Como a oposição venezuelana renasceu das cinzas

A oposição venezuelana conseguiu encher um novo balão de oxigénio e abala por estes dias o regime chavista. Isto é fruto de mais de um ano de planeamento, com papel activo de figuras que estavam dadas como desaparecidas.

Fotogaleria
Leopoldo López, quando saiu da prisão, em 2017, para cumprir pena em prisão domiciliária Andres Martinez Casares/REUTERS
Fotogaleria
Juan Guaidó foi escolhido a dedo por Leopoldo López Miguel Gutiérrez/EPA

A proclamação de Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela e as movimentações da oposição que têm abalado o regime liderado por Nicolás Maduro nos últimos dias surpreenderam muitos. Mas isto é fruto de meses em que os opositores ao chavismo tentaram reunir os cacos em que a oposição se tinha transformado e em que se procurou envolver de forma mais firme os parceiros internacionais.

Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional, passou do anonimato quase absoluto para o centro da crise política na Venezuela de um dia para o outro. Ainda que seja, neste momento, a personificação do combate ao chavismo, há outras figuras que, nos bastidores, tornaram possível este novo balão de oxigénio da oposição.

Um desses casos é Leopoldo López, do partido Vontade Popular, que é também o de Guaidó, que chegou a ser visto como uma espécie de Nelson Mandela venezuelano e que criou fortes dores de cabeça a Maduro e a Hugo Chávez. Outro é o de Julio Borges, do partido Primeiro Justiça e antigo presidente da Assembleia Nacional.

Alguns jornais, como os espanhóis El País e El Mundo, contactaram várias fontes ligadas a este processo que desvendam o esquema que possibilitou uma unidade quase inédita numa oposição que viveu permanentemente fragmentada. Explicam que Borges, actualmente exilado na capital colombiana de Bogotá, dirigiu os contactos internacionais, e López, que está em prisão domiciliária desde 2017, ficou responsável pela estratégia política interna.

Mártir e herói

O exemplo de López é paradigmático. Mobilizou intensos protestos contra o regime chavista em 2014, que geraram violência, mortos e centenas de detenções. Foi condenado a 13 anos anos de prisão em 2015, por participação e instigação à violência nas manifestações do ano anterior, nas quais morreram 43 pessoas e centenas de outras ficaram feridas. O que contribuiu para que se tornasse no preso político mais proeminente da América Latina e o seu nome e ideais ecoaram um pouco por todo o mundo.

O condão dessas manifestações não se desfez até, pelo menos, 2017, onde se assistiu a mais uma vaga de protestos. López era a grande figura que os críticos de Maduro seguiam. Algumas sondagens indicavam até que podia derrotar o sucessor de Chávez numas eleições que cumprissem com os requisitos democráticos. Antes, em 2009, já tinha fundado o Vontade Popular, ainda durante a presidência de Hugo Chávez.

Pelo meio, em 2015, a oposição, reunida na coligação Mesa da Unidade Democrática (MUD) conquistou a maioria na Assembleia Nacional. Derrota que nunca foi digerida por Maduro, que acabou por esvaziar os seus poderes, considerando-a em “desacato”, criando a Assembleia Constituinte, formada por deputados ligados ao chavismo.

Durante os três anos e meio que passou na prisão de Ramo Verde, e apesar de ter sido proibido de falar com o exterior, López não perdeu a sua aura de mártir político e falava à população através da família. E, por isso, a tentativa do regime em cortar o mal que o abalava pela raiz, não estava a resultar.

Em 2017 foi então posto em prisão domiciliária. Mas, na semana anterior ao regresso a casa algo mudou. Como recorda o El Mundo, “López nunca quis falar do que lhe fizeram nessa semana”. O mesmo jornal cita Antonio Ledezma, antigo presidente da área metropolitana de Caracas, que foi também detido mas que acabou por fugir para a Colômbia, que garante que López “foi torturado”. “Duramente”, acrescenta.

Desde que foi para casa até hoje, só falou publicamente uma vez, ao New York Times, em Março do ano passado. Aquela figura em ascensão, que abalou os alicerces do regime socialista bolivariano inaugurado em 1999, parecia ter desaparecido. Estava em silêncio quase absoluto e os seus mais fiéis seguidores não foram escondendo a desilusão. Com ele, também a oposição se foi desmebrando, com várias das suas outras figuras a serem detidas ou a partirem para o exílio.

