Na Procalçado só entra vegan e energia renovável

Há 20 anos, calçado ainda era sinónimo de poluição, exploração animal e consumo intensivo. Mas esta empresa do Norte tem agora selo PETA e é um exemplo de como as coisas mudaram.

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Lemon Jelly é uma das três marcas desta empresa Nelson Garrido
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José Ferreira Pinto é o fundador da PROCALÇADO Nelson Garrido
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A empresa reduziu o consumo de electricidade a energia de fontes renováveis Nelson Garrido
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Os resíduos são todos aproveitados para fazer novos produtos Nelson Garrido
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A empresa é um dos maiores produtores europeus de componentes e de calçado moldado Nelson Garrido
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Dona de três marcas (For Ever, Wock e Lemon Jelly), a Procalçado é um dos rostos da renovação da indústria portuguesa de calçado. Há inúmeros rostos desta mudança, tanto na inovação produtiva como é exemplo a AMF Shoes, como também na criação de marcas ou sustentabilidade, como é exemplo a Zouri. Mas talvez poucos são os casos em que a inovação abrangeu tantas áreas diversas e se concentrou numa só empresa, como é o caso desta que nasceu em 1973, pela mão de José Ferreira Pinto, com sede em Gaia.

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José Ferreira Pinto, fundador da empresa, passou a gestão da empresa para o filho Nelson Garrido

É um dos maiores produtores europeus de componentes para calçado e calçado moldado, que nos últimos anos se notabilizou por lançar duas marcas de calçado injectado, a Wock (para o mercado profissional, e que provavelmente já terá visto a ser usada por profissionais de saúde, por exemplo) e a Lemon Jelly, que se concentrou no mercado de moda.

Mas esta forma de a empresa resumir a sua própria história acaba por esconder aquilo que, no contexto actual, a distingue dos concorrentes que exploram os mesmos segmentos ou disputam os mesmos mercados. Trata-se do projecto de sustentabilidade que nos últimos anos tem vindo a ser desenvolvido e que permite a esta empresa nortenha chegar a 2019 com uma produção 100% alimentada por energia de fontes renováveis.

Tipicamente, segundo dados oficiais, a factura de energia tem pouca expressão na indústria do calçado, com custos que representam 0,5% da facturação de uma empresa. Porém, as contas do Centro Tecnológico do Calçado mostram também que esse custo salta para os 3% a 4% do volume de vendas no caso de empresas que utilizam o método de injecção, como é o caso desta empresa.

Isto mostra que a decisão tomada pela administração, hoje liderada pelo filho do fundador, de instalar 900 painéis fotovoltaicos na sede em Gaia e, sobretudo, de renegociar os contratos de energia de modo a garantir que a electricidade que vem dos fornecedores tem origem renovável, não foi um capricho nem uma questão de marketing, para ter algo de positivo para escrever no relatório de sustentabilidade.

Ali, em Gaia, onde se trabalha todo o dia, em três turnos (a maioria da indústria tem apenas um turno), este esforço traduziu-se numa redução imediata do consumo (cerca de 10% segundo diz ao PÚBLICO Helena Ferreira) e, por isso mesmo, dos custos com energia.

Consistente com esta linha de preocupações ambientais e de eficiência, a Procalçado adoptou também uma política de resíduos zero numa linha de produtos que baptizou Wasteless. Em todos os processos produtivos, e especialmente na produção de sapatos de alta qualidade, os resíduos são inevitáveis, dizem os responsáveis da empresa.

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Na linha Wasteless da Lemon Jelly garante-se que todos os resíduos foram reaproveitados para fazer produtos novos Nelson Garrido

"Quando nos apercebemos da quantidade de resíduos que produzíamos, pensámos que tínhamos de fazer alguma coisa", diz Nina Marcolini. Por isso, desenvolveram um método de reaproveitar todos os resíduos para a criação de novos produtos, com capacidade de identificar o destino de cada resíduo.

Esta produção, com 100% de plástico reciclado, 0% de resíduos e com 90% menos emissões de CO2, é o exemplo perfeito da mutação de um sector que, há duas décadas ainda era visto como grande poluidor, centrado na exploração de produtos de origem animal e consumidor intensivo de recursos ambientais e de mão-de-obra.

Mas essa imagem está necessariamente a mudar com empresas como esta que, aliás, se assume como vegan, porque abdicou das matérias-primas de origem animal. Isso mesmo é atestado pelo selo de garantia concedido pela PETA, a maior organização mundial de defesa dos animais e que, com 6,5 milhões de euros, tem dinheiro para mobilizar protestos mediáticos contra empresas que usam produtos animais.

No rol de acções estão boicotes as empresas de moda que usam peles no fabrico ou até a compra de acções de grandes retalhistas, como é o caso da Farfetch, ou produtores de roupa, para tentar influenciar essas empresas a abandonar a venda ou produção de artigos em pele.

O selo outorgado pela PETA à Procalçado é um certificado de garantia para os consumidores que partilham as preocupações deste género.