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A revolução vai ser transmitida em streaming – e não será imparcial

Há quatro anos, um grupo de estudantes filmou e transmitiu em directo as manifestações que começaram a abalar o Governo de Dilma Rousseff. Hoje, a Mídia NINJA cresceu e é mais influente, mas a paisagem mediática brasileira entrou em modo de guerrilha.

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O colectivo da Mídia Ninja (Pablo Capilé é o segundo a contar da esquerda) em Lisboa Nuno Ferreira Santos

Pablo Capilé desfia, quase de um só fôlego, a forma como a rede Globo tem vindo a intervir na política brasileira nas últimas décadas. “A rede Globo apoiou a ditadura e sempre esteve ao lado do poder desde que surgiu”, diz o activista. Depois do apoio prestado à ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985, o “golpe” seguinte foi a manipulação do debate entre Collor de Mello e Lula da Silva, durante a campanha presidencial de 1989. A influência da Globo continua até aos dias de hoje, diz Capilé. “Em nenhum momento deixou de interferir nos rumos do poder no Brasil. Foi sempre a principal comandante desta guerra mediática.”

Sim, para além do confronto político que tem dominado o Brasil nos últimos anos, há também uma guerra mediática em curso. De um lado estão os media tradicionais – as grandes televisões nacionais e os principais jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro – que são alvo de acusações semelhantes às que Capilé faz em relação à Globo. Do outro está uma miríade de colectivos de comunicação, como por exemplo a Mídia NINJA, de que Capilé é um dos fundadores, e que têm vindo a disputar o espaço mediático com aquilo que chamam de “velhos media”.

Capilé, 38 anos, encara o aparecimento da Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Acção) como uma “reacção” contra os monopólios mediáticos que dominaram a difusão das narrativas políticas e económicas durante décadas. O mundo conheceu os “ninja” no meio das ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro, no Verão de 2013, durante as grandes manifestações contra a falta de investimento público e contra os gastos da organização do Campeonato do Mundo de futebol do ano seguinte. Enquanto as grandes televisões sobrevoavam os protestos de helicóptero, vários jovens puxaram dos seus telemóveis para filmarem em directo as marchas, apagando qualquer linha, por mais ténue que seja, entre a informação e o activismo.

“Os estudantes foram para a rua para cobrir manifestações que eles próprios apoiavam”, diz ao PÚBLICO, por telefone, a professora de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), Marília Martins. Para além de mostrarem em tempo real uma realidade que diziam estar fora dos noticiários nacionais, houve casos em que as filmagens dos activistas serviram como prova para ilibar alguns participantes nas manifestações que acabaram por ser detidos.

Capilé diz que os protestos de 2013 representaram um momento de “explosão de consciências” e que coube aos colectivos como a Mídia NINJA aproveitar a oportunidade para estar à altura daquilo que a rodeava. “A grande questão para nós é como conseguir desenvolver uma linguagem que está no sítio certo à hora certa, como acompanhar o espaço-tempo da nossa geração. Não se pode estar nem na vanguarda dessa geração, nem atrás. É preciso tentar estar exactamente no lugar dessa explosão”, explica, durante uma conversa com o PÚBLICO em Lisboa, onde vários membros da Mídia NINJA estão a participar no Bea.to, um conjunto de colóquios e mesas-redondas sobre arte e comunicação organizadas pela Startup Portugal.

Fim da isenção

Para a professora de Jornalismo da PUC, o Brasil vive num contexto em que o “jornalismo activista” está a florescer, mas, ao contrário, do que seria de esperar, este activismo estende-se aos chamados meios tradicionais. “O princípio de isenção deixou de ser aplicado frequentemente”, diz Marília Martins, dando como exemplo a cobertura do impeachment da Presidente Dilma Rousseff. A Mídia NINJA é conotada com a esquerda, observa a professora, também ela ex-jornalista, e aparece como “uma tentativa de dar voz àqueles que deixaram de ter voz nos media tradicionais”.

Nos últimos quatro anos, a Mídia NINJA cresceu, ampliou a sua capacidade de difusão, diversificou os tipos de conteúdos, mas não se desviou um milímetro dos princípios que lhe deram origem. “Não se pode ter uma atitude passiva, apenas de narrar as histórias; tem que se ter capacidade de mobilização social para incidir noutros sectores para fortalecer outras agendas”, diz Capilé.

