Greve dos motoristas resultará em “consequências irreparáveis” para o país, alerta a UGT

Central sindical defende que o Governo deve intervir no conflito, para que se possa chegar a um entendimento definitivo.

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Carlos Silva, secretário-geral da UGT LUSA/MÁRIO CRUZ

O secretário-geral da UGT considerou esta quinta-feira que a greve dos motoristas, marcada para dia 12, resultará em “consequências irreparáveis” para o país e apelou ao Governo para intervir com vista a um acordo entre sindicatos e patrões.

“Há uma coisa de que eu tenho a certeza e o país também tem a certeza: desta guerra haverá consequências irreparáveis para a economia portuguesa, mas sobretudo para os portugueses”, disse Carlos Silva aos jornalistas no final de uma audiência na Presidência da República, em Belém, Lisboa.

A greve dos motoristas de matérias perigosas e de mercadorias foi um dos temas abordados no encontro realizado em Belém a pedido da central sindical, com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse Carlos Silva.

Segundo o líder sindical, o Governo deverá intervir no conflito entre os sindicatos dos motoristas e a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), tal como já o fez anteriormente, para que as duas partes voltem às negociações e cheguem a um entendimento.

“Apelamos à ANTRAM, aos sindicatos e ao Governo para que tentem uma última via” para um acordo, sublinhou Carlos Silva.

“Se é verdade que o senhor ministro [Pedro Nuno Santos] recomendou que os portugueses atestem o depósito antes do dia 12, eu acho que valeria mais a pena investir 48 horas seguidas eventualmente num processo negocial”, reforçou o líder da UGT.

“O prejuízo [da greve] é incalculável para milhões de portugueses que estão no nosso país, sobretudo para a classe emigrante que nos visita na altura do Verão”, defendeu Carlos Silva.

Porém, o secretário-geral da UGT disse estar solidário “com a luta dos trabalhadores”, defendendo que também cabe à ANTRAM e não apenas aos sindicatos travar a greve.

“Para dançar o tango são precisos dois”, disse Carlos Silva. O líder da central sindical considerou ainda “um pouco abusivo o facto de falar-se da lei da greve como uma ameaça aos sindicatos” sempre que há “litigâncias e conflitos” entre estruturas sindicais e patrões. “A lei da greve está consagrada na Constituição e devidamente regulamentada”, defendeu.

A greve convocada pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e pelo Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM), que começa em 12 de Agosto, por tempo indeterminado, ameaça o abastecimento de combustíveis e de outras mercadorias.

O Governo terá que fixar os serviços mínimos para a greve, depois das propostas dos sindicatos e da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) terem divergido entre os 25% e os 70%, bem como sobre se incluem trabalho suplementar e operações de cargas e descargas.

Milhões de litros de leite podem ser desperdiçados, avisam industriais dos lacticínios

Os industriais de lacticínios notaram esta quinta-feira que a greve dos motoristas poderá gerar “elevados problemas”, alertando para os milhões de litros de leite que podem ser desperdiçados, apelando ao Governo que inclua o sector nos serviços mínimos.

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Fábrica de queijos em Lamego Paulo RIcca/ ARQUIVO

“A greve anunciada poderá gerar elevados problemas ao sector, seja pelas dificuldades do levantamento de leite das explorações e do seu encaminhamento às unidades industriais, seja pela dificuldade em realizar as diferentes operações de transformação, como a de fazer sair os produtos lácteos das fábricas e de os encaminhar para os circuitos comerciais”, apontou, em comunicado, a Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL).

Por outro lado, caso não sejam tomadas medidas, “corre-se o risco de terem que ser destruídos milhões de litros de leite no campo, o que pode ser desastroso a nível ambiental”.

Segundo a ANIL, “é enorme” o impacto económico, ambiental e social que a paralisação poderá provocar, pelo que a associação “tudo tem feito no sentido de incluir o sector dos lacticínios nas medidas a adoptar pelo Governo”.

Para os industriais, “é premente” a adopção de medidas que possibilitem a continuação da laboração das fábricas e das operações necessárias à transformação e colocação do leite e produtos lácteos no mercado.

A associação alertou ainda que o leite, sendo um produto perecível, tem um curto espaço de tempo entre o momento da ordenha e a sua transformação, acrescentando que os animais produtores de leite são, regra geral, ordenhados duas vezes ao dia, o que também limita a capacidade de armazenamento.

O abastecimento do leite e a capacidade de armazenamento das unidades industriais, por seu turno, “depende largamente” do escoamento dos produtos.

“Não basta, pois, receber leite todos os dias, é preciso transformá-lo e colocá-lo na distribuição e no consumidor, mantendo activo o circuito de recebimento, transformação e consumo”, referiu.

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Industriais temem que leite não seja aproveitado Nuno Ferreira Santos / Arquivo

De acordo com os dados avançados pela associação, são cerca de cinco milhões de litros de leite que diariamente entram nas unidades industriais para serem convertidos em diversos produtos, como queijo, iogurte, manteiga e natas.

“Pelo exposto, é visível, mesmo antevendo e planeando, a capacidade limitadíssima da indústria para adequar circuitos de recolha apenas e só às suas necessidades de produção”, concluiu.

A greve convocada pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) e pelo Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM), que começa em 12 de Agosto, por tempo indeterminado, ameaça o abastecimento de combustíveis e de outras mercadorias.