Google afasta Huawei do Android. Chegou a hora do plano B?

Clientes vão perder actualizações do Android e acesso à Play Store. Fabricantes de chips nos EUA seguem exemplo da Google e também suspendem negócios com a Huawei. A empresa chinesa disse que estava a desenvolver um sistema operativo próprio.

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Richard Yu, líder da divisão de telemóveis de grande consumo da Huawei REUTERS/Charles Platiau
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Huawei é o segundo maior fabricante do mundo. Passou a Apple em 2018 Reuters
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Huawei é o segundo maior fabricante do mundo. Passou a Apple em 2018 Reuters/PAUL HANNA

A empresa-mãe do Google, a Alphabet, excluiu os telemóveis da Huawei do acesso à Google Play Store e a actualizações do sistema operativo Android fornecidas pelo Google. A decisão surge depois de o Presidente dos EUA, Donald Trump, ter declarado uma emergência informática e proibido empresas norte-americanas de fazer negócios com empresas estrangeiras que representem um risco de segurança nacional. “A guerra fria tecnológica começou”, diz um analista da Bloomberg. “Este é o momento pelo qual a Huawei tem estado à espera.”

Há outras empresas tecnológicas dos EUA a seguir o exemplo da Alphabet. De acordo com a Bloomberg, fabricantes de chips (processadores) como a Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom confirmaram que vão deixar de fornecer hardware ao fabricante chinês, por agora.

Em Março, Richard Yu, presidente-executivo do “braço” da Huawei para os telemóveis de grande consumo, disse, numa entrevista ao jornal alemão Die Welt, que uma medida destas não seria preocupante, visto que os processadores made in USA representavam apenas 5% das vendas.

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A Qualcomm, que produz processadores, é uma das empresas dos EUA que vão deixar de fornecer a Huawei REUTERs

Além disso, há notícias que dizem que a empresa já antecipava o corte de fornecedores e foram acumulando uma reserva de processadores para três meses, dizia a Bloomberg, no final da semana passada. Outros órgãos de informação asiáticos, como o Nikkei Asian Review, diziam na semana passada que a empresa fundada por um antigo soldado do Exército Vermelho tem um stock de processadores em quantidade suficiente para um ano. O South China Morning Post, por seu lado, noticiava que a Huawei garantiu a independência em termos de processadores com a produção da HiSilicon, detida a 100% pela própria Huawei e sediada na mesma cidade natal do fabricante de telemóveis, Shenzen.

Do mesmo modo, a exclusão da Huawei da Play Store será menos relevante na China do que no estrangeiro, já que os produtos Google têm pouca ou nenhuma relevância no mercado chinês. Mas para o resto do mundo, as decisões tomadas por empresas norte-americanas podem resultar em prejuízos financeiros mais expressivos nas contas da Huawei.

Um sistema operativo Huawei?

Terá chegado o momento de a Huawei lançar um sistema operativo próprio? Na mesma entrevista de Richard Yu ao Die Welt, este responsável revelava que a empresa estava efectivamente a investir num sistema próprio para telemóveis – nos computadores, a Huawei usa produtos Microsoft. Richard Yu falou explicitamente num “plano B”.

Temos estado a preparar um sistema operativo. Se chegar o momento em que não podemos usar o sistema actual, podemos usá-lo para lidar com essa situação. É o nosso plano B. Mas claro que privilegiamos a cooperação com a Google e a Microsoft”, disse Richard Yu nessa entrevista.

Apenas dois sistemas operativos para telemóveis vingaram até hoje, o iOS e o Android. Todas as restantes tentativas falharam. Ainda que a Huawei tenha uma grande base de clientes, conseguiria convencer programadores?

Por outro lado, subsiste a pergunta: quais serão as perdas da Google, caso a gigantesca base de clientes da Huawei desapareça do Android? E que impacto terá o afastamento da Huawei do mercado dos EUA na economia norte-americana. “A guerra fria tecnológica começou. O vencedor não será quem tem os melhores lutadores, mas o lado que aguentar melhor as dores de perdas prolongadas”, vaticina Tim Culpan, um analista na Bloomberg.

As dúvidas são muitas – a Huawei garante, porém, que as decisões tomadas nos EUA não afectarão os clientes. Certo é que a Google decidiu suspender qualquer negócio com a Huawei que envolva a transferência de hardware e software — excepto os produtos protegidos por licenças de código aberto, noticiou no domingo a agência Reuters, citando uma fonte próxima da empresa norte-americana.

A notícia domina as manchetes da imprensa online em praticamente todo o mundo. E não é caso para menos: em 2018, a Huawei ultrapassou a Apple e tornou-se o segundo maior fabricante de telemóveis, que funcionam com o sistema Android e recorrem à loja de aplicações da Google. Uma decisão destas afectará milhões de clientes em todo o mundo.

O PÚBLICO pediu, esta manhã, esclarecimentos adicionais à Huawei sobre as consequências desta decisão, mas até ao momento ainda não recebeu respostas. Segundo a Reuters, os telemóveis desta empresa perderão acesso a actualizações do sistema operativo Android. E os futuros telemóveis lançados fora da China não poderão usar aplicações e serviços da Google, incluindo a aplicação do Gmail e a loja de aplicações Google Play Store.

Os clientes Huawei poderão ainda usar o Gmail através do browser ou de outras aplicações de email. Já o fim do acesso à loja de aplicações representará um desafio mais difícil. Há lojas de aplicações alternativas à Play Store, mas são usadas sobretudo na América do Sul e em alguns países da Ásia, não tendo praticamente mercado na Europa. ​

Apesar de a Huawei ainda ter acesso à versão do sistema operativo Android protegida pela licença do código aberto, a Google deixará de dar qualquer apoio técnico à gigante tecnológica chinesa, diz a agência.

Uma longa lista negra

Na “lista negra” dos EUA está a Huawei e mais 70 subsidiárias do fabricante chinês que Washington tem tentado banir, acusando a empresa de estar sob influência do Governo chinês e potencialmente ao serviço da espionagem de Pequim.

Até hoje, nenhuma prova foi apresentada ao mundo que sustentem as afirmações que diversos responsáveis norte-americanos têm feito ao longo do último ano, por todo o mundo.

Desde há meses que representantes da Casa Branca, a rede de embaixadores dos EUA e altos responsáveis dos reguladores norte-americanos têm feito contactos por todo o mundo para tentarem convencer aliados e parceiros de negócio de que a Huawei é um risco para a segurança das democracias ocidentais. O presidente do regulador norte-americano de telecomunicações, a FCC, liderou a visita de uma comitiva a Lisboa, onde defendeu que, como país aliado na NATO, Portugal não deveria permitir a participação da Huawei no desenvolvimento da rede de quinta geração móvel (5G), sob pena de pôr em causa a normal troca de informações de segurança no quadro da aliança atlântica.