PS e PSD acusam-se mutuamente de culpas pela pobreza do país

Os socialistas marcaram debate sobre a pobreza para mostrar que o país está mais rico, embora admitam que ainda "há trabalho" a fazer. Mas não trouxeram qualquer proposta para combater os altos níveis de pobreza que existem, sobretudo na infância e na velhice.

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NFS - Nuno Ferreira Santos

Portugal continua a ser um dos países com maior índice de pobreza a União Europeia e precisa de políticas estruturais que a combatam. Nisso estão todos de acordo. E até estão de acordo que nos últimos anos houve melhorias. No que divergem a cada frase é no resto: de quem é a culpa. O PS diz que é da direita, esta replica que tirou o país da bancarrota em que os socialistas o deixaram; Bloco e PCP atiram a responsabilidade para o PS mas também para a direita, chamam a si alguns louros por medidas que aumentaram os rendimentos dos portugueses e pedem mais.

Este é o trailer do filme do debate desta quarta-feira à Parlamento sobre “combate à pobreza e desigualdade – uma prioridade social” marcado pelos socialistas. A bancada do Governo ficou vazia e o PS também não levou qualquer proposta ou anúncio para fazer. Preferiu elencar o que tem sido feito pelo Executivo e pela Assembleia da República nestes quase três anos e meio de legislatura.

A socialista Wanda Guimarães subiu à tribuna para criticar o “quadro deprimente” do país depois da governação de Pedro Passos Coelho e elogiar o trabalho “inimaginável” conseguido pelo actual Governo que, disse, “trata bem das pessoas, lhe devolveu confiança e horizontes”, tornou o país “mais inclusivo, mais igual e em que se vive melhor”. Falou da recuperação do emprego, da redução da pobreza e do aumento de rendimentos com muitos números, mas admitiu que ainda “há muito trabalho a fazer”.

O bloquista José Soeiro, tal como fez mais tarde a comunista Rita Rato, lembrou o “contraste com o Governo da troika”, mas puxou para o seu partido a responsabilidade por medidas de recuperação de rendimentos – algo que, vincou a comunista, foi fundamental para retirar muitos portugueses da pobreza. Considerou que a existência, ainda, de 1,7 milhões de pessoas a viver em situação de pobreza “tem que nos ofender a todos”. E quis saber se o PS acompanha o Bloco nas propostas da obrigatoriedade de avaliar o impacto das leis e das políticas públicas na redução da pobreza, no alargamento das condições de acesso ao complemento solidário para idosos e na estratégia para as pessoas sem-abrigo. Wanda Guimarães prometeu analisar essa propostas e tentar fazer “projectos equilibrados”.

O centrista Filipe Anacoreta Correia criticou o “exercício um pouco deprimente” do PS por fazer a comparação entre o país de hoje e o de 2013, com a troika, o que significa que “está voltado para o passado e não tem visão para o futuro”. E também a falta de propostas, nomeadamente para o Estatuto do Cuidador Informal, de que o CDS apresentou a sua proposta hoje em conferência de imprensa. Wanda Guimarães replicou que o é “deprimente é o CDS tentar aproveitar-se de um tema caro” como o da pobreza e do cuidador para fazer figura quando o Governo também já apresentou a sua proposta.

O vice-presidente da bancada do PSD lembrou-se de comparar a actual “exaltação” do PS com os números com a que ouvia a José Sócrates em 2010 e um ano depois foi precisa ajuda externa. E disse que hoje há “milhões de portugueses” com trabalho precário, sem transportes públicos de qualidade, que não recebem reformas a tempo e esperam anos por consultas no SNS, e estudantes universitários sem acesso a residências. “É um Governo que tem muito foguetório mas no fundo não resolve os problemas dos portugueses.” A deputada socialista contrariou a imagem do caos e defendeu: “Temos um país escorreito e a funcionar.”

Da comunista Rita Rato veio um ataque feroz ao PSD, lembrando que Passos Coelho defendia que “o país só saía da crise empobrecendo” e que com o anterior Governo Portugal “atingiu níveis de pobreza nunca vistos desde o fascismo”. Mas atirou-se também o PS por este se juntar à direita a chumbar propostas como o aumento do salário mínimo para 650 euros – “alguma família consegue viver com 600 euros por mês?” -, por não ajudar a uma maior distribuição da riqueza e impedir mais direitos aos trabalhadores. Essa é, apontou, a causa estrutural da pobreza. Um por cento da população concentra 25% do rendimento, e 5% tem 50% dos rendimentos de todo o país. Wanda Guimarães não gostou do ataque nem dos auto-elogios do PCP e garantiu que “o PS cá estará para defender os trabalhadores” e se não fosse o PS “não havia aumento dos salários nem PREVPAP nem coisa nenhuma”. “Foi com a vossa ajuda, mas o Governo é do PS”, avisou.

À ecologista Heloísa Apolónia, que condenou a opção do Governo “por um défice mais baixo em vez de dar melhores condições de vida aos portugueses”, a deputada do PS reiterou que se está “no caminho certo”.

Do PSD, pela voz de Clara Marques Mendes, os socialistas haveriam de ouvir a admissão de que o “risco de pobreza tem vindo a decrescer desde 2014” e que o país “até está a crescer à boleia da Europa”, mas “ainda é pouco”. A que se somam as crescentes dificuldades na saúde, o aumento da carga fiscal. A social-democrata Joana Barata Lopes desferiu duras críticas ao PS, que “passa metade do tempo a culpar o passado que começa e acaba no Governo anterior e a outra metade a dar palmadinhas nas próprias costas”, esquecido da “vã glória” de Sócrates, António Costa, Vieira da Silva e Pedro Marques que deixaram o país na bancarrota.

Desfiou uma lista de problemas no país, sobretudo promessas por cumprir do PS, dos hospitais ao risco de falência de IPSS, à falta de funcionários públicos e episódios de falhanço do Estado, como as mortes nos incêndios, helicópteros que caem, armas roubadas, comboios que perdem motores em andamento. E até falou dos Açores, região de que Carlos César foi presidente 16 anos e mantém os mesmos níveis de pobreza.

Foi a socialista Elza Pais que veio defender César, sentado duas cadeiras ao lado. “Só pode falar de pobreza nos Açores hoje quem não conheceu a situação de catástrofe social que havia naquela região há 20 anos”. Falou da governação de Passos Coelho que, com a troika, levou a pobreza a níveis históricos e acusou o PSD de ter memória curta. “Foram os senhores que entregaram o país à troika e negociaram as medidas. Não temos vergonha; temos orgulho porque tirámos o país da bancarrota. Porque os portugueses precisavam que alguém o fizesse”, replicou a deputada do PSD.

O socialista Luís Soares haveria de rematar o debate admitindo que “há um mundo que separa a direita da esquerda”, acusar o PSD de ser um “vazio de ideias” e de só saber “andar para trás”, e defender que o combate à pobreza “faz-se na cabeça” de cada deputado.