Irão admite repor centrifugadoras a funcionar até Setembro

Governo iraniano anuciou um aumento no grau de pureza do seu urânio enriquecido, para além dos limites do acordo internacional. Se a saída dos EUA não for atenuada pelos países europeus, Teerão admite responder com medidas ainda mais drásticas.

O Presidente iranino, Hassan Rouhani, numa visita a uma central nuclear
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O Presidente iranino, Hassan Rouhani, numa visita a uma central nuclear EPA

O Irão anunciou esta segunda-feira que começou a produzir urânio enriquecido a 4,5% de pureza, ainda longe do necessário para o fabrico de uma bomba atómica, mas acima do limite imposto pelo acordo internacional sobre o seu programa nuclear. E, nos próximos dois meses, Teerão admite reforçar a produção para mais de 20% de pureza, ou reiniciar centrifugadoras que foram desligadas em 2015, o que pode significar o fim do acordo.

“Este grau de pureza é perfeitamente adequado às necessidades do país em termos de combustível”, disse à agência ISNA o porta-voz da Organização de Energia Atómica do Irão, Behrouz Kamalvandi.

No domingo, o Governo iraniano avisou que iria começar a enriquecer urânio a um grau superior ao limite de 3,67% imposto pelo acordo internacional.

Segundo o físico Ali Akbar Velayati, um dos conselheiros do líder supremo do Irão, a necessidade do país para as suas “actividades nucleares pacíficas” – ou seja, o fornecimento de combustível à sua única central nuclear – corresponde a urânio enriquecido a 5%. Este nível fica ainda longe dos 90% necessários para o fabrico de uma bomba atómica.

A decisão de enriquecer urânio a 4,5% acontece menos de uma semana depois de o Irão ter anunciado que ultrapassou o limite da reserva de 300 quilos de urânio pouco enriquecido.

Os especialistas dizem que o enriquecimento do urânio poderia começar a estreitar a janela de tempo considerada necessária, de um ano, para que o Irão tenha material suficiente para uma bomba atómica – algo que o Irão nega ter como objectivo.

As duas decisões do Irão, na última semana, põem em causa a viabilidade do acordo internacional, seriamente afectado pelo afastamento norte-americano, em 2015, mas que ainda conta com o apoio dos parceiros europeus.

Para se manter fiel ao acordo, o Irão exigiu à União Europeia soluções para superar a ausência dos EUA e as pesadas sanções aplicadas pela Administração Trump. Mas não foi isso que aconteceu – a economia iraniana está cada vez mais deprimida e as forças radicais no país têm conseguido reunir apoio contra um acordo que, na prática, só teria benefícios para a outra parte.

Ainda assim, não é conhecida a extensão da resposta iraniana à denúncia do acordo pelos EUA. Acima de tudo, não se sabe se o regime está disposto a voltar à situação em que se encontrava antes da assinatura do acordo, numa altura em que estaria a meses de ter a bomba nuclear, segundo alguns especialistas.

E a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), responsável pela verificação do cumprimento do acordo, disse que ainda está a tentar perceber se o limite de 3,67% de pureza foi mesmo ultrapassado.

Na altura em que o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a saída dos EUA do acordo, a AIEA afirmou que o Irão estava a cumprir integralmente as condições aceites em 2015.

Depois de ter excedido o armazenamento de urânio pouco enriquecido e de começar a enriquecer urânio a 4,5% de pureza, o Irão ameaçou também ignorar uma terceira condição do acordo internacional nos próximos dois meses. Ainda não se conhecem pormenores, mas os responsáveis do país admitem começar a produzir urânio com um grau de pureza acima de 20%, ou então voltar a pôr em funcionamento centrifugadoras que estão paradas desde 2015.

Qualquer uma dessas decisões deixaria a União Europeia pressionada a sair do acordo, quando ainda está a tentar salvá-lo contra a vontade dos EUA.