Amor (e outras coisas) na tua sala

Stereoboy/Luís Salgado promove M em concertos em casas particulares. É tudo íntimo no projecto até o número de discos editados: 150 exemplares numerados
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Stereoboy/Luís Salgado promove M em concertos em casas particulares. É tudo íntimo no projecto até o número de discos editados: 150 exemplares numerados Miguel Manso

Um concerto na sala de estar. Um jantar na casa de um chef... Os consumos culturais andam em busca de mais intimidade? Precisamos de nos olhar nos olhos para tudo fazer sentido?

Cena 1 - Romeu encomendou um concerto

O concerto está marcado para as 19h30 no hostel Jardim de Santos, em Lisboa. Quando chegamos estão já pessoas na cozinha, onde Romeu Bastos prepara bebidas. Na meia hora seguinte vão chegando mais - apresentações, há quem se reconheça e quem nunca se tenha visto. Romeu é o responsável por esta reunião de meios desconhecidos, que vieram atraídos pela proposta: um concerto numa sala de estar. Chama-se Amor na Tua Sala.

Romeu tinha sabido pela Internet que o Stereoboy - Luís Salgado - andava a promover o seu álbum, M, de forma original, dando concertos na casa de quem o quisesse receber. Gostou da música, decidiu convidá-lo para um concerto em casa. Mas achou que a sua sala era pequena para todos os que gostaria de convidar, e propôs a umas amigas, proprietárias do hostel, receberem o Stereoboy.

Dali a pouco, com as bebidas na mão, os convidados arrumam-se na sala, nos sofás, em cadeiras, no chão. O material para o concerto do Stereoboy - que na verdade não é apenas o Luís, mas também o João Santos e a Íris, que canta - está já montado. À volta do microfone estão penduradas luzinhas de árvore de Natal. Os espectadores ajeitam-se nas almofadas, tentando não espetar o joelho no vizinho da frente.

Luís diz palavras de apresentação, explica que estas são canções de amor, e pede desculpa por estar de costas para alguns. Durante o concerto vai dizendo umas coisas, rindo de outras, e é assim mesmo um concerto na nossa sala de estar - quando as luzinhas fazem mau contacto ninguém fica incomodado.

Também pode acontecer um ambiente assim numa sala de espectáculos, mas é menos provável. Tal como é menos provável que no fim fiquemos a conversar nos corredores, e a combinar onde havemos de ir jantar, com os músicos e outras pessoas que ainda há pouco não conhecíamos.

Luís Salgado optou por este formato porque M é feito de "canções muito intimistas e próximas". É tudo íntimo neste projecto, até o número de discos editados: 150 exemplares numerados. "Não há mais de 150 pessoas que o queiram comprar", sorri. Mas não é bem assim, porque a edição está a acabar e os 15 últimos, que trouxe para o concerto no hostel, estão a vender-se a bom ritmo.

"Ao passar isto para o espectáculo ao vivo quis manter o espírito do disco, pus-me a pensar no que poderia fazer e achei que o mais próximo que podia estar das pessoas era indo a casa delas". O sucesso foi tanto que, tocando às sextas-feiras e aos sábados, a agenda está cheia até Junho. E para quando ficar mais calor já há pedidos "para casas com piscinas, terraços, para finais de tarde".

Inicialmente Luís não sabia bem o que esperar, mas percebeu que se criava um ambiente único. Se tivesse feito o circuito dos bares, "geralmente associado a coisas mais rock", não teria conseguido "este grau de silêncio, de intimismo", até porque "iriam lá estar pessoas que não teriam paciência para ouvir".

Para os auditórios, Stereoboy - que vai apenas no segundo EP - acha que não tem ainda dimensão. "Então surgiu a ideia: ok, vamos a casa das pessoas." "Acabamos por fazer um circuito que não existe, por criar o nosso circuito". E no fim vai-se jantar.

No dia seguinte ao concerto, Stereoboy deixava uma mensagem no Facebook: "Um muito obrigado ao Romeu e a todas as simpáticas pessoas que encheram aquela belíssima sala no hostel Jardim de Santos. Temos amigos novos em Lisboa :)".

Cena 2 - Alexandre organizou um jantar

Chegamos uma meia hora mais cedo do que o combinado para conversar com o Alexandre - Alexandre Silva, chefe do restaurante Bocca, e anfitrião deste jantar. Não se trata de um jantar de amigos, embora pareça. As pessoas que vão chegar não se conhecem mas inscreveram-se no Facebook do 4th Floor Cozinha Experimental para virem comer à cozinha do Alexandre Silva de uma forma que não conseguem fazer no restaurante.

"Estou há cinco anos no Bocca e, por muito que faça a cozinha que quero, tenho sempre a consciência de até onde posso ir", diz o chef. "E chega uma altura em que o processo criativo começa a ficar bloqueado. Tenho de arranjar um truque que ajude a que o processo criativo continue a avançar."

