Entrevista

“A alimentação é crucial para a saúde”

Magda Roma é nutricionista e desafia os doentes com cancro a mudar o seu estilo de vida. Isso passa não só por ter cuidados com a alimentação mas também por gerir as emoções, recomenda.

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A nutricionista especializou-se em alimentação de base vegetal DR

Magda Roma é nutricionista há 14 anos e nos últimos cinco tem dedicado a sua atenção aos doentes com cancro. Em 2014 escreveu A Dieta Anticancro: um plano de nutrição infalível para viver mais e melhor; e nesta quinta-feira lançou, em Lisboa, o livro 5 Mudanças: antes, durante e depois do cancro, editado pela Oficina do Livro. As cinco mudanças propostas passam por alterações na alimentação, propondo uma dieta mais variada e equilibrada, recorrendo sobretudo a alimentos de origem vegetal – a autora estudou, online, alimentação de base vegetal na Universidade de Cornell e no Vegetarian Health Institute, duas escolas sediadas nos EUA. Outras das mudanças são: a gestão das emoções, a prática de actividade física, aprender a respirar e recorrer a terapias complementares. 

PÚBLICO -
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Neste âmbito tem no seu livro capítulos escritos por Roni Moya e Sadhna Monteiro. O primeiro é biomédico; a segunda é psicóloga. “Ainda menosprezamos muito as nossas emoções e a sua gestão. Achamos que as esquecemos não falando do que nos deixa tristes, magoados ou até frustrados, mas não é bem assim”, justifica assim a nutricionista a escolha destes especialistas.

Anualmente, Magda Roma promove seminários sobre o cancro, em Lisboa e no Funchal, as cidades onde dá consultas. Também as faz pela Internet. O próximo encontro será no domingo, em Lisboa. “Além deste seminário, organizo com frequência workshops showcookings para ajudar a aumentar a consciência corporal e também a tornar a cozinha divertida, saborosa e saudável.”    

PÚBLICO: No seu livro escreve que as terapias não são responsáveis pela cura do cancro, mas que ajudam. Que terapias complementares sugere?
Magda Roma: As terapias que sugiro que sejam feitas passam pela alteração do comportamento ou do estilo de vida, pois foi esse estilo ou comportamento que contribuíram para mais de 70% do desenvolvimento do cancro, sendo estas as percentagens do World Cancer Research Fund Internacional​ (WCRF), departamento pertencente à Organização Mundial da Saúde (OMS). Passa por aumentar o consumo de alimentos de base vegetal, estimular a prática de exercício físico, aumentar a consciência corporal quanto à importância da respiração, eventualmente suplementar ou realizar algum tratamento do foro do estímulo do sistema imunitário, quando a alimentação, quando pela via natural, não é suficiente. E passa ainda pela gestão das emoções, que muitas vezes é desprezada neste processo, quer na prevenção quer mesmo no acompanhamento do doente oncológico.

Recentemente, as ordens dos Médicos portuguesa e espanhola juntaram-se num comunicado em que alertam para o recurso dos doentes a terapias alternativas. Como olha para esta preocupação dos médicos?
Devemos sempre procurar profissionais de saúde de terapias alternativas credenciados, pois estes têm formação nas suas áreas e foram reconhecidos. Não vemos apenas terapeutas não credenciados nas terapias alternativas, também nas medicinas convencionais ouvimos, de vez em quando, situações caricatas. Creio que o que leva as ordens a tomar essa posição é a falta de conhecimento sobre os efeitos das terapias. No entanto, todos temos o nosso lugar e, se trabalhamos em benefício do ser humano, devemos confiar e informar, em lugar de julgar e desacreditar.

Deveria haver um maior relacionamento entre a medicina convencional e essas terapias? Existe um preconceito em relação a estas?
Sem dúvida, trabalhar em conjunto traria benefícios para os doentes. Não creio que haja preconceito, o que penso é que há desconhecimento. 

