente “em termos de imagem, de confiança”, diz  Andrej Tibold, analista ligado ao centro Eurasia Energy Observer, ao PÚBLICO.

Com a iminência de sanções políticas à Rússia por causa da invasão da Crimeia, Tibold sublinha que “estas ainda não abrangem a energia”. E parece ser vontade dos europeus deixá-la de fora, sobretudo o gás, para o qual “não tem mais alternativas” no curto prazo. A Alemanha garantia, no final da semana passada, que não quer reduzir as importações nem interromper os contratos. Tibold acredita que “os custos económicos [de um corte de fornecimento] são tão pesados que ninguém quer ir por aí”, apesar de “este ser um dos piores momentos de tensão política desde o fim da Guerra Fria”.

O que antevê é o risco de regresso a um passado, “em que a cooperação política será reduzida para os níveis mínimos, mas o petróleo e o gás continuarão a ser expedidos para a Europa – tal como acontecia na Guerra Fria”.

Não são apenas as necessidades de consumo de gás natural da Europa que estão em jogo, neste momento. As maiores empresas europeias do sector energético têm fortes investimentos na Rússia, a começar pela BP. Também lá estão as grandes companhias da Alemanha, Holanda e França e a gestão das infra-estruturas de gás que permitem o seu trânsito até à Europa envolve consórcios com empresas sobretudo alemãs.

É por isso que a equipa de investigadores do OIES admite que “a fonte mais provável de interrupção de abastecimento de gás à Europa” não está na Europa nem na Rússia, mas no “sério endividamento da companhia de Naftogaz de quase dois mil milhões de dólares à Gazprom” e a sua incapacidade de liquidar a dívida.

No horizonte, a capacidade de a EU reduzir mais a sua dependência em relação à Rússia não é tarefa fácil. No sector energético, não se encontram alternativas de curto prazo, a não ser o recurso às reservas estratégicas que os países são obrigados a constituir, pelo que uma parte importante das necessidades europeias (entre 20% e 30%) vão continuar a ser satisfeitas pela Rússia, segundo os especialistas. Por outro lado, a que é vista como a solução possível de curto/médio prazo de “urgência” – importação de gás natural liquefeito que chega por mar – tem cada vez mais procura e preços cada vez mais altos por causa da Ásia, sobretudo do Japão, e porque o gás de xisto dos EUA só está previsto chegar ao mercado internacional a partir de 2016.

Tornar a Europa mais resistente a este tipo de incertezas, diz Andreas Goldthau, “só virá com soluções de longo prazo, através de uma diversificação do mix energético e no qual a Europa tem trabalhado: “mais importação de GNL, mais renováveis, mas também mais eficiência”.

No final, “é provável que a parte do gás russo na Europa aumente de novo ao longo dos próximos anos, agrade-nos ou não”, prevê Tim Boersna, investigador de energia no Instituto Brookings, citado pela France Presse. O segundo maior produtor mundial de gás natural tem também as maiores reservas provadas do mundo, à frente das do Irão.