É através do Facebook, onde dispõem de uma conta com mais de 1,6 milhões de seguidores, que a Mídia NINJA espalha a sua narrativa. Há transmissões de vídeo em directo todos os dias, seja de manifestações, debates, ou conferências de imprensa. Uma das grandes mudanças ocorridas nos últimos tempos foi o aprofundamento do trabalho em rede com outros colectivos de comunicação e movimentos sociais, como os sem-terra ou os sem-tecto. Outra parte importante do trabalho desenvolvido é o apoio que têm dado a outros grupos que também querem lançar projectos de comunicação, como é o caso dos indígenas ou dos chamados garis (varredores de ruas), e até noutros países, como a Argentina, onde existe há mais de um ano o colectivo Emergentes. “O contacto directo com cada uma dessas iniciativas também amplia o nosso repertório e a nossa capacidade de entender o que está a acontecer em cada uma dessas lutas”, explica Capilé.

Muitos dos milhares que colaboram com a Mídia NINJA estudaram jornalismo ou comunicação, habituaram-se a ver o Jornal Nacional da Globo ou a ler a Folha de São Paulo – dois dos grandes alvos destes colectivos. Mas Capilé garante que não há nada a aprender com os órgãos tradicionais. “Esses veículos ensinavam-nos mais o que não fazer do que o que fazer.”

O trabalho da Mídia NINJA e de vários órgãos semelhantes – nem todos alinhados à esquerda – traz consigo uma crítica muito explícita à paisagem mediática brasileira. “O aparecimento destes media independentes tem a ver com a luta política, mas também com a concentração de recursos nas mãos de apenas cinco famílias, todas elas com uma única voz no caso do impeachment”, diz Marília Martins. Felipe Altenfelder, também membro da Mídia NINJA, diz que “o monopólio dos meios de comunicação no Brasil costumava invisibilizar” algumas histórias, que agora têm como ser divulgadas.

As críticas dos velhos media

Neste contexto, um embate entre os novos media e os tradicionais seria inevitável. A par da polarização política que toma conta do Brasil, também se trava um combate mediático. Nas colunas dos principais jornais diários começaram a chover críticas e acusações direccionadas contra estes grupos. Diziam que a Mídia NINJA não passava de um braço do Partido dos Trabalhadores, que tem uma agenda política e que, por isso, aquilo que faz não é jornalismo.

Mas são eles os primeiros a negar qualquer pretensão de imparcialidade. “Os media brasileiros sempre se comportaram de forma muito cínica em relação a isso, porque construíram um falso mito de que são imparciais”, diz Altenfelder. Porém, acrescenta, “sempre foram uma estrutura que estava a serviço de interesses políticos e económicos”.

Pelo contrário, a Mídia NINJA assume a sua parcialidade e a defesa de uma agenda progressista. “Não existe mais a possibilidade de acreditarmos na existência de arautos da imparcialidade que nos vão dizer o que está certo ou errado”, defende Capilé. A “multiplicidade de visões” está aí e não adianta lutar contra ela.

Recentemente, a Mídia NINJA conseguiu uma linha de financiamento da Open Society Foundation, liderada pelo milionário George Soros, o que foi suficiente para que fossem levantadas dúvidas quanto à sua independência. Apesar de não ser a primeira vez que lhe falam do assunto, Capilé não consegue esconder uma expressão de incredulidade. “Quem são eles para falar dos nossos financiadores? Eles são financiados pelo que de pior foi produzido no Brasil nos 500 anos da nossa existência”, afirma, precisando que o investimento de Soros é “ínfimo”.

Na mente de todos – sejam meios tradicionais ou inovadores – estão as eleições do próximo ano, que se sucedem a anos vertiginosos na política brasileira. “O desafio”, diz Altenfelder, “é resgatar os valores democráticos e ajudar as pessoas a votar de forma mais consciente”. A sucessão de escândalos de corrupção, a queda de políticos, incluindo a primeira mulher Presidente, tudo isso tornou a “política pop”, como diz o activista. “Todo o mundo fala de política como nunca.” O problema é quando esse debate ultrapassa os limites da racionalidade e se aproxima da violência. A solução, explica Altenfelder, reside, mais uma vez, na “ampliação da multiplicidade de vozes”.

A Mídia NINJA vai optar por dar visibilidade aos “candidatos progressistas”, mas nega dar qualquer apoio a uma das campanhas. O objectivo último, diz Capilé, é conseguir a formação de “uma bancada de legisladores progressistas” no Congresso.
 

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