Agricultura, lixo e distribuição preparados para arranque da greve dos motoristas

Greve começa com sectores preparados. Mas há quem tema o pior ao fim de três dias. Quinta-feira é dia D, diz o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal. Distribuição reforçou stocks mas não notou “anormal afluência aos hiperes e supermercados”.

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Fernando Veludo/NFACTOS

Se a greve dos motoristas continuar, o dia D para os agricultores é na quinta-feira, feriado. Pelo menos assim o prevê Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, que estima em três dias o período máximo durante o qual os efeitos da greve não afectarão o sector. E isto apenas se se cumprirem os serviços mínimos decretados pelo Governo. “Ao fim de três dias os problemas começam a multiplicar-se”, calcula. Esta área já tem feito um esforço elevado, que se traduz em “deslocações suplementares, tempos de espera, ansiedade, e alguma perda de qualidade dos produtos”, afirma.

A agricultura será uma das áreas onde haverá maior impacto à medida que a greve for avançando. “O sector agrícola não tem a capacidade [de se abastecer] porque a natureza funciona independentemente de haver ou não greve. Isto pode transportar o sector agrícola para uma situação muito complicada”, comenta.

O que se passa com a produção de tomate serve a Eduardo Oliveira e Sousa de exemplo: neste momento estamos em plena época de colheita. Há três elos na cadeia que necessitam de combustível: as máquinas agrícolas que estão a colher o tomate, o transporte em camiões e o funcionamento das fábricas. “Estamos a falar de combustíveis diferentes para a cadeia de um mesmo produto. Se um deles falha põe em risco os outros. E ao colocar em risco todo o sector fica ameaçado.” 

Para o presidente da CAP esta greve “reveste-se de uma gravidade fora do comum”. “Se os serviços mínimos não funcionarem não restará ao Governo senão a requisição civil. Porque a cadeia de abastecimento da colheita entra em ruptura e isso provoca imediatamente uma perturbação social de contornos que não conseguimos prever”, argumenta. Para si, o desejável é que a greve seja desconvocada.

“A reposição de stocks está a ser feita normalmente”

Na área da distribuição uma das estratégias foi antecipar. Neste momento, a Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) não tem indicação da parte dos seus associados, de uma anormal afluência aos hiperes e supermercados. Mas estes têm-se vindo a preparar nas últimas semanas com acções de logística, incluindo reforço de stocks em todo o país, que possibilitem dar resposta aos pedidos da população. “Neste momento a reposição de stocks está a ser feita normalmente”, diz o director-geral, Gonçalo Lobo Xavier. Embora não esteja envolvida nas negociações, a APED “tem apelado ao bom senso das partes”.

A APED considera também que o cumprimento dos serviços mínimos, “de forma ordeira, segura e tranquila para todos, em sintonia com as acções que foram preparadas pelos associados, será fundamental para minimizar os possíveis impactos”. Estima que assim se irão evitar “perturbações no fornecimento atempado de produtos e bens essenciais em todo o país”.

Já a presidente da Associação Portuguesa dos Operadores de Gestão de Resíduos e Recicladores, Quitéria Antão, disse na quinta-feira ao PÚBLICO que está preparada para uma greve de cerca de uma semana. Depara-se com questões diferentes do sector agrícola. A maior parte dos associados tem postos de abastecimento próprios e por isso precaveram-se reabastecendo-os “o máximo possível” e mantendo as reservas “cheias”.

Embora a presidente da APOGRR olhe para a greve como “muito preocupante” porque a actividade de motorista “é fundamental” para o transporte de matérias perigosas — “é preciso ter conhecimentos técnicos”, lembra — nesta altura do ano grande parte das empresas não trabalha a 100%, por isso, “se a greve for curta”, conseguirão dar resposta. “Mas se se prolongar vamos ter problemas. Os custos vão ser elevados. Só o facto de as empresas terem que investir agora em reservas, numa altura em que têm de pagar subsídios de férias” já teve “um custo elevado”, diz. 

A greve dos motoristas acontece porque querem que o seu salário base seja de 900 euros já em Janeiro (depois da reivindicação inicial de 900 euros em 2022), exigem o fim de uma cláusula que é uma espécie de isenção de horário de trabalho e remunera duas horas extraordinárias por dia, independentemente do número de horas que trabalhem e exigem que lhes sejam pagas as horas extraordinárias. Os sindicatos não chegaram a acordo com a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram).