Mídia Ninja dá salto internacional com casa comunitária em Lisboa

O site alternativo de informação brasileiro quer aprofundar os laços com o activismo em Portugal e com a lusofonia, usando Lisboa como ponte de ligação. Abre hoje com debate entre Caetano Veloso e Jean Wyllis.

Foto
Petra Costa, Caetano Veloso e Felipe Altenfelder no debate sobre o documentário "Democracia em Vertigem" no Cinema Ideal Andreia Gomes Carvalho

A Mídia Ninja vai inaugurar hoje a sua primeira casa comunitária internacional em Lisboa. É mais um passo para alargar a influência do media alternativo brasileiro à lusofonia. A capital portuguesa será, esperam os co-fundadores do projecto, a ligação entre a América Latina e África. E a próxima casa internacional será inaugurada já no início do ano que vem em Angola ou Moçambique.

“Uma das coisas importantes da casa de Lisboa também é estabelecer um contacto mais sólido com a comunidade lusófona. Conectar com Moçambique, Cabo Verde, Angola, conexões que a gente já vem fazendo no Brasil, mas que queremos ampliar com muita força”, explicou Pablo Capilé, co-fundador do site, ao PÚBLICO. “Vamos abrir uma casa em África no início do ano que vem. Angola ou Moçambique. Já tivemos uma passagem por Cabo Verde”.

A casa comunitária de Lisboa vai funcionar em colaboração com o restaurante Todo Mundo e é a primeira casa da Mídia Ninja para lá das fronteiras brasileiras. Não é a primeira casa do género a ser criada pelo grupo: nos últimos 10 a 15 anos, sob a chancela do colectivo cultural Fora do Eixo, antecessor e parceiro do media alternativo, os seus fundadores abriram cerca de 300 casas por todo o Brasil – começou no interior do Brasil e chegou pouco depois às grandes cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. E, em breve, vão abrir mais uma na Amazónia.

Por agora, as atenções estão focadas na inauguração da casa comunitária no 3A da Avenida Duque de Loulé. A inauguração, este sábado, às 18 horas, contará com um debate entre o músico brasileiro Caetano Veloso e o ex-deputado federal do PSOL Jean Wyllys, obrigado a auto-exilar-se do país após receber ameaças de morte. Na quinta-feira, Veloso e a realizadora Petra Costa participaram num debate, também organizado pela Mídia Ninja, no Cinema Ideal, sobre o documentário Democracia em Vertigem, da autoria da segunda.

É a primeira iniciativa de um espaço que, explica Felipe Altenfelder, também co-fundador do Mídia Ninja, que se quer de “encontro de pessoas, de formação e compartilhamento das tecnologias sociais – cursos, oficinas”. É precisamente esse o objectivo que levou à fundação da casa: “Expandir e fortalecer a rede de comunicação global de direitos humanos, cultura, meio ambiente e, através dessas articulações, poder dar uma ampliação da denúncia da situação política do que se está vivendo no Brasil hoje”.

Nos últimos meses, a Mídia Ninja tem dado especial atenção e cobertura aos protestos convocados por colectivos brasileiros contra o Governo de Bolsonaro, o assassinato de Marielle Franco e a favor da libertação de Lula da Silva em Portugal. Foi o estreitar gradual de laços que a casa comunitária pretende agora aprofundar.

As lutas sociais travadas em Portugal não ficarão à margem de um dos media alternativos mais conhecidos do outro lado do Atlântico Sul. “O primeiro passo que vamos dar é ouvir muita gente e ouvir o conjunto dos activistas portugueses. Entender quais são as lutas que estão travando para que possamos contribuir”, disse Capilé. A luta pelo direito à habitação e contra a crescente gentrificação das cidades portuguesas deverá ser uma das principais causas.

Guerra mediática

Criado poucos meses antes dos protestos de rua contra a subida dos passes de transporte, em 2013, a Mídia Ninja destacou-se pela sua cobertura em streaming, sempre entre a multidão e na linha da frente dos confrontos com a polícia de choque e as suas granadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha. Foi, na prática, o outro lado da cobertura dada pela imprensa tradicional brasileira e a forma como o fez, baseando-se no jornalismo cidadão, a sua grande inovação. “Com o seu celular na mão, você pode reportar em tempo real e é um tipo de jornalismo legítimo”, disse Altenfelder.