Estamos aqui para assistir ao "truque". Francisca, a mulher de Alexandre, verifica se está tudo pronto na sala de jantar do seu apartamento em Lisboa. Há música a tocar, a mesa posta para dez, e livros de cozinheiros famosos na estante. Na cozinha, aberta para a sala, Alexandre e os três amigos que convidou para o ajudar nesta noite preparam os pratos, silenciosamente. Não há sinais de sujidade ou de desarrumação. Há uma máquina para cozer a baixas temperaturas, em vácuo - técnica que Alexandre usa para manter as qualidades dos alimentos. E os três ajudantes estão a fazer esferas de café e de pastel de nata para a sobremesa.

Entretanto, os dez participantes já chegaram, sentaram-se em torno da mesa, e Francisca sugere que cada um fale um pouco sobre o vinho que trouxe. O gelo quebra-se. Há, entre os convivas, um especialista em vinhos, e a conversa já não pára. Os pratos começam a chegar, e Alexandre vai explicando o que quis fazer, e pedindo opiniões.

"Isto é mesmo um laboratório de cozinha onde eu e a minha equipa experimentamos coisas até ao limite. O que significa que não temos medo de arriscar em nada". E quem ali vai comer está também aberto a isso, ao contrário, diz o chefe, do que acontece no restaurante, onde a maioria das pessoas tem uma atitude muito mais conservadora. "Aqui, se quisermos servir um carapau com barriga de porco servimos. A ideia é conseguir criar".

Não vai haver carapau com barriga de porco, mas vai haver barriga de porco cozinhada durante 15 horas a baixas temperaturas. E peixe cozido em vácuo com caldo de pato - pode parecer uma mistura pouco promissora, mas pelo contrário, o caldo de pato parece puxar pelos sabores do peixe. À volta da mesa trocam-se opiniões, Alexandre espera, atento, para perceber as reacções. Já trouxe uma cenoura cozinhada com citrinos, um fígado que temos de adivinhar de que é (é de peixe galo) com raiz de salsa e de aipo, um creme de aipo com tainha e ovas de cavala.

A ideia, explica, é também mostrar que é possível usar ingredientes pouco valorizados. Quem é que vai optar por um prato de tainha no restaurante? Aqui todos comem tudo o que Alexandre e a equipa encontraram no mercado na véspera de manhã (os jantares são sempre ao domingo, geralmente duas vezes por mês, as compras ao sábado), cozinhado de acordo com um tema livre - no caso, o tema era "A Primavera vem aí - ou então não", uma forma de perguntar se o clima não estará a afectar as épocas naturais de aparecimento dos legumes, das frutas e até dos peixes.

"As pessoas vão trabalhando connosco. Dizem ‘está espectacular, esta textura é surpreendente' ou ‘não gostei muito porque acho que não liga'", descreve o chefe. "O que nos enriquece é perceber onde é que falhámos. Não quero agradar a toda a gente. Haverá sempre quem goste da minha cozinha e quem não goste - tenho de viver com isso. Mas a ideia é que as pessoas entram lá e não se conhecem, e saem os melhores amigos. Adoro fazer aquilo."

Será uma tendência, esta de abrirmos as portas das nossas casas para receber um concerto, uma peça de teatro, ou de irmos jantar a casa de um chef como amigos de longa data? Será a crise que nos está a aproximar? Queremos experiências mais íntimas? Momentos especiais, irrepetíveis? Amor na nossa sala?

Recentemente, em Guimarães, Capital Europeia da Cultura, a população abriu as portas das suas casas para que músicos fossem lá tocar. O projecto chamou-se Mi Casa es Tu Casa e pode-se ver em vídeos no YouTube o entusiasmo, por exemplo, de um homem com um bebé ao colo, sentado no sofá da sua sala, a explicar a um entrevistador como é bom ter um grupo de música a tocar ali.

Não houve dificuldade em conseguir 19 casas e muitos concertos estiveram esgotados. A ideia foi do radialista Fernando Alvim, que explica: "Nunca os artistas estiveram tão próximos do público, e isso muda tudo. Quando se está num palco há sempre uma distância, e ali não havia nenhum obstáculo." Isso não intimida os artistas, garante.

E as pessoas, porque é que abrem as portas das casas e deixam entrar os músicos e mais uma data de gente que talvez conheçam ou talvez não? "Percebem que é uma oportunidade única para receber um artista. Quantas mais vezes poderão dizer ‘tive o António Zambujo e a Aldina Duarte a cantar na minha sala'? Ou ‘no meu sotão está o Samuel Úria'?".

A certa altura, já lá vão anos (foi entre 2003 e 2006), Rogério Nuno Costa achou que, se queria fazer teatro, a melhor forma seria levá-lo a casa das pessoas. Chamou ao espectáculo Vou a Tua Casa e ficou à espera de marcações. E elas foram acontecendo. O projecto tinha como ponto de partida "a questão da proximidade", a vontade de "inverter a ideia do público anónimo", e de evitar "a angústia de não conhecer verdadeiramente as pessoas".

Rogério, que não tinha formação teatral, não se sentia confortável com palcos, luzes a encadearem-lhe os olhos, o público sem rosto. "Queria saber o nome das pessoas, onde moravam, porque queriam ver aquele espectáculo. Não poder ver quem estava na plateia causou-me sempre muito desconforto."

