Na “nova era dourada” anunciada por Johnson o optimismo é a chave para resolver o “Brexit”

Primeiro-ministro britânico estreou-se no Parlamento com discurso ambicioso e promessas várias. Mas falhou na apresentação de detalhes sobre estratégia para a saída da UE. Necessidade de “abolição” do backstop e preparação do no deal são as suas certezas.

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Boris Johnson foi protagonista na Câmara dos Comuns de Westminster (Londres) EPA/JESSICA TAYLOR / UK PARLIAMENT / HANDOUT

Boris Johnson estreou-se esta quinta-feira na Câmara dos Comuns, como primeiro-ministro do Reino Unido, com a mesma bandeira do seu primeiro discurso no cargo, na véspera: contrariar o “pessimismo, o derrotismo e a negatividade” dos críticos e dos cépticos é a chave para cumprir a promessa de retirar o país da União Europeia até ao dia 31 de Outubro. 

Numa sessão plenária animada, em que o entusiasmo dos conservadores e a irritação da oposição foram palpáveis, o novo chefe do Governo não ofereceu grandes detalhes sobre a sua estratégia para triunfar onde Theresa May fracassou, limitando-se a reforçar a necessidade de “abolição” do backstop irlandês e garantindo o incremento dos preparativos para uma saída sem acordo.

Ao invés disso, acusou repetidamente os seus interlocutores de falta de optimismo, disse que a UE não tem qualquer interesse em recusar negociações sobre o acordo do “Brexit” e prometeu um futuro risonho para o “melhor lugar do mundo”, onde britânicos “vão viver mais tempo, ser mais felizes, ter mais saúde e levar vidas mais abastadas”.

“[Seremos] o melhor lugar para viver, o melhor lugar para constituir família, o melhor lugar para pôr os filhos na escola e o melhor lugar para montar um negócio e investir”, insistiu Johnson. “No futuro vamos olhar para este extraordinário período como o início de uma nova era dourada no nosso Reino Unido”.

Em resposta ao sucessor de May – que tomou posse na quarta-feira, na sequência do triunfo na eleição interna do Partido Conservador – Jeremy Corbyn assegurou que “ninguém subestima o país”. O problema, apontou o líder do Partido Trabalhista, é que “é o país que está profundamente preocupado com facto de o novo primeiro-ministro estar a sobrestimar-se a ele próprio”.

Acordo de May é “inaceitável”

Em Westminster, Boris Johnson esteve naturalmente acompanhado pela sua nova equipa. A nomeação de elementos da facção eurocéptica do Partido Conservador para cargos de destaque do Governo – como Michael Gove, Dominic Raab, Jacob Rees-Mogg, Priti Patel ou Stephen Barclay – é um sinal claro para o eleitorado de que a saída da UE é para cumprir na data prevista. Na sua intervenção, na apinhada câmara baixa do Parlamento britânico, o primeiro-ministro garantiu que “todos os ministros” estão comprometidos com o “Brexit” a 31 de Outubro e “em quaisquer circunstâncias”.

Nesse sentido, revelou, caberá a Gove, o número dois do executivo, a tarefa “prioritária” de chefiar os preparativos para uma saída sem acordo.

Johnson afiançou, no entanto, que quer sentar-se à mesa com os líderes europeus para renegociar o acordo fechado com a sua antecessora. Bruxelas não mudou de posição sobre a indisponibilidade de reabrir o documento – apenas a declaração política sobre a relação futura está aberta a modificações –, mas o primeiro-ministro acredita ter sido mandatado pelos deputados para o fazer.

“O acordo se saída, negociado pela minha antecessora, foi rejeitado três vezes por esta câmara. Os seus termos são inaceitáveis para o Parlamento e para o país”, explicou.

O líder conservador só admite, ainda assim, um acordo que não inclua o backstop, a cláusula de garantia, imposta por Bruxelas, para evitar uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, no pós-“Brexit”, que pressupõe a manutenção do Reino Unido numa união aduaneira com a UE – uma solução que os eurocépticos entendem como tendo potencial para manter o país “preso indefinidamente” às regras europeias e retirar-lhe independência comercial.

Johnson diz que é “perfeitamente possível” arranjar “disposições compatíveis” com a ausência de controlos alfandegários e com o Acordo de Sexta-feira Santa (1998), que pôs fim a décadas de conflito na ilha da Irlanda, mas quando instado pela deputada trabalhista Yvette Cooper a apresentar soluções, ficou-se pelas “facilitações abundantes e já disponíveis”, baseadas em novas tecnologias.

Para nota ficaram ainda as garantias de protecção dos direitos dos mais de três milhões de cidadãos europeus que residem e trabalham no Reino Unido – promessa contrabalançada com o anúncio de uma “reformulação radical” do sistema de imigração – e da não-inclusão do sistema nacional de saúde britânico (NHS) num futuro acordo de livre comércio com os Estados Unidos, como Donald Trump chegou a sugerir.