Se existem as salas, se existem as bandas, se existe público, que se lance a rede Super Nova

Três bandas em digressão conjunta por pequenas salas do país: a quinta edição do circuito Super Nova está prestes a arrancar. Esta sexta-feira, no Maus Hábitos, no Porto, partem para a corrida Black Bombaim, The Twist Connection e Moon Preachers

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Os Stone Dead no Maus Hábitos, em concerto integrado na edição 2018 da Super Nova PAULO PIMENTA

Se existem as salas, se existem as bandas, se existirá público, caso este saiba que as salas e as bandas existem, restará então reunir tudo isto de forma consistente, consequente. Assim pensaram os responsáveis pela Super Nova. Nasceu como conjunto de concertos no Maus Hábitos, no Porto, distribuídos ao longo do ano e agrupando três bandas emergentes por sessão, mas rapidamente se transformou em algo maior: durante um par de meses, três bandas partem em digressão por pequenas salas espalhadas pelo país.

“Decidimos criar um circuito baseado em duas premissas: criar uma rede de pequenas venues espalhada pelo continente e pelas ilhas, potenciando salas que não tinham programação regular, e escolher três bandas, transversais a todas as linguagens musicais, da nova música portuguesa”, explica Luís Salgado, programador e produtor do Maus Hábitos, músico que conhecemos enquanto Stereoboy. Assim passou a ser em 2017, assim continua a ser em 2019. Depois de digressões conjuntas de Parkinsons, Killimanjaro e Ermo, de Throes + The Shine, 10 000 Russos e Whales, de Stone Dead, Sunflowers e Scúrú Fitchadu e de Fugly, Cave Story e Baleia Baleia Baleia, chega a quinta edição do Circuito Super Nova: esta sexta-feira, na casa-mãe, o Maus Hábitos, Black Bombaim, The Twist Connection e Moon Preachers dão arranque à digressão que passará por Barcelos (Círculo Católico de Operários de Barcelos, 2 de Fevereiro), Évora (Sociedade Harmonia Eborense, 16 de Fevereiro), Leiria (Stereogun, 2 de Março), Torres Vedras (Bang Venue, 16 de Março) e Aveiro (GrETUA, 30 de Março).

Há alguns anos, quando Luís Salgado queria planear uma digressão para os seus Stereoboy, escolhia algumas bandas de que gostava e anotava o nome dos espaços em que actuavam. Depois, contactava esses mesmos espaços, para tentar marcar um conjunto de datas. A ideia das Super Nova passa por facilitar esse trabalho, tornando visível e disponível uma rede que já existia, mas “informalmente”, diz. “Faltava pôr essas salas em contacto umas com as outras para as potenciar e criar uma rede organizada.” Pretende-se assim apoiar a dinamização em curso fora dos grandes centros, estimulando a actividade dos promotores e a criação de massa crítica e novos públicos – “não incluímos Lisboa no circuito porque não há necessidade, as bandas já lá passam na maior parte das vezes”. Neste momento, estão integradas no circuito 12 salas – além das já citadas, também o Club de Vila Real, o Ginjal Terrace, em Cacilhas, o Bafo de Baco, em Loulé, o Arco 8, em Ponta Delgada, o Carmo 81, em Viseu, e o Salão Brazil, em Coimbra. “Agora estamos na fase de desbravar caminho e temos já um mapa que inclui 25 salas”, revela Luís Salgado.

As Super Nova são possíveis, nos termos em que se realizam, pelo patrocínio de uma grande marca, a Super Bock. A entrada nos concertos custa três euros, com oferta de duas cervejas, por exemplo (a primeira noite, no Maus Hábitos, é gratuita). Além disso, “as bandas têm condições que não teriam de outra forma”. Asseguram-se “hotel, refeições e um cachet como deve ser”. E os grupos actuam perante “salas cheias, porque a comunicação também é diferente de ter apenas as bandas a fazerem todo o esforço nas redes sociais”, explica Luís Salgado. Porém, a passagem das Super Nova tem oferecido às salas, garante o programador, algo mais duradouro do que uma noite com lotação esgotada. “Alavanca a programação. Faz com que o público associe uma boa experiência à sala e, quando isso se repete depois na programação própria, o público passa a associar a sala a boa música e a ganhar curiosidade por música nova. Está a acontecer aos bocadinhos”, explica. “Alguns espaços costumam dizer que têm uma fase antes das Super Nova e depois das Super Nova.”

Para deixar vincado o desejo de estimular encontros, parcerias e também o debate sobre o actual cenário musical português, a primeira data de cada nova Super Nova contempla, na tarde que antecede os concertos, uma Conversa de Bastidores para a qual são convidados promotores, músicos, jornalistas ou radialistas. Para a desta sexta-feira, às 18h, os convidados são Nélson Ferreira, radialista da SBSR FM, Mariana Duarte, jornalista da Time Out Porto e colaboradora do Ípsilon, Raquel Serra, da promotora/editora Maternidade, António Pedro Lopes, do festival micaelense Tremor, e José Roberto Gomes, músico dos Killimanjaro e dos Solar Corona – no futuro, Luís Salgado ambiciona organizar as conversas em todas as datas das Super Nova, convidando agentes locais para debaterem a sua realidade.

Horas depois do debate, às 22h, arrancará no Maus Hábitos a acção musical. Primeiro, os Moon Preachers, duo de garage intenso, acelerado a punk, que editou recentemente A Free Spirit Death. Depois deles, os conimbricenses Twist Connection, combo rock’n’roll de intensidade garantida e swing bem medido onde encontramos o vocalista/baterista Kaló (Tédio Boys, Bunnyranch, Parkinsons,Tiguana Bibles) e ao qual se juntou recentemente Raquel Ralha (WrayGunn, Belle Chase Hotel). Por fim, subirão a palco os barcelenses Black Bombaim, trio que, partindo do rock psicadélico, se tornou nome indispensável na música portuguesa recente, expandindo o seu universo através da associação a nomes como o saxofonista Peter Brötzmann, os conterrâneos La La La Ressonance ou os britânicos Gnod.

Ao final da noite, público saciado, bandas com material arrumado na carrinha, começarão a preparar-se as cinco datas seguintes. No final de Março, circuito Super Nova número 5 completado, um novo se anunciará, com outras bandas a percorrerem esta rede em construção.