E quem o convidava? "Eram pessoas que têm a mesma postura que eu em relação ao teatro, cansadas do espectáculo que apenas lhes pede para ficarem sentadas numa cadeira e baterem palmas no fim". Curiosamente, quando abriam as portas das suas casas, esperavam que Rogério "ocupasse o espaço delas, até que o vandalizasse".

Não sabiam o que se ia passar - o próprio Rogério não sabia. Levava objectos pessoais, um livro que andava a ler, a música que andava a ouvir; levava as conversas que tinha tido nos dias anteriores, e as pessoas "estavam permeáveis a tudo, à espera de tudo". "Nunca pensei que tivessem uma atitude tão radical", confessa. Em troca esperavam receber "um objecto único, irrepetível, uma dádiva, um presente construído em tempo real para elas e partilhado com elas".

Rogério sente que fez pouco. "Muitas vezes perdia a mão do que estava a acontecer. Os espectadores fabricavam os conteúdos". Às vezes afastavam os móveis pensando que ele precisava de espaço, e ele partia daí. "As expectativas são tão nítidas e transparentes que tinha de as aceitar." As pessoas queriam ser tocadas emocionalmente. E acontecia. "Era um pretexto para as pessoas se aproximarem, se necessário até à relação amorosa - que chegou a acontecer. A intimidade chegou ao limite."

Antes deste projecto, Rogério Nuno Costa trabalhou com Lúcia Sigalho, e é de Lúcia Sigalho que fala João Carneiro, crítico de teatro do Expresso. Alguns espectáculos dela vêm-lhe à memória quando lhe pedimos para contextualizar a tendência de fazer teatro em casa dos espectadores.

São experiências que começaram a surgir com o Living Theater, nos anos 60, e que podiam acontecer em casas privadas ou passar por convidar os espectadores a participarem numa cena da vida doméstica, um jantar, por exemplo. Durante o jantar podia acontecer alguma coisa, ou não acontecer nada. Mas, afirma Carneiro, estas experiências não tiveram um impacto profundo na forma de apresentar teatro.

Em Portugal, "começa a haver nos anos 80 um tipo de teatro feito assim, em espaços não convencionais, mas que tem a ver com o facto de não haver sítios suficientes para todos os criadores." Mas foi Sigalho, diz Carneiro, "quem trabalhou isso de forma mais consistente", fazendo espectáculos em casas, em espaços diferentes na cidade, ou, por exemplo, em quartos de pensão e só para uma pessoa, procurando activar "um teatro não ligado à convenção da coisa colectiva".

Ao domicílio

É uma ideia que tem sido trabalhada também pela coreógrafa Madalena Victorino, actualmente a desenvolver um projecto na Mouraria, com o grupo Sou - Movimento e Arte: representar em casa de pessoas que estão acamadas ou que, por razões de saúde ou de idade, já não conseguem sair. Chama-se Companhia Limitada, e começa com uma primeira visita para o grupo conhecer o futuro espectador. Seguem-se telefonemas para recolher mais informações e, finalmente, o espectáculo em que "as pessoas abandonam as camas e entram numa viagem dentro do seu próprio quarto".

É um projecto mais radical, mas com semelhanças com um outro que a Casa da Música, no Porto, lançou em 2008. A Casa vai a Casa tem como lema "Convidem-nos que nós vamos". Trata-se de uma espécie de serviço ao domicílio para grupos que não podem deslocar-se à Casa da Música. Os formadores do Serviço Educativo visitam hospitais, centros de apoio à infância, lares de terceira idade, prisões, e levam com eles tudo o que é necessário para um espectáculo.

Madalena Victorino recorda-se de Contrabando, outra experiência semelhante em que esteve envolvida, esta com o grupo de teatro Comédias do Minho, e no contacto directo com pessoas que viviam em pequenas povoações, lugares de duas ou três ruas. "Íamos ao encontro das pessoas e transformávamos a casa num teatro". E essas pessoas, algumas que não sabiam ler nem escrever, aceitavam bem a entrada dos artistas nas suas casas? "Sim, claro, anunciava-se uma festa". E assim, trabalhando a partir das próprias vidas, "trazia-se a matéria artística para onde ela não costuma estar".

O prazer desse convívio íntimo com os espectadores, dessa troca de experiências muito mais próxima e intensa do que num espectáculo normal, Madalena sentiu-o pela primeira vez no início da sua carreira, quando organizou um atelier coreográfico para não-profissionais, e um dos participantes lhe pediu para fazerem um espectáculo em casa dos pais e avós. "Trouxe medidas rigorosas da casa, a história da casa, das pessoas que nela viviam, e nós ficcionámos uma peça imaginária com aquele espaço."

Um dia meteram-se num carro com todo o material, apareceram na casa que só conheciam de descrições e fizeram a peça para a família. "Foi um milagre". Tudo encaixava na perfeição. E todos ficaram a perceber o que era o "poder de transfiguração do espaço e das matérias da vida".

O projecto chamou-se Queda num lugar imaginado. Mas podia ter-se chamado Amor na Tua Sala.