Opositor venezuelano Leopoldo López passa para prisão domiciliária

"Se manter o compromisso de conseguir a liberdade do nosso país significar voltar para uma cela de Ramo Verde, estou mais do que disposto a isso", disse já em casa.

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O carro que transportou o opositor a chegar à casa deste Reuters

O Governo venezuelano tirou da cadeia o preso político Leopoldo López, um dos principais líderes da oposição ao regime socialista bolivariano, e enviou-o para casa em regime de prisão domiciliária. A decisão, anunciada na madrugada deste sábado no site do Supremo Tribunal, clarifica que "devido a informação recebida sobre a sua saúde" foi decidido conceder-lhe uma "medida humanitária".

"Este é um passo para a liberdade. Não tenho ressentimento algum nem vontade de ceder", disse já em casa, onde dezenas de amigos e apoiantes se juntaram.

López foi recolhido às quatro da manhã na prisão militar de Ramo Verde, nos arredores de Caracas, por elementos os serviços secretos, e levado para a sua casa na capital.

Esta mudança ocorre quando, nas ruas, sobe de tom a contestação ao Presidente Nicolás Maduro — as manifestações e marchas de protesto duram há três meses, 89 pessoas morreram, algumas militares mas a maioria civis. No último mês, a população dos bairros mais carenciados juntou-se aos manifestantes da classe média e média alta, que foram os primeiros a sair à rua para exigir a saída de Maduro, a marcação das eleições presidenciais e a realização das autárquicas que deveriam ter tido lugar no final do ano passado mas foram canceladas — segundo a oposição, porque o partido Partido Socialista Unido da Venezuela, no poder, receia perder ainda mais terreno depois de ter perdido a maioria no Parlamento. A população acusa a gestão de Maduro pela grave crise económica do país.

Para retomar o controlo do país, Maduro, que tentou invalidar o Parlamento mas não conseguiu, anunciou uma profunda revisão na Constituição. A Assembleia Constituinte deverá ser eleita no final de Julho e os vários partidos da oposição, unidos na coligação Mesa de Unidade Nacional, querem impedi-la.

López chega a casa, com pulseira electrónica, neste contexto. Um dos seus advogados disse que pode, agora, retomar a liderança da oposição — lugar que partilha com Henrique Capriles, do partido Primeiro Justiça. 

Leopoldo López, de 47 anos, foi condenado em 2015 a 13 anos e nove meses de prisão ao ser considerado culpado de instigar as manifestações de 2014, em que morreram 43 pessoas. Há mais de 90 dias que estava impedido de falar com os seus advogados e os últimos 32 passou-os em regime de solitária, escreve o El País.

O uruguaio Luis Almagro, secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), disse que a prisão domiciliária é apenas um passo e exigiu a libertação de todos os presos políticos da Venezuela.

A OEA, o Papa Francisco, os presidentes dos Estados Unidos (Donald Trump), do México (Enrique Peña Nieto), do Canadá (Justin Trudeau), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Parlamento Europeu, a Human Rights Watch e outras organizações pediram a sua libertação.

Através de mensagens que, nos primeiros tempos de prisão, enviou através da mulher, Lilian Tintori, López tinha dito que só aceitaria ser libertado quando os outros presos políticos saíssem da prisão. Os seus advogados disseram ao El País que não aceitou qualquer condição para sair da prisão.

"Estamos a lutar pela liberdade de todos os presos políticos, mas o mais importante é a liberdade do povo venezuelano e se manter esse compromisso significar voltar para uma cela de Ramo Verde, estou mais do que disposto a isso. Reitero a todo o povo da Venezuela o meu compromisso de lutar até conseguir a liberdade do nosso país", disse, citado pelo El Mundo.

A saída da prisão estava a ser negociada há meses entre López e o Governo venezuelano, com enviados deste a chegarem a Ramo Verde com alguma frequência — diz o El País que o ex-presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, assistiu a algumas conversas entre os emissários de Maduro e López.

Em Maio circulou a notícia da sua morte, depois de ter sido ouvido na prisão a gritar que estava a ser torturado na sua cela. O Governo foi obrigado a divulgar uma "prova de vida", um vídeo em que o opositor aparecia vivo e bem tratado. Tintori, porém, disse que o marido estava debilitado.

Em Junho quase houve acordo, mas o opositor recusou sair da prisão. Nessa altura, a contestação voltara a subir devido ao anúncio da Assembleia Constituinte e López receou que, ao ir para casa nesse momento, passasse a ideia de que capitulara perante as decisões de Caracas.