É chá, é prata, é um ritual antigo que pode ser aprendido

O que é que o chá tem a ver com a prata? Como se deve preparar esta bebida? Quantas classes de chá existem? O biólogo e sommelier de chás Luís Mendonça de Carvalho responde.

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A história é conhecida: foi a portuguesa Catarina de Bragança que levou as folhas de chá para Inglaterra e introduziu o costume na corte britânica. Séculos depois, a tradição continua, mas, por estes dias, o ritual do chá ganhou outra vida no Porto. Foi recriado com mesa posta como manda o protocolo, com colheres, bules e centros de mesa de prata, enriquecidos com pratos com pedras preciosas de tom esmeralda. Ritual feito, fica a questão: Qual é, afinal, a relação entre a prata e o chá?

A prata é uma forma cultural de servir o chá na Europa. Desde o século XVII que era servido em serviços de prata em praticamente todas as cortes e casas nobres europeias”, responde Luís Mendonça de Carvalho​, sommelier de chás, antes de começar um workshop no salão nobre da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP).

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A tradição não se perdeu porque “ainda se serve o chá em serviços de prata”, continua Carlos Tavares, da centenária Ourivesaria Tavares, da Póvoa de Varzim, e associado da AORP que organizou este evento. “As pessoas usam a prata, porque a água não fica bacteriologicamente tão alterada neste material”, acrescenta o biólogo Luís Mendonça de Carvalho que, momentos depois, levaria a assistência numa viagem através da recriação do ritual de servir o chá na Europa.

O bule é de prata, mas as chávenas não, “para não tirar o sabor da bebida”, explica Carlos Tavares ao PÚBLICO. Na mesa posta com requinte, há bolinhos para acompanhar, mas primeiro, Mendonça de Carvalho fala sobre a origem, produção e variedades de chás. O também professor do Instituto Politécnico de Beja, onde fundou e dirige o Museu Botânico, dirige-se à assistência sentada à volta da mesa requintada e começa por sublinhar que, durante muito tempo, a bebida estava associada à elite como tradição cultural e de confraternização.

Os grandes produtores de chá são a China, Índia, Quénia e Turquia, continua, prendendo a atenção do público ao recordar que “o chazeiro não é uma árvore, mas sim um arbusto” cujas folhas resultam em diferentes tipos de chá, dependendo da forma como são processadas. “Para fazer o chá colhem-se as folhas, deixam-se durante algumas horas a murchar e depois são trabalhadas, ou seja, vamos cortar, secar e enrolar”, descreve.

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“Se secar logo, é chá verde. Mas se fizermos esse trabalho todo e deixarmos as folhas ao ar, entre 30 minutos e uma hora, já resulta em chá preto”. Ou seja, o chá verde e o preto vêm do mesmo arbusto. “A diferença entre eles é que o chá verde não é oxidado e o preto é”, elucida, acrescentando que existem, então, seis classes de chá: branco, amarelo, verde, azul, preto e pu-erh – este último é o tradicional chinês. “Depois qualquer outro chá que exista está incluído numa destas classes”, continua dando o exemplo do Sencha, que é o chá japonês “mais conhecido”, pertence à classe do chá verde. 

A preparação desta bebida tem muito que se lhe diga, não é uma simples rotina de aquecer água até ferver e depois colocar folhas ou uma saqueta dentro da chávena. Há métodos para preparar o chá correctamente como a temperatura, a quantidade de água e o tempo de infusão certos, e quais as folhas do chazeiro a juntar. Por exemplo, sublinha, “o chá verde tem um tempo de infusão mais curto e a uma temperatura menos elevada”. 

Por fim, o professor deixa um conselho: “Quando quero um chá com muita cafeína ponho um tempo de infusão mais curto porque a maior parte da cafeína desaparece nos primeiros minutos”. Portanto, a preparação do chá é uma arte que deve ser feita com todo o cuidado para que as folhas não percam as suas propriedades, para uma melhor degustação.