Guaidó contra Maduro – sábado é o dia em que o mundo vai saber quem tem o poder na Venezuela

As atenções estão concentradas na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia, onde se trava a batalha entre o Governo de Maduro e a oposição de Guaidó. Duas pessoas morreram e dezenas ficaram feridas em confrontos com militares.

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Milhares de pessoas assistiram ao concerto promovido pela oposição venezuelana em Cúcuta, na Colômbia EDGARD GARRIDO / Reuters

A Venezuela entra num dos dias mais decisivos da sua história recente num clima de grande tensão, depois de duas pessoas terem sido mortas em confrontos com o Exército perto da fronteira com o Brasil. O destino da ajuda humanitária que está às portas do país promete definir o embate entre o Governo de Nicolás Maduro e a oposição de Juan Guaidó pela legitimidade.

Às primeiras horas da manhã desta sexta-feira, perto das 6h30 (mais quatro em Portugal continental), uma coluna militar aproximou-se de um local do estado de Bolívar (na fronteira com o Brasil) que estava a ser guardado por um grupo de índios pemones, que a queriam manter aberta. Depois de bloquearem a passagem dos veículos militares, os soldados abriram fogo atingindo várias pessoas. Uma indígena de 42 anos, vendedora ambulante, morreu de imediato, e 15 pessoas ficaram feridas. Duas ambulâncias receberam autorização para atravessar a fronteira para transportar feridos para hospitais em Roraima, no Brasil, mas um dos feridos morreu.

Temia-se que a morte de civis às mãos de militares venezuelanos pudesse ser o rastilho que ateasse um incêndio incontrolável, na forma de um pretexto para uma intervenção armada mais alargada. O secretário-geral da ONU, António Guterres, deixou apelos para que se evitem episódios de violência este sábado e pediu que a ajuda humanitária seja “despolitizada”.

Mas a entrega de ajuda humanitária transformou-se na primeira arena para o confronto institucional entre as duas legitimidades que concorrem entre si desde que Guaidó se proclamou como Presidente interino, há precisamente um mês. O estado de polarização a que a disputa entre os dois campos chegou impossibilita qualquer hipótese de conciliação e os acontecimentos de sábado só podem indicar um vencedor.

Três cenários

O colunista da Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi, apresentava três cenários para este sábado num texto chamado "E se Guaidó fracassar no sábado": o bloqueio total da ajuda, que deixaria Guaidó derrotado; a entrada dos mantimentos, que iria significar uma derrota de Maduro por representar a perda do “respaldo do único sector com que conta para manter-se no poder", os militares; e, finalmente, a entrada de ajuda, mas com a distribuição a ser apropriada pelo regime, algo que até poderia render pontos a Maduro.

Na última semana, o líder venezuelano reforçou a militarização das fronteiras, enviando vários contingentes de efectivos para assegurar que os camiões com ajuda humanitária não entram em território nacional. As operações de vigilância nas muito porosas regiões fronteiriças – tal como a que acabou por degenerar em violência – tornaram-se mais frequentes, aprofundando a atmosfera de tensão.

“Não acredito que os militares deixem entrar a ajuda e penso que vai haver outro conflito”, dizia à Reuters Eduardo Bustillos, um venezuelano que chegou a Cúcuta, na Colômbia, no início de Fevereiro. “Estou tão preocupado porque a minha família continua lá”, acrescentou. Carolina Guzmán, dona de um restaurante na mesma cidade, disse esperar que a ajuda possa ser enviada para o país vizinho para que tudo “regresse ao normal”. “Toda a gente está nervosa por causa do que se vai passar”, afirma. Durante a madrugada, um autocarro onde seguia um grupo de deputados da oposição que se dirigiam para a Colômbia tinha sido atacado com pedras.

