Hélia Correia sugere movimento “antimedo” para receber Chico Buarque em Lisboa

“Apelo a todas as pessoas que têm redes sociais que difundam a ideia”, disse a escritora no Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos. Bolsonaro ameaça não assinar o diploma do Prémio Camões concedido ao compositor e escritor brasileiro.

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Chico Buarque durante o julgamento de Lula da Silva UESLEI MARCELINO/Reuters

A escritora Hélia Correia apelou no sábado, no Festival Literário Internacional de Óbidos, à formação de um grande movimento “antimedo” para receber Chico Buarque quando o escritor e músico brasileiro chegar a Lisboa, onde lhe será entregue o Prémio Camões.

“Apelo a todas as pessoas que têm redes sociais que difundam a ideia de criar um movimento grande, intenso, de uma grande multidão para ir esperar Chico Buarque ao aeroporto, quando vier a Lisboa receber o prémio Camões”, disse Hélia Correia.

O apelo, feito perante quase 200 pessoas que no sábado ouviram a escritora no Folio –​ Festival Literário Internacional de Óbidos, foi assumido como “uma resposta ‘antimedo'” à intenção manifestada pelo Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de não assinar o diploma do Prémio Camões concedido a Chico Buarque.

Na sessão em que debateu com a jornalista Ana Sousa Dias “O medo das palavras: o politicamente correcto”, a escritora considerou “assustador” o que “se anda a passar ao nível de governos [como o do Brasil]” sobretudo quando “são governos eleitos”. “Alguma coisa de muito perverso está a acontecer e não é só com os governantes, é também com as pessoas que os elegem”, afirmou.

Sem medo das palavras, Hélia Correia disse ainda que o seu mais recente receio “é que a língua portuguesa acabe”, devido à “subserviência escandalosa em relação à introdução de termos em língua inglesa”. “Estamos a deixar-nos colonizar por outra língua, por comodismo”, disse, acrescentando ter tomado como causa a luta contra “esta colonização consentida” e deixando mais um apelo a que as pessoas “falem mais português”.

A conversa com Hélia Correia fechou no sábado as mesas do Folio, depois de durante a tarde ter decorrido, na Tenda dos Editores, uma sessão sobre Chico Buarque, com Geovani Martins e Paulo Werneck, editor do compositor e escritor vencedor do Prémio Camões de 2019.

Chico Buarque voltará a estar em destaque no Folio este domingo, com a projecção do filme Chico: um artista brasileiro, cuja exibição foi recentemente proibida num festival de cinema no Uruguai, após a embaixada brasileira ter dito que o filme não deveria representar o Brasil. O filme, que integra a programação da edição em curso do Festival Doclisboa, será exibido às 11h, no auditório municipal da Casa da Música, em Óbidos.

O Folio encerra este domingo depois de cumpridas mais de 210 iniciativas em 450 horas de programação em torno da literatura.

Sob o tema “O Tempo e o Medo”, mais de meio milhar de convidados de quatro continentes participaram em 16 mesas de escritores, 12 exposições e 13 concertos. 

Notícia corrigida às 15h19: o filme Chico: um artista brasileiro não teve estreia portuguesa no Folio, fazendo parte da programação do Doclisboa 2019