Opinião

Álcool, drogas e violência de género: pensar o excesso

Intervenções como a do Ponto Lilás na Queima do Porto ou como a que ocorrerá no próximo Primavera Sound, não são meras operações de fachada em conluio com promotores perversos, negligentes e cegamente focados no lucro.

Foi implementada pela primeira vez, na Queima das Fitas do Porto deste ano, a iniciativa Ponto Lilás. A mesma será repetida já no próximo Primavera Sound, desta vez em articulação com a Kosmicare. A intervenção do Ponto Lilás, levado a cabo por um conjunto de projetos que atuam na proximidade com os contextos e os públicos em que emergem problemas relacionados com álcool, drogas e violência de género, recolheu amplo consenso. Entendemos que, complementarmente, a sua ligação às universidades e a sustentação da sua atividade na evidência científica têm potencial para modificar um cenário que chocou a opinião pública.

Eventos como estes fazem parte do lazer noturno urbano, um setor de atividade que alimenta hoje em dia a dinâmica de qualquer grande cidade. Estas intervenções reconhecem que as cidades alojam o lazer noturno e com ele beneficiam amplamente do ponto de vista económico, urbanístico, social, cultural. Atendendo, porém, à diversidade dos agentes que nele participam e que procuram ativamente fuga à rotina, experiências de excesso e busca de prazer, é expectável que daí surjam problemas. Cabe aos poderes públicos atender às esperadas consequências trazidas por uma atividade aparentemente tão relevante para o desenvolvimento urbano quanto as hordas de turistas acolhidos na atualidade. É, aliás, bastante surpreendente que no já longo período em que dura a chegada desse investimento, tão pouco (para não dizer “zero”) esteja a ser devolvido à promoção do bem-estar e segurança dos públicos que o geram.

É a população mais jovem que mais valoriza e procura estes ambientes. Sair à noite é uma atividade partilhada com os pares, tem uma função central na construção da identidade juvenil e pode ajudar na superação de adversidades que surgem no processo de adaptação aos desafios das sociedades contemporâneas. Os promotores que exercem, responsavelmente, a sua atividade compreendem esta função que ocupam na experiência dos seus públicos e tomam iniciativas protetoras da sua segurança e bem-estar. Sabemo-lo porque temos a sorte de integrar uma organização – a Kosmicare – que ampliou a sua experiência de intervenção à conta do trabalho direto e continuado com este tipo de promotores.

A vivência do excesso nestes ambientes alia-se, infelizmente, a outros problemas de natureza estrutural como a reprodução amplamente disseminada de uma visão sexista e degradante das mulheres, à aceitação do assédio e à normalização de formas de violência de intensidade variável e crescente incendiadas pela associação à embriaguez alcoólica. Neste cenário turva-se a definição de consentimento. Também se revitimizam as protagonistas que reproduzem uma visão sexista da mulher que afeta todos e todas em sociedade (não apenas os agressores) e inviabiliza-se (fruto das
redes sociais) o direito à privacidade e ao esquecimento nas situações em que o consentimento ocorre, independentemente da nossa apreciação moral.

Intervenções como a do Ponto Lilás na Queima do Porto ou como a que ocorrerá no próximo Primavera Sound, não são meras operações de fachada em conluio com promotores perversos, negligentes e cegamente focados no lucro. Essa colaboração é um fator indiscutivelmente positivo que nos anima perante o longo caminho a percorrer que, acreditamos, transportará as cidades e os promotores do nosso país para uma atitude mais responsável, disseminada e consistente na gestão destes problemas.

Pela nossa parte, acreditamos estar em condições de contribuir de forma significativa para a desnormalização das práticas a que assistimos incrédulos/as nos últimos dias. A nossa atitude é, pois, de optimismo. A visibilidade que foi dada a estes graves acontecimentos e a reação social de intolerância que cresceu em seu redor é indicativa de um ponto de não-retorno que trará uma nova dinâmica na atenção a estes problemas. Essa intolerância é a primeira consequência positiva a retirar de todo este processo. Esperamos, como consequências seguintes, que todos os agentes, públicos e privados, assumam a sua cota parte de responsabilidade na procura continuada e sistemática de uma mudança tão necessária.