Do Sakharov ao renascimento

Em 2016, a oposição, então liderada por Borges, ainda iniciou conversações com Maduro, que decorreram na República Dominicana, e mediadas pelo ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Zapatero. Ainda se chegou a um princípio de acordo, mas Borges rejeitou-o. E as divisões na oposição fizeram-se sentir mais uma vez, pois havia uma ala que queria fechar o entendimento.

Até que, claramente dividia e fragilizada, a oposição boicotou as últimas presidenciais, que deram a vitória a Maduro, depois de a maioria dos partidos e políticos da oposição ter sido proibida de concorrer. Os resultados, que deram a vitória a Maduro - depois de um político da oposição ter aceite candidatar-se contra ele, se não apresentar-se-ia a votos sozinho - não é reconhecida por grande parte da comunidade internacional.

A oposição estava feita em cacos. Pelo menos na aparência. Esta rede silenciosa espalhada por vários cantos do mundo começou a unir-se novamente. Carlos Vecchio, um dos fundadores da Vontade Popular, exilou-se nos EUA. Foi agora nomeado por Guaidó como representante da Venezuela neste país, e contribuiu para que os contactos com Washington – onde está também em exílio David Smolansky, outro membro do partido de López – se reforçassem. Antonio Ledezma está em Madrid e pôs no tabuleiro o Governo espanhol.

Este relançamento discreto da oposição fez com que Borges e Freddy Guevara, que foi vice-presidente da Assembleia Nacional, se reunissem, em Setembro de 2017, com Emmanuel Macron, Angela Merkel, Theresa May e Mariano Rajoy. As portas começavam a abrir-se na frente internacional.

O primeiro sinal latente chegou do Parlamento Europeu, quando, em Outubro do mesmo ano, atribuiu o Prémio Sakharov à oposição venezuelana.

Os olhos do mundo estavam a virar-se novamente para a Venezuela. Até que grande parte da comunidade internacional se recusou a reconhecer a legitimidade da vitória de Maduro nas presidenciais do ano passado.

Estava finalmente aberta uma janela de oportunidade para lançar para o terreno as movimentações de bastidores que duravam há mais de um ano.

Desde os protestos de 2017 que emergia uma nova geração de opositores que não se resignavam com a aparente destruição da oposição. Um deles era Juan Guaidó. Este chegou à presidência da Assembleia Nacional através de um pacto estabelecido, depois das eleições de 2015, segundo o qual a presidência do Parlamento rodava anualmente: depois de Henry Ramos Allup (do partido Acção Democrática) Julio Borges, Omar Barboza (do partido Um Novo Tempo), chegou a vez de Juan Guaidó.

Via constitucional

Um político jovem, com 35 anos, e desconhecido. Ideal para representar a nova vida da oposição. Quase de imediato, várias figuras que mobilizaram a luta contra o chavismo anteriormente, mas que foram perdendo o seu espaço, cerraram fileiras à  volta de Guaidó – incluindo Henrique Capriles, fundador do Primeiro Justiça, que se opôs a Hugo Chávez nas eleições em 2012 e a Maduro nas presidenciais no ano seguinte, e que desde então se afastou da vida política venezuelana. A Guaidó juntaram-se também países como os EUA, Canadá e a grande maioria dos países da América Latina. Com Maduro estão a China, Rússia, Turquia, México ou a Bolívia.

Internamente, López foi procurando reunir os partidos opositores a Maduro. Funcionando como cérebro político deste novo movimento, López defendeu sempre uma estratégia que passasse por derrubar o chavismo sem romper com a constitucionalidade. E conseguiu-o, apesar de existirem alas que defendiam manobras mais drásticas, como, por exemplo, uma intervenção militar norte-americana. “Uma obra de engenharia política”, descreve o El Mundo.

Prevaleceu a visão de López. E, por isso, aproveitando o facto de vários países e instituições internacionais não reconhecerem a legitimidade de Maduro e atestarem a da Assembleia Nacional, Guaidó foi proclamado Presidente interino com a Constituição venezuelana na mão. Porque é aí onde se apoia. Sem Presidente eleito, é a segunda figura do Estado a ocupar o cargo de forma interina até que sejam marcadas novas eleições. Falta atrair o apoio das Forças Armadas, consideradas uma peça-chave para o desenlace, que se mantêm ao lado de Maduro.

Sugerir correcção