Quem recorre a terapias complementares é porque não confia na medicina tradicional?
Não creio. Quem recorre a terapias complementares é porque a medicina tradicional não consegue dar a resposta que as pessoas procuram. Além disso, os bons profissionais de terapias complementares olham para o corpo como um todo e não por partes; logo, não aplicam terapias que possam prejudicar um outro órgão para beneficiar o que manifesta a patologia. Não estou com isso a dizer que a medicina tradicional o faz, mas sabemos que os medicamentos têm efeitos secundários. Por exemplo, a maioria das pessoas refere que quando toma um antibiótico tem episódios de diarreia. Se por um lado o antibiótico irá auxiliar no tratamento da patologia para o qual foi prescrito, por outro desregula o trânsito intestinal e prejudica o equilíbrio do organismo.

Como é a relação entre os médicos e os nutricionistas? No seu caso pessoal, recebe doentes enviados pelos médicos?
Em relação ao cancro, são poucos os médicos que me reencaminham doentes, mas quando o paciente partilha com o seu médico que me consultou, aquele reconhece o meu trabalho. No que concerne a outras áreas como as do foro gastrointestinal, vegetarianismo, ginecologia, obstetrícia e pediatria, recebo doentes com muita regularidade.

A falta de conhecimentos em nutrição é uma falha dos cursos de Medicina?
Claro que sim. Se não o fosse, não haveria tanta resistência em aconselhar um nutricionista para as mais variadas patologias. Todos os nossos órgãos, tecidos e sistemas se nutrem do que os alimentos lhes fornecem. Nutrem-se de vitaminas, minerais, proteínas, hidratos, gorduras, entre outros compostos que apenas e só com a alimentação entram no nosso corpo. Ora, se se dá a disfunção de um órgão, isto pode ser devido ao excesso ou à deficiência de nutrientes, e esse é o trabalho do nutricionista, nutrir o corpo.

Em Portugal, o nutricionista está muito associado ao emagrecimento. Agora também no desporto estamos a ter mais presença, mas continuamos a não ter um lugar tão presente ao lado dos médicos para a maioria das patologias. Talvez se houvesse maior conhecimento de nutrição, os médicos dar-lhe-iam maior importância e seguiriam o que o pai da medicina moderna [Hipócrates] afirmou: “Faça do seu alimento o seu remédio.”

No seu livro faz uma crítica aos doentes que não mudam as suas práticas alimentares. Por que é tão difícil essa mudança?
Mexer em comportamentos instalados numa sociedade e que nos são incutidos desde a nossa infância... Torna-se muito difícil aceitar que determinado alimento é melhor do que outro. A alimentação é um dos prazeres da vida e é aquele de que a maioria das pessoas não quer abdicar. Isso associado à falta de informação faz com que seja muitas vezes difícil as pessoas confiarem que a alimentação é crucial para a saúde.

Essa dificuldade deve-se ao facto de se sugerirem alimentos que por vezes são difíceis de encontrar nos mercados tradicionais e que as pessoas têm dificuldade em cozinhar?
Também, mas creio que o facto de as pessoas terem resistência é porque aprenderam daquela forma. Todos sabem comer fruta, cozer leguminosas, temperar uma boa carne ou um bom peixe, porque teriam dificuldade em temperar igualmente os alimentos de base vegetal?

Escreve também que o cancro pode ser reflexo de problemas emocionais. Isso significa que são as pessoas emocionalmente mais fracas que estão mais predispostas para a doença – esta ou outras?
Não há pessoas mais fracas ou mais fortes emocionalmente. Nós aprendemos muito na nossa vida, mas ninguém nos ensina a gerir uma emoção. A gestão das emoções é que faz a diferença. Por esse motivo, existem os psicólogos que, na minha opinião, também ainda estão a ganhar o seu lugar na sociedade, pois o senso comum associa o psicólogo apenas a problemas mentais, quando abordam mais do que isso.

Ao ler todas as contra-indicações que faz para todos os alimentos, incluindo os vegetais (a páginas tantas diz que cada um deveria ter a sua horta), pergunto: em seu entender, o que é que se pode comer com segurança?
Fazer uma alimentação de base vegetal é a orientação de várias entidades internacionais. Depois, levanta-se a questão dos agro-tóxicos e dos organismos geneticamente modificados (OGM). Preferencialmente, [devemos comer alimentos] de origem biológica certificada, que nos garante ter menor ou nula concentração de compostos químicos, mas se não pudermos obtê-los, por uma questão económica ou por não temos acesso a estes no local onde vivemos, devemos manter a base vegetal na mesma. Devemos consumir alimentos da época e preferencialmente locais.