À ponte de Las Tienditas, que liga os dois países, foram soldados três grandes contentores para impedir a passagem dos camiões com alimentos e medicamentos armazenados em Cúcuta. Na quinta-feira, Maduro anunciou o encerramento da fronteira com o Brasil, uma das medidas mais duras à sua disposição para impedir a entrada de ajuda humanitária. Ao mesmo tempo deixou pairar a hipótese de fazer o mesmo na fronteira Norte, com a Colômbia, porém, a fronteira mantém-se aberta.

A economia da região fronteiriça com a Colômbia, ao contrário do que acontece mais a Sul com o Brasil, depende em grande escala do pequeno comércio entre os dois países. A fronteira é atravessada diariamente por milhares de pessoas, explica o El País, e qualquer tentativa de a encerrar seria muito mal recebida pela população local, mesmo entre aqueles que se mantêm fiéis a Maduro. “Há receio de que ordenem o fecho da fronteira, e aí iria haver motins”, disse ao El País Lilia Pérez, uma venezuelana a viver actualmente na Colômbia.

Dois concertos

O grande teste chega este sábado, a data indicada por Guaidó como o dia em que a ajuda humanitária irá entrar na Venezuela, precisamente quando se assinala um mês desde que assumiu a presidência interina, encabeçando a ameaça mais credível ao poder do “chavismo”. Mas continuam a ser mais as dúvidas do que as certezas quanto ao que se pode passar nas próximas horas.

O plano revelado nos últimos dias por Guaidó é pouco específico quanto à forma como a oposição pretende contornar o bloqueio das Forças Armadas venezuelanas. Não se sabe sequer se o líder oposicionista irá arriscar atravessar a fronteira, desafiando a ordem do Tribunal Superior de Justiça que o impede de abandonar o país. A estratégia de Guaidó passou pela mobilização de um milhão de voluntários para ajudar na distribuição dos mantimentos, mas assenta sobretudo na convicção de que, na hora da verdade, os militares irão recuar.

“Decidam de que lado estão na hora definitiva”, escreveu Guaidó numa mensagem publicada no Twitter, dirigindo-se às chefias militares. "Entre hoje e amanhã vocês definirão como querem ser lembrados.”

Junto à ponte de Las Tienditas, que se tornou o símbolo da guerra de fronteiras em curso, a sexta-feira foi passada num conjunto de concertos organizados pelo multimilionário e filantropo Richard Branson, nos moldes do Live Aid, que nos anos 1980 serviu para chamar a atenção para a fome na Etiópia. O concerto inaugural coube a Reymar Perdomo, uma cantora venezuelana imigrante, que se notabilizou depois de interpretar uma música cujo vídeo foi visto por quase dois milhões de pessoas no YouTube e se tornou num dos símbolos do êxodo dos venezuelanos. “Onde está a gente cuja alma, tal como a minha, se partiu ao sair da sua terra?”, questionou a artista, dando início ao festival.

Mais de cem mil pessoas, grande parte venezuelanos imigrados na Colômbia, assistiram ao concerto, com a convicção de que no dia seguinte iriam atravessar a fronteira para distribuir ajuda humanitária. “Estou à espera das ordens do nosso Presidente, Juan Guaidó”, disse ao El País Maryoris Aguilar, uma venezuelana que mora na Colômbia há mais de dois anos. Aos concertos assistiram também os Presidentes da Colômbia, Iván Duque, do Chile, Sebastián Piñera, e do Paraguai, Mario Abdo.

O Partido Socialista Unido da Venezuela decidiu responder à oposição e convocou um concerto para o lado oposto da fronteira, com o lema “Tirem as mãos da Venezuela”, embora tenha tido uma participação consideravelmente mais reduzida.

Em Caracas, e no dia em que o general na reserva Hugo Carvajal, que foi chefe da secreta militar de Hugo Chávez, deu o seu apoio a Guaidó, Maduro fez um longo discurso. Falou às chefias militares para garantir a prontidão das Forças Armadas, que estão “activadas no território nacional”. “Máxima moral, máxima união, máxima acção”, pediu o Presidente venezuelano, numa mensagem publicada no Twitter.