“Desde o início do primeiro governo de Lula que a imprensa tradicional tomou partido e esse partido era de oposição ao Governo PT. Nos oito anos de Lula, quatro de Dilma e nos dois depois, teve um papel activo em procurar desqualificar, criminalizar, destabilizar a experiência do governo popular”, garantiu o activista.

A Mídia Ninja “viralizou com muita força porque a velha media estava oferecendo uma representação muito frustrante daquele processo político [das manifestações de 2013]. Imagens de um helicóptero e um locutor a quilómetros chamando as pessoas de vândalos”, disse o co-fundador. Uma cobertura que permitiu ao site dar uma perspectiva diferente, e em poucos dias já tinha milhares de seguidores no Facebook, um dos seus principais canais de comunicação. Hoje, a sua página na rede social tem mais de dois milhões de seguidores. 

A oposição generalizada da imprensa às forças de esquerda “tornou-se mais aguda” com o impeachment, ou, como faz questão de sublinhar Altenfelder, com o golpe que afastou Dilma Rousseff do Palácio do Planalto. Essa imprensa “fez uma guerra mediática explícita e com compromisso editorial: matérias escritas, textos de editorial”, garantiu. Mas a situação, explica, saiu fora do controlo da imprensa com o desgaste gradual dos partidos que tradicionalmente faziam oposição ao PT, como o PSDB, resultando na candidatura e vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.

A degradação da situação económico-social brasileira, a Operação Lava-Jato, com o antigo Presidente Lula da Silva a ser acusado e condenado por corrupção, e o impeachment de Dilma Rousseff fragilizaram a imagem do PT. A sociedade brasileira polarizou-se e acabou dividida nas ruas e nas urnas. E o clima de intimidação política não tem parado de aumentar, levando brasileiros a optarem pelo auto-exílio, como referiram alguns dos presentes no debate de quinta-feira entre Caetano Veloso e a realizadora Petra Costa.

Desde a primeira hora que a Mídia Ninja recusou a narrativa da imparcialidade para se posicionar politicamente ao lado dos movimentos, contando as histórias dos activistas das lutas sociais e dos direitos humanos. “Nós somos parciais, nós temos um lado: o das lutas, o dos movimentos sociais, de quem não tem visibilidade e o papel do nosso jornalismo é dar visibilidade a esses movimentos”, explicou Altenfelder, referindo que essa abordagem “pegou a velha media em contra-pé”. “Tentaram, no início, descredibilizar-nos dizendo que era um veículo que não era imparcial. Assumimo-lo e fizemos disso a nossa identidade”.

A parcialidade é uma das principais características do chamado jornalismo alternativo, mas muitas outras críticas dos seus detractores estendem-se também ao método jornalístico usado, ou à falta dele. Ao fazer jornalismo cidadão, em que qualquer pessoa pode escrever uma notícia ou filmar sem método, a Mídia Ninja sofreu duras críticas à sua credibilidade, bem antes das fake news terem entrado no léxico comum. 

Questionado sobre como garantem que a informação que publicam é fidedigna num mundo em que as fake news são uma ameaça cada vez maior, Pablo Capilé explicou que no Brasil existe uma equipa de 50 pessoas que se dedica em permanência a receber os conteúdos dos milhares de colaboradores e a confirmar as informações, cruzando-as com outras fontes. Ao mesmo tempo, o “comentariado” das redes sociais (o novo proletariado na gíria dos dois co-fundadores), como Capilé lhe chama, actua como uma segunda linha de confirmação dos conteúdos, depois de publicados.

Agora, a Mídia Ninja atravessa o Atlântico a apontar não apenas para Portugal, mas também para África, na esperança de fazer ligações Sul-Sul, como disse Capilé. E a casa comunitária de Lisboa é o primeiro passo de um projecto que tem disputado narrativas num país de enorme polarização.