Primeiro-ministro Johnson rodeia-se de brexiteers e promete saída da UE sem “ses” nem “mas”

Boris Johnson foi formalmente conduzido à liderança do Governo britânico e, depois de limpar a casa, nomeou eurocépticos para os principais cargos do executivo. Cumprir o “Brexit” será “responsabilidade pessoal”.

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Boris Johnson assume lugar de Theresa May Reuters/Hannah Mckay
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Johnson foi recebido no palácio de Buckingham pela rainha Isabel II Reuters/POOL

Primeiro-ministro e Primeiro lorde do Tesouro. É esta a designação formal do cargo que, a partir desta quarta-feira, é oficialmente detido por Boris Johnson. No dia em que substituiu Theresa May na liderança do Governo britânico, com o aval indispensável da rainha Isabel II, o líder do Partido Conservador assumiu a saída do Reino Unido da União Europeia como uma “responsabilidade pessoal”. E depois de promover a maior remodelação de que há memória de um executivo britânico, começou a formar uma equipa à sua imagem e semelhança: brexiteer, portanto.

Michael Gove foi escolhido para número dois do Governo, Dominic Raab vai liderar o ministério dos Negócios Estrangeiros e Stephen Barclay manter-se-á como ministro do “Brexit”. A pasta do Interior será ocupada por Priti Patel. E para líder da Câmara dos Comuns, uma espécie de porta-voz do Governo no Parlamento, que tem assento no Conselho de Ministros, Johnson optou por Jacob Rees-Mogg – dirigente do European Research Group, a facção eurocéptica do Partido Conservador,

Para as Finanças, Boris Johnson escolheu Sajid Javid, um remainer que durante a eleição para a liderança do Partido Conservador se transformou num defensor de um “Brexit” sem acordo, como garantia do respeito pela decisão tomada pelos britânicos em referendo.

À excepção de Javid e de Ben Wallace (Defesa), todos os outros são assumidos eurocépticos e pró-“Brexit” desde há muito, e a sua escolha é um claro sinal de que Boris Johnson vai avançar com tudo para o divórcio com Bruxelas, “custe o que custar”, como prometeu tantas vezes e de novo esta quarta-feira.

A tarde foi animada na Câmara dos Comuns. O homem que na véspera foi declarado vencedor da corrida interna tory, chamou, um por um, todos os ministros e ministras que não se tinham já demitido com a sua eleição – casos de Philip Hammond (Finanças), David Lidington (vice-primeiro-ministro) ou Rory Stewart (Desenvolvimento Internacional). 

Entre demissões e renúncias, foram afastados 17 detentores de cargos ministeriais, a grande maioria apoiantes de Jeremy Hunt na votação tory – como Liam Fox (Comércio), Penny Mordaunt (Defesa) ou o próprio Hunt (Negócios Estrangeiros) – ou remainers convictos.

Para além dos ministros, destacam-se ainda as escolhas de Mark Spencer para chief whip – cujas tarefas se assemelham ao do líder da bancada parlamentar português – e de Dominic Cummings para conselheiro do primeiro-ministro. 

A nomeação deste último foi mais uma manifestação da determinação de Johnson em retirar o Reino Unido da UE – e a mais controversa. Cummings foi o cérebro da campanha Vote Leave, para o referendo de 2016, e foi o autor de alguns dos seus lemas mais polémicos, entre os quais o perigo da “invasão” de turcos, motivada pela adesão iminente da Turquia à UE ou a possibilidade de injecção de 350 milhões de libras por semana no Serviço Nacional de Saúde.

Cummings foi, inclusivamente, denunciado pelos deputados de estar in contempt, uma figura jurídica prevista nos regulamentos de Westminster da qual se decreta que houve uma obstrução aos trabalhos do Parlamento. Em causa esteve a sua recusa em prestar declarações numa comissão parlamentar na Câmara dos Comuns que investigava a disseminação de notícias falsas e desinformação nos meses que antecederam o referendo. 

Boris contra o pessimismo

No primeiro discurso como chefe do Governo de Sua Majestade, Johnson atirou-se “aos cépticos, aos arautos da desgraça e aos pessimistas”, que duvidam ser possível convencer Bruxelas a reabrir o acordo do “Brexit” – que derrubou a sua antecessora – e aos que não acreditam nas oportunidades que o divórcio com os europeus trará ao país. E, uma vez mais, prometeu efectivar a saída na data prevista, com ou sem acordo.

“Apesar de todos os esforços [de May] há pessimistas, aqui e no estrangeiro, que acham que depois de três anos de indecisão o país ficou prisioneiro dos antigos argumentos de 2016 e que nesta casa da democracia somos incapazes de honrar um mandato democrático”, lamentou Johnson. “Nós vamos cumprir as promessas repetidas pelo Parlamento às pessoas e sair da UE a 31 de Outubro, sem ‘ses’ nem ‘mas’”, afiançou.

Johnson rotulou a indisponibilidade da UE – repetida até à exaustão pelos responsáveis europeus – como uma “possibilidade remota”, mas assumiu ser “de bom senso” preparar o país para um no deal. Ainda assim, assegurou, os “portos”, os “bancos”, as “fábricas”, as “empresas” os “hospitais”, as “empresas de alimentação” e os “agricultores” vão “estar preparados” para esse cenário.

Quanto ao “antidemocrático” backstop – a cláusula de salvaguarda exigida pela UE para evitar uma fronteira e controlos alfandegários na linha de divisão entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte –, o primeiro-ministro dispara: “Esqueçam o backstop. A atribuição de culpas acaba aqui”.

May despediu-se

Antes da troca formal de papéis com Boris Johnson, Theresa May esteve no Parlamento para uma última sessão de perguntas e respostas. Numa reunião plenária em que conseguiu chutar para canto praticamente todos os convites, dos deputados da oposição, para que condenasse ou se distanciasse do seu sucessor, a agora ex-primeira-ministra do Reino Unido dedicou a Jeremy Corbyn a mensagem mais destacada da sua intervenção.

Por entre trocas de elogios com o líder do Partido Trabalhista, May sugeriu-lhe, no entanto, que siga o seu exemplo e se afaste: “Reconheci que, enquanto líder, o meu tempo tinha chegado ao fim. Talvez seja a altura de [Corbyn] reconhecer o mesmo”, atirou, provocando uma ruidosa reacção de euforia junto da bancada conservadora. 

Pouco depois, à frente do número 10 de Downing Street e no seu último discurso como líder do Governo, Theresa May – que manterá o cargo de deputada – desejou boa sorte a Johnson e garantiu estar a torcer por uma governação bem-sucedida.

“Desejo-lhe, e ao seu Governo, toda a sorte para os meses e anos que se seguem”, disse. “O seu sucesso é o sucesso de todo o país”, disse a mulher que chefiou o executivo durante três anos, um período umbilicalmente marcado pelo processo de saída. E pelo seu fracasso na perseguição desse objectivo. Segue-se Boris Johnson.

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