Editorial

Um velho governo não faz um governo novo

Repetido, naturalmente desgastado e ainda mais fechado sobre o PS, este Governo perdeu à partida a oportunidade de criar sobressalto ou expectativa.

O primeiro-ministro aproveitou as eleições, a indigitação e o advento de uma nova legislatura para promover uma pequena remodelação do Governo. Quem esperava um novo ciclo político com caras novas e, eventualmente, novas ideias, desengane-se. António Costa acredita que o país que ficou contente com a experiência da “geringonça” ficou ainda mais contente com os que o governaram durante os últimos quatro anos.

Sem embarcar em modas nem em tradições, tratou de “reforçar politicamente o Governo” e, seguindo Jorge Coelho, que desconfiava dos independentes por serem “muito imprevisíveis”, tratou de o transformar ainda mais num reduto do secretariado do PS. Para começo, está longe de ser auspicioso.

Ninguém discutiria a continuidade de ministros como Pedro Siza Vieira, porque desde que chegou à Economia foi capaz de dar um novo impulso ao ministério. Nem de Augusto Santos Silva, o ideólogo e estratego dos governos socialistas desde a segunda metade da primeira década do século. Nem de Pedro Nuno Santos, que em poucos meses pacificou a CP e tirou as infra-estruturas do pântano. Ou de João Pedro Matos Fernandes, um dos melhores ministros do anterior Governo. Ou de Mário Centeno, claro. Ou dos ministros da área da Educação, entre alguns outros e outras.

Mas será que não havia caras novas para refrescar pastas sujeitas a forte desgaste como a Administração Interna ou a Saúde? Ou pastas clandestinas como a do Planeamento? Entre o prazer do risco e o conforto do conhecido, António Costa preferiu o sofá.

Pode não vir daqui mal nenhum ao mundo. A “experiência política” de que Costa fala e a militância partidária são boas receitas para governos coesos. A criação de uma guarda avançada com quatro ministros de Estado (Santos Silva, Siza Vieira, Mariana Vieira da Silva e, obviamente, Centeno) reforça a tracção do Governo em áreas críticas ou no domínio da coordenação.

Mas um novo governo devia ser um governo novo – porque a eleição é sempre um momento em que se abre um capítulo novo na vida de um país. É uma oportunidade para que mais gente com o perfil do novo ministro do Mar apareça.

Repetido, naturalmente desgastado e ainda mais fechado sobre o PS, este Governo perdeu à partida a oportunidade de criar sobressalto ou expectativa. Tem o benefício da dúvida e direito a estado de graça. Em breve veremos se o conservadorismo que norteou a sua formação é apenas táctico, ou se é prova de uma secreta predisposição para navegar à vista e ficar feliz com a gestão corrente.