Opinião

Um conforto ainda (um pouco) desconfortável

Para o Governo, a maior dificuldade nos próximos meses é manter-se à volta dos 39 por cento – o que, nos tempos actuais, de profunda incerteza europeia e mundial, não é tarefa fácil.

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LUSA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

1. A sondagem sobre as eleições que vão testar a maturidade da nova bipolarização entre direita e esquerda que deixou de ser “imperfeita”, parecem ser bastante confortáveis para o PS. A margem de vitória sobre o PSD aumenta ligeiramente em relação às europeias – o que é justificado pelo facto de, nas primeiras, o voto de protesto contra o Governo ser livre, predominando o voto útil nas segundas, quando se escolhe quem governa o país.

O PS reforça ainda a sua natureza de partido charneira, dispondo de uma variedade de coligações possíveis, mesmo que algumas mais improváveis do que outras. Faz maioria com qualquer dos outros partidos com representação parlamentar (à excepção, porventura, do PAN ou dos Verdes). A sondagem revela também que um eleitorado que, aparentemente, não gosta de maiorias absolutas, parece querê-lo quase sempre no Governo, coligado à direita ou à esquerda.

Para o Governo, portanto, a maior dificuldade nos próximos meses é manter-se à volta dos 39 por cento – o que, nos tempos actuais, de profunda incerteza europeia e mundial, não é tarefa fácil.

2. A sondagem confirma também uma notável resistência do sistema partidário nacional, sobretudo em comparação com a fragmentação e, por vezes, a verdadeira “revolução” que se verifica numa maioria de democracias europeias e ocidentais. Para além do Bloco, nascido há 20 anos, são os mesmos partidos que emergiram da revolução de 1974 que continuam a dominar a cena política, com um equilíbrio eleitoral entre eles que também não mudou significativamente. Talvez seja por isso que a revista francesa Nouvel Obs (de centro-esquerda), dá a uma entrevista com António Costa um título sintomático: “O antidoto português contra o populismo”.

O contexto europeu também pode ajudar a justificar a resistência do PS ao desgaste próprio de quem governa. Portugal recuperou a sua credibilidade europeia, pedida nos anos da troika. Voltou a ter influência e a ocupar cargos relevantes. O primeiro-ministro é ouvido, por vezes com muita atenção, nas capitais europeias onde se concentra o poder. Nos últimos dois dias foi jantar ao Eliseu, tendo no menu a distribuição de cargos nas principais instituições europeias, e abriu o Congresso da Confederação Europeia de Sindicatos, reunido em Viena. Também representa, a seu modo, uma nova geração de líderes socialistas que querem restituir as cores originais ao centro-esquerda, depois dos tempos “pensamento único”, em que se confundiam com o centro-direita demasiada vezes.

Há ainda outra conjuntura europeia que lhe é favorável: por mais que PSD e CDS tentem equiparar a extrema-direita à extrema-esquerda, acusando o primeiro-ministro de se coligar com a segunda, a verdade é que hoje, na Europa, o perigo vem da primeira. Alexis Tsipras porta-se como um europeísta moderado. Não há em nenhum país europeu nenhum partido da esquerda radical ou comunista com força suficiente para pôr em causa a democracia liberal ou a União Europeia.

3. A sondagem também revela que os dois partidos à esquerda do PS não são penalizados. O que quer dizer que, muito provavelmente, não vão mergulhar numa crise existencial sobre se devem continuar ou não numa coligação parlamentar com o PS depois das legislativas. Os resultados das eleições de Outubro vão apenas determinar a relação de forças entre os três partidos, ditando as condições da negociação. Se se confirmarem estes resultados, o PS estará numa posição de vantagem.

Numa outra entrevista ao Le Monde, publicada na edição com data de hoje, António Costa não gasta palavras para esclarecer as suas intenções. Pergunta: “Tenciona prolongar a aliança com a extrema-esquerda depois das eleições legislativas?” Resposta: “Isso dependerá dos resultados, mas a fórmula política que encontrámos teve resultados. Para quê mudar?”

4. Até agora, a estratégia eleitoral do PS tem sido atacar a direita, como se viu sem margem para dúvida na crise dos professores, poupando o PCP e o Bloco. Com a aproximação das legislativas, é natural que se preocupe em separar melhor as águas também à esquerda. Muita água correrá ainda sob as pontes até Outubro. Vivemos tempos de total imprevisibilidade na Europa e no mundo. O que se pode dizer é que o PS parte de uma situação confortável. Mesmo que tenhamos de aguardar pela noite de domingo para saber quão confortável.