Motoristas avançam com a greve: “Nem um passo atrás!”

O plenário dos motoristas reunidos este sábado decidiu, por unanimidade, manter a greve marcada para segunda-feira. Antram defende que o Governo recorra à requisição civil e sindicatos acusam o executivo de “ditar as leis da greve”.

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Francisco São Bento e Pardal Henriques (em segundo plano, à esquerda) Nuno Ferreira Santos
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Francisco São Bento e Pardal Henriques (em segundo plano) Nuno Ferreira Santos
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Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias Nuno Ferreira Santos
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Os sindicatos dos motoristas aprovaram neste sábado manter a greve marcada para segunda-feira, num plenário realizado em Aveiras de Cima que juntou representantes e associados do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e do Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM). A decisão de prosseguir com a greve foi aprovada por unanimidade, com os associados de ambos os sindicatos a gritarem “nem um passo atrás” no protesto.

“A greve é para avançar, por tempo indeterminado”, afirmou aos jornalistas o presidente do SIMM, Jorge Cordeiro, após o encontro conjunto das duas estruturas sindicais.

Com a confirmação da greve por parte dos sindicatos, o Governo voltou a afirmar que irá usar todos os mecanismos ao seu dispor para “garantir a liberdade” dos cidadãos. Em conversa com os jornalistas, no final de uma reunião na Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) depois de ter sido emitido o estado de alerta para esta entidade, o ministro da Administração Interna pediu aos portugueses que façam “uma gestão criteriosa das suas necessidades de utilização de combustível” e que façam apenas as “deslocações absolutamente indispensáveis”.

Apesar da greve, Eduardo Cabrita garantiu ainda que serão encontradas soluções “com a máxima brevidade” para garantir o cumprimento dos serviços essenciais.

Depois de terminada a reunião em Aveiras de Cima, o porta-voz e advogado da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), André Matias de Almeida, afirmou que o que saía do plenário era uma “grande vitória para os representantes dos sindicatos” e uma “grande derrota para todos os trabalhadores”.

“Vemos com muita apreensão que estes sindicatos insistam em dizer que a Antram tem uma resposta para dar quando não apresentaram nenhum documento (...) e quando a Antram está desde a primeira hora para negociar o que foi assinado. Continuam a sustentar a ideia de 900 euros de aumento que representam 2200 euros de salário a partir de 2022 quando não há um único documento assinado”, referiu.

O porta-voz acusou ainda as entidades sindicais de incitarem os trabalhadores a fazer greve “sem nunca lhes mostrar o que assinaram com a Antram” e afirmou que o Governo deve recorrer a uma requisição civil para prevenir ao máximo os efeitos da greve que está anunciada para a próxima segunda-feira. “A conversa de matrículas, de escalas, o não cumprimento daquilo que foi decretado pelo Governo é a prova daquilo que diz o parecer da PGR [Procuradoria-Geral da República], que o Governo deve acautelar os portugueses. Esta greve não é uma greve às empresas, é uma greve ao país e aos portugueses”, referiu André Matias de Almeida.

Questionado pelos jornalistas sobre o que é que a Antram ainda pode fazer para diminuir os efeitos da greve ou mesmo para evitá-la, o porta-voz respondeu que as entidades patronais tentaram desde o primeiro minuto negociar e que “apelou muitas vezes [aos sindicatos] que voltassem atrás na decisão”. “Não há nada mais que estes empregadores possam fazer porque vão para o terceiro ano em decréscimo de resultados, não é possível dar mais a estes trabalhadores”, afirmou.

À saída do plenário, também Pedro Pardal Henriques, vice-presidente do Sindicato Nacional de Mercadorias de Matérias Perigosas (SNMMP), falou aos jornalistas dizendo que “os trabalhadores têm todo o direito em não aceitar um acordo em que trabalham 14, 15, 16 horas por dia por um salário de 630€”.

Questionado sobre o número anormalmente baixo de trabalhadores nesta altura e sobre a possibilidade dos serviços mínimos decretados não serem cumpridos, Pardal Henriques disse que desde o início garantiu que estes serviços iam ser realizados, mas acusou as entidades patronais de não deixarem que os trabalhadores realizem as escalas normais. 

“A lei diz que as associações patronais devem enviar para os sindicatos com 48 horas de antecedência as escalas normais de um dia normal de trabalho e os sindicatos têm 24h para dizer quem vai cumprir os serviços mínimos. As 48h [antes do início da greve] já passaram e a Antram não enviou nada (...) e nós não temos capacidade para saber quantos carros saem para fazer os serviços da BP ou os serviços dos aeroportos”, explicou o sindicalista.

Pardal Henriques acusou o Governo de “ditar as leis da greve” e afirmou ainda que não acredita que o país se encontre em suspenso até ao fim da anunciada greve porque foram decretados serviços mínimos que são um “atentado ao direito à greve”. “Acho que o país olha para esta greve e para os motoristas como injustiçados pelo governo e as empresas”, referiu.

“Nem um passo atrás!”

Esta tarde, à entrada de um plenário muito concorrido, num auditório alugado à junta de freguesia de Aveiras de Cima, Francisco São Bento, o presidente do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), disse que tinham chegado às quatro da tarde e a Antram ainda não tinha feito qualquer proposta que levasse os motoristas a desconvocar a greve marcada para segunda-feira. Mas continua a dizer que até às 23h59 de domingo, ainda é possível desconvocar a greve.

“Vamos dar a palavra aos associados, mas depois de vermos os serviço mínimos que foram decretados, percebemos que já não é um ataque aos motoristas, é um ataque ao direito laboral”, disse o presidente do sindicato, deixando para o final da reunião mais declarações.

Francisco São Bento lembrou as exigências que o sindicato está a fazer – e que deixou feitas pessoalmente, ao porta-voz da Antram, num debate que decorreu ontem na SIC Notícias. “Os motoristas querem um salário base de 900 euros, já em Janeiro, não querem a clausula 61, e querem receber as horas extraordinárias. Os patrões sabem o que querem os motoristas”, insistiu.

Mas, recorda, em vez de terem respostas, continuam a ter “provocações”, como as escalas de serviço que alguns motoristas já começaram a escrever. “Então não tem de ser os sindicatos a indicar quem vai fazer os serviços mínimos? E os patrões já estão a mandar as escalas aos trabalhadores?”, acusou.

O presidente do SNMMP não quis fazer mais declarações e disse que as decisões finais seriam anunciadas após o plenário. A reunião recebeu não só motoristas afectos ao SNMMP, mas também do Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM). 

Os dirigentes do SIMM chegaram pouco antes das 16h00, hora a que arrancou o plenário. De manhã estiveram em Leiria, onde os motoristas de mercadorias votaram por unanimidade o avanço da greve, e ainda tem outro plenário convocado para este sábado, em Olhão.

Estes plenários também servem para perceber que motoristas farão greve, e quem será escalado para executar os serviços mínimos. Na sala só estão autorizados a entrar detentores de cartas de pesados – mas a verdade é que também há esposas de motoristas na sala. De cá de fora, o primeiro ruído que se ouviu foi um sonoro “apoiado” seguido de uma salva de palmas.

Tanto Anacleto Rodrigues, do SIMM, como Francisco São Bento, do SNMMP, asseguraram que os motoristas tencionam cumprir os serviços mínimos como lhes é exigido por lei. À saída do plenário de Leiria, Anacleto Rodrigues disse mesmo ter alertados os associados para estarem atentos à possibilidade de existirem “infiltrados” a tentar perturbar os piquetes de greve. “Nós queremos que tudo corra bem”, assegurou.