"O diabo chegou e está no Serviço Nacional de Saúde", avisa o PSD

A uma semana de discutirem as propostas para a nova Lei de Bases da Saúde, esquerda e direita culparam-se mutuamente pelo estado de fragilidade do SNS.

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Paulo Pimenta

Dois anos e meio depois de o PSD começar a avisar que o diabo estava para chegar por causa da acção deste Governo, o partido diz que ele já “chegou e está no Serviço Nacional de Saúde”. Quem o afirmou nesta quarta-feira à tarde no Parlamento foi o deputado Ricardo Baptista Leite, durante as declarações políticas, que fez um retrato cinzento da situação “dramática” e de “falência" do SNS, "incapaz de responder às necessidades dos cidadãos”.

“Não há memória de uma situação tão grave como aquela que vivemos hoje na saúde”, apontou, citando casos recentes como o da Maternidade Alfredo da Costa, que teve que recusar a admissão de grávidas no Natal por falta de profissionais, ou do Hospital Dona Estefânia, onde os directores de serviço se demitiram em bloco. Casos que vêm somar-se a outros anúncios sucessivos de demissões de responsáveis hospitalares ao longo dos últimos dois anos.

“Todos se demitiram por terem esgotado a paciência perante as constantes promessas não cumpridas do Governo”, afirmou Ricardo Baptista Leite, fazendo depois uma listagem de promessas não cumpridas. Como o médico de família para todos, o fim das listas de espera, o aumento do investimento no SNS, a aprovação das carreiras profissionais, a inauguração da nova ala pediátrica oncológica do Hospital de São João.

“É impossível confiar neste Governo. E a degradação do serviço público prossegue”, disse o deputado, culpando o Governo e os partidos à sua esquerda por empurrarem os doentes para o sector privado ao não darem ao SNS os meios de que este necessita. Ricardo Baptista Leite exigiu que o executivo reconheça que “falhou” e que active um “plano de intervenção de emergência no SNS”.

A centrista Isabel Galriça Neto subscreveu todas as críticas do social-democrata de que a saúde dos portugueses “está pior” e afirmou que a esquerda demonstra “insensibilidade social perigosa” em relação ao estado do SNS, cuja “sustentabilidade e viabilidade” estão neste momento ameaçadas. A deputada criticou os “golpes teatrais” da esquerda que aprovou os orçamentos do Estado que permitiram que o SNS esteja num estado de abandono.

Os deputados Moisés Ferreira, do Bloco de Esquerda, e António Sales, do PS, agarraram na figura do diabo para devolver as responsabilidades ao PSD e dizer que o partido “não tem credibilidade” para falar do SNS depois do que fez durante o período da troika. Moisés Ferreira admitiu que há ainda muito por fazer, mas não será com a Lei de Bases da Saúde proposta pelo PSD que os problemas se resolvem, avisou.

Já António Sales puxou da ironia: disse que o PSD “continua preso à vinda do diabo” e que “precisa de uma sessão de exorcismo – provavelmente será amanhã ao fim do dia…”. O deputado socialista acusou Rui Rio de tentar “ludibriar os portugueses” e até desenhou um elogio a Luís Montenegro que, disse, “encara a dívida como despesa e investimento para os portugueses”.

E a deputada comunista Carla Cruz acusou o PSD de “tentar destruir o SNS” ao “descredibilizar e criar insegurança” sobre o sistema de saúde. A deputada desafiou o PSD a assumir plenamente as críticas que tem feito à falta de investimento do actual Governo e a votar a favor das propostas do PCP para o aumento do investimento nos hospitais, contratação de profissionais, gratuitidade do transporte de doentes não urgentes e abolição de taxas moderadoras.

Os deputados discutem na próxima semana as diversas propostas para a lei de bases da saúde, que se irão juntar para a discussão na especialidade à do Bloco, que desceu sem votação no final de Junho.