Olivier Blanchard: “As regras do euro podiam ser as certas antes, agora não são”

Ex-economista chefe do FMI diz que, com as taxas de juro tão baixas, chegou a hora de, na zona euro, se investir mais, mesmo que isso signifique um aumento da dívida.

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Enric Vives-Rubio

Com as taxas de juro a um nível muito baixo e o BCE quase sem espaço de manobra para agir, chegou a altura de os governos agirem. Menos preocupação com a dívida, défices maiores e mudança das regras orçamentais é o que Olivier Blanchard, ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional recomenda à zona euro.

No discurso que realizou esta segunda-feira no jantar de abertura do Fórum do Banco Central Europeu que se realiza esta semana em Sintra, o economista francês trouxe uma mensagem para os decisores políticos e académicos que participam no evento: o BCE (sob a liderança de Mario Draghi) salvou o euro, mas agora, tendo colocado as taxas de juro a um nível tão baixo e com futuras compras de dívida a produzirem já efeitos reduzidos, está a ficar progressivamente de mãos atadas. “Se houver uma recessão, a economia monetária não vai chegar, será precisa também a política orçamental”, afirmou.

E assim, têm de passar a ser os governos a agir. Por sorte, são precisamente as taxas de juro baixas que tornam possível a utilização da política orçamental para colocar a economia europeia no seu potencial de crescimento, e assim evitar o risco de deflação.

Primeiro, defende o economista, aquilo que os governos têm de fazer é perceber que “uma redução da dívida é agora menos urgente do que era”. “Os custos são mais baixos. Os riscos também são mais baixos. A dívida pode ainda ser alta, mas o serviço da dívida não é, em termos históricos. Não há uma crise da dívida”, afirma.

Depois, Blanchard defende que reformas estruturais e aumentos da confiança não chegam para aumentar o nível da procura da forma que é preciso e, por isso, “os défices são necessários”, devendo “ser usados, o máximo que for possível, para investir no futuro, seja através de investimento público, seja suportando os custos de reformas estruturais”.

Para que isto possa ser feito na zona euro, alerta Blanchard, será necessário mudar as regras orçamentais em vigor. “Mesmo que elas possam ter sido as certas antes, não o são agora”, referindo-se a questões como a definição de objectivos para a dívida, a velocidade a que são exigidos os ajustamentos e a flexibilidade que é dada para responder a situações de procura persistentemente baixa.

Olivier Blanchard recomenda também que, para incentivar o investimento, se avance para uma separação das contas públicas entre a sua componente de despesa corrente e despesa de capital (investimento), dando a possibilidade de esta última ser financiada através da dívida.

O economista, actualmente um membro do Peterson Institute for International Economics, coloca a hipótese de estas mudanças poderem ser feitas, ou “por uma alteração das regras ou através de uma interpretação das regras mais liberal”.

No entanto, mesmo isto pode não ser suficiente, avisou no seu discurso. É preciso que haja uma maior coordenação de políticas dentro da zona euro, o que torna “mais forte o argumento para algum tipo de ministro das Finanças ao nível do euro”. E também uma maior coordenação com o resto do mundo, que poderia ser feita através do G20, com as maiores potências a encetarem uma estratégia conjunta de reforço do investimento, com aumento da dívida.

No discurso, Olivier Blanchard não fez uma distinção entre os diversos países da zona euro, quando recomenda mais investimento público e maiores défices. No entanto, em intervenções passadas, o economista já fez questão de salientar que conselho que dá se aplica mais aos países com dívidas relativamente mais baixas e aplica-se menos aos países com dívidas elevadas. Isto é, o recado de Olivier Blanchard é mais para países como a Alemanha e menos para países